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Fragmentos de um diário –  5 Janeiro de 1986 (continuação)

 SP – Opinião - Jornal do Centro
24.02.24
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Perante esta situação, que fazer? Sorrir. Afinal, na ordem do Universo, tudo isto são insignificâncias.
        Mas irrita verificar como o pensamento das pessoas é feito a partir das suas suscetibilidades particulares. Nada as satisfaz, as preenche, a não ser o que esteja diretamente ligado à satisfação dos seus caprichos, voláteis, efémeros, fúteis.
        E é deste material que se estão a formar as gerações em Portugal. Gente sem cultura, sem princípios, sem formação. Mas é esta gente que está a tomar de assalto o palco. Basta observar os programas de televisão, a condução nas estradas, o atendimento no comércio, o desempenho dos políticos.

11 de Janeiro de 1986

        A lareira acesa. A tarde a cair, cinzenta e fria. Um disco de Leonard Cohen. E aqui estou, sossegado, quieto, quase melancólico. Um ou outro pensamento. E mais nada. A vida, o que é? Para quem recusa o espetáculo, o que fica? O amor? A arte? A arte que resista a transformar-se em espetáculo, em entretenimento. A amizade? A profissão? Mas esta não será sobretudo uma necessidade? A contemplação? O conhecimento?
  Mais tarde, na rádio começa um concerto de Brahms. E que prazer! Um prazer todo interior, espiritual, de recolhimento. É esta a arte que vale, que não nos distrai ou estupidifica. Que nos religa ao divino.
Ah! mas o tempo gasto em ninharias, em insignificâncias, as horas de tagarelice, os dias de terrível aborrecimento, a vulgaridade de boa parte da vida.
  A nossa vida inscreve-se num horizonte obscuro de uma sufocante interrogação, e só se salva quando iluminada por momentos de glória e que nos consolam desta ferida aberta de não sabermos o sentido disto tudo.
E ali o mar. Tão perto, quase aos pés. A encher de azul a moldura das vidraças. Deitado no chão, a cabeça numa almofada, só a ele o vejo. E vejo tanto, vejo o infinito na finitude do seu corpo de serpente. E deixo-me estar, a insuflar de azul o poço sem fundo do olhar. E não sei se é do céu ou do mar, ou de ambos toda esta cor que me inunda o corpo. Deixo-me estar. E no estar sou em plenitude, sem lamentos, sem obrigações, sem peso, só eu e aquele azul, profundo, safira, diáfano. Ah! Fátima, fazes-me tanta falta!

 SP – Opinião - Jornal do Centro

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