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Confesso, sem grande dúvida, que poucos momentos da minha ainda curta vida se assemelharam em nível de felicidade aos passados no Estádio do Fontelo e no Rossio no passado Sábado, dia dezasseis de maio. Apesar de acreditar que os mais primários sentimentos ligados ao desporto-rei não devem ser analisados em demasia por medo de complexificar algo que, no fundo, é simples, dei por mim a questionar-me por diversas vezes sobre a verdadeira razão por trás do meu eufórico estado na festa da promoção academista, e penso ter chegado a uma conclusão.
Primeiro que tudo, e antes de mais ressalvas, quero, inequivocamente, dar os parabéns a todo o plantel do Académico de Viseu, bem como à equipa técnica e staff que compõe toda a estrutura que permitiu que, ao fim de trinta e sete longos anos, se cumprisse um até então longínquo sonho de disputarmos olhos nos olhos a primeira divisão do campeonato de Portugal com potências do futebol nacional que, à falta dos nossos Viriatos, nos víamos forçados a torcer por.
Seguidamente, quero estabelecer um ambiente contextual para justificar a necessidade da escrita de um artigo de opinião sobre um tema cuja natureza binária, certamente dispensa o tecimento de juízos de valor. Quero confessar que, apesar de apreciar como qualquer outro o desporto-rei, nunca fui propriamente movido pelas vitórias e derrotas de qualquer equipa de futebol ao longo da minha vida, à exceção da consagração de Portugal enquanto campeão da Europa em dois mil e dezasseis, daí-me ter sentido espantado quando me apercebi das lágrimas que me caíram no momento do apito final do zero-zero entre Académico e Sporting B, no Estádio do Fontelo.
A verdade é que, apesar de não ser ingénuo ao ponto de acreditar que os mais de seis mil adeptos presentes no jogo da tão aguardada subida sentiram o mesmo que eu, sinto que a real razão para a festa na qual culminaram as quase 4 décadas de espera vai para lá do colocar de um esférico numa área retangular de sete metros e trinta e dois de comprimento por dois metros e quarenta e quatro de altura.
Quero acreditar, e acredito, que também compõe esta epopeia de razões o facto de que no Rossio, não esteve apenas presente uma massa adepta de um clube, mas a sociedade de uma cidade que se farta de ouvir que o país está todo no litoral, seja esse o país futebolístico ou não.
Quero acreditar, e acredito, que ao se cantar o “Somos de Viseu” do rapper Tilhon, não só se vangloriou apenas a vitória de uma equipa de futebol, mas também os contínuos esforços de toda uma região para que se não continue a viver num país fechado em três divisões: ambas as áreas metropolitanas, e o resto.
Quero acreditar, e acredito, que no hastear de cada bandeira e no colocar de cada cachecol negro e branco, estão carimbados o orgulho e a necessidade de mostrar ao mundo que, nos confins da Ibéria, existe um povo que se orgulha de ser Beirão, acima de tudo o resto.
Quero acreditar, e acredito, que por trás da celebração de subida de toda uma equipa à primeira divisão do principal desporto português, está o sentimento egoísta que eu confesso partilhar de forçar o resto do país a olhar para Viseu de igual para igual em mais uma área da vida nacional, ainda que seja algo tão pouco significativo no dia-a-dia das pessoas como o futebol.
Quero acreditar, e acredito, que nada disto foi só futebol, mas sim o brado retumbante de um povo heroico que, apesar de distanciado por dois mil e duzentos anos, continua a vivero orgulho de Viriato em cada passo que toma, em cada grito que dá, e em cada golo que marca.
Quero acreditar, e acredito, que quem escreveu este artigo e celebrou incessantemente a promoção da equipa que se via forçado a criar em videojogos em criança por não a ver representada em mais nenhum pedaço de media, foi apenas um de milhares que sentem nesta conquista o avançar de uma cidade e de um povo a passos largos rumo a um país que, aparentemente, não se fastidia em vê-los ficar para trás.
Sou suspeito, porque acredito verdadeiramente que nutro maior sentimento pela minha cidade que pelo meu país… Mas, apesar de poder estar redondamente enganado, a festa ocorrida aos dezasseis dias do mês de maio de dois mil e vinte e seis fez-me acreditar que não estou sozinho… Ou se estou, que sou feliz assim.