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Como surgiu a ideia de alargar o festival até junho?
A questão tem um pouco que ver com os nossos princípios da associação Gira Sol Azul e de todo o trabalho que fazemos. Gostamos, sempre que possível, de estender e aprofundar as coisas em vez de aparecerem de uma forma efémera. Nós temos sempre este desejo de tornar as coisas mais regulares e de as aprofundar. Houve uma altura em que conseguimos fazer quase mensalmente um concerto, mas nem sempre é possível. Só quando há financiamento para tal e nós neste momento não temos esse tipo de financiamento, portanto alargar aqui até um mês e meio antes do início previsto do festival para nós já é um bom passo e vem na sequência dessa vontade.
Sobre a escolha de músicos viseenses e falando no Jazz ao Domicílio, porquê a escolha de Senhor Jorge?
Porque o Sr. Jorge é uma pérola. É um privilégio para nós poder tocar com ele. Quando foi a conferência de imprensa estava a conversar com ele e acho que ele, assim como outros projetos desta natureza, não têm por vezes consciência da riqueza que são. Acham sempre que lhes estamos a fazer um enorme favor ao convidá-los para tocar e para vir a palco. Eu acho que é precisamente o oposto. Acho que o Senhor Jorge tem um talento incrível e genuíno e acho que é uma mais-valia para qualquer projeto em qualquer área – seja mais experimental, seja mais jazzístico – poder ter esta camada do timbre da sua voz, da forma como ele canta e da sua forma de interpretar. Acho que é mesmo uma riqueza incrível. Para nós sem dúvida nesta lógica de fazer conexões com outros projetos de Viseu, há muito que tínhamos também esta vontade de o convidar e ainda bem que o projeto aceitou, porque o Senhor Jorge não é apenas Jorge Novo. São também os músicos que o acompanham.
Acha que falta cultura neste tipo de instituições como o estabelecimento prisional e o hospital psiquiátrico?
Eu acho que falta cultura em todo o lado, não é só nestas instituições. Por acaso no outro dia passei por um daqueles vídeos curtos no Instagram em que o Gilberto Gil estava a dizer que a cultura não é algo de extraordinário, que a cultura é e devia ser ordinária. No sentido de ser banal, de estar constante e presente no nosso dia, e não uma coisa extraordinária que aparece e que ficamos todos espantados porque só aparece de vez em quando. É uma coisa em que eu acredito há imenso tempo e ouvir isto desta forma de alguém como o Gilberto Gil só vem dar força àquilo que já pensamos. Estas instituições estão mais inclinadas a estarem vedadas à cultura, pela natureza do sistema, mas acho que é em todo o lado. Acho que há um grande trabalho a fazer e Viseu, nos últimos anos, penso que deu uns passos atrás nesse sentido. Acho que é mesmo importante esta consciência de que a cultura e a arte são um bem de primeira necessidade, como temos de comer, de beber e de descansar. A cultura é fundamental e vemos o estado em que o mundo está. Muitas vezes também se justifica com falta de cultura.
O donativo consciente também é outra forma de relembrar essa universalidade da cultura?
Sim. Por um lado, é sempre esta tentativa de consciência, de as pessoas também se formarem. Isso só acontece se falarmos sobre as coisas, se chamarmos a atenção. Se por um lado a cultura deve ser acessível a todos, por outro lado ela não se faz sem financiamento, sem suporte. A maioria das vezes os dinheiros públicos não chegam. É muito difícil mobilizar privados. Nós temos alguns a quem agradecemos imenso, mas fica sempre muito aquém, o financiamento que se tem em relação àquilo que se gostava de fazer e muitas vezes daquilo que se faz na prática. Acho que é importante as pessoas terem essa consciência e quem pode contribuir na medida daquilo que cada um consegue. Não ser vedado o acesso a ninguém, mas que quem pode contribua e acho que isso é importante.
Em relação ao workshop de jazz, que deu início ao festival, qual a importância que para vocês tem hoje esta parcela do festival?
Acho que continua a ser extremamente importante. Nós começámos a fazer o workshop por uma questão de necessidade. Nós, as pessoas que fundaram a Gira Sol Azul, eramos um grupo de jovens que se conheceu na universidade. Fizemos um workshop na Covilhã que nos marcou imenso, num formato em que depois nos inspirámos para colocar em prática em Viseu. Foram três dias intensivos com músicos incríveis do jazz português. Isso marcou-nos imenso, ficámos sedentos de querer aprender mais. Na altura tínhamos a sorte de ter o Luís Lapa, que ainda vivia cá em Viseu. Foi um grande mestre para nós nesta área. Juntávamo-nos quatro e íamos a casa dele uma vez por semana para ter aulas de grupo com ele, nesta área da improvisação e harmonia no jazz. Não havia mais nada e sentimos que se calhar como nós poderia haver outras pessoas que nós não conhecíamos. Outros músicos ou estudantes de música que podiam estar interessados. Por isso passado um ano ou dois começámos a organizar esse workshop nesse formato. Chegámos a ter sete músicos a orientar. Um para cada instrumento, uma parte do dia com aula de instrumento e a outra parte do dia com aula de combo, a tocar em banda. Depois havia ainda uma parte mais teórica de harmonia e improvisação com o concerto final. Depois houve um ano em que em vez de serem apenas os alunos a apresentar o que fizeram no workshop, havia também um concerto com os professores. Depois mais uma ou outra iniciativa durante o dia e de repente percebemos que aquilo já não era só o workshop de jazz de Viseu, que era já um festival a começar. Decidimos, passado quatro anos, assumir o nome de festival.
Falando agora da artista que vai atuar com a Gira Sol Azul, a Lura, e do concerto em parceria com o Tom de Festa. De que modo surgiu esta oportunidade?
É uma novidade muito bonita porque a nossa história enquanto associação Gira Sol Azul começa na ACERT. Eles tiveram um festival de jazz há muitos anos, onde nós fomos voluntários e participámos em montes de workshops e masterclasses. Foi muito inspirador e a ACERT sempre foi um lugar que, na arte em geral, teve uma importância muito grande. Passado estes anos todos, para nós é um privilégio termos este concerto em parceria, pela nossa relação afetiva com a ACERT. É sempre um esforço muito grande, em termos financeiros e humanos, montar este concerto com o coletivo, único, em que andamos durante várias semanas a ensaiar e depois só fazemos um concerto. Sabe sempre a pouco. Portanto, esta oportunidade de nos estrearmos em Tondela e repetir depois em Viseu é espetacular. A Lura é uma pessoa incrível. Em palco é fantástica. Na sua relação com o público e a sua música também tem uma força e uma energia extraordinárias. Connosco a relação tem sido espetacular e é um privilégio muito grande podermos tocar a música dela com ela.
Sobre o festival deste ano, que mudanças existem em relação ao ano passado?
Há sempre uma grande questão que é fazer jus ao nome do festival, que é uma pergunta, “Que Jazz É Este?”. Nós temos de alimentar isso. Não podemos ter esse título e depois fazer de conta que se quer um festival normal. É mesmo uma pergunta e uma provocação. Uma das coisas que me dá mais prazer é estar a assistir a concertos e ouvir as pessoas a perguntas “então, mas isto é jazz?”. Isso é ótimo. Esta diversidade é uma das coisas que queremos manter. Acho que temos um grande trabalho a fazer em relação a este preconceito em que às vezes estamos fechados no que é um determinado género musical ou não. Continuo a acreditar que as coisas estão em constante transformação como o mundo e as pessoas. Em relação às nacionalidades, é sempre muito difícil trazer pessoas de outros continentes. Muitas vezes só quando elas andam em trânsito e conseguimos à boleia de outros programadores ou festivais, mas tentamos ter essa representatividade. Além disso, este ano temos uma novidade que é o laboratório de experimentação sonora, dirigido por duas músicas incríveis, a Beatriz Rola e a Inês Luzio, com uma experiência muito grande a trabalhar com grupos e em cocriação com outros músicos e pessoas da comunidade como um todo. O laboratório é aberto a todas as pessoas, inclusive a quem toque música.
Qual a importância das jam sessions dentro do festival?
Acho que as jam sessions fazem com que os jovens se motivem e se interessem mais a sério em agarrar uma carreira musical. É através da prática, e este contacto direto com outras pessoas é fundamental. Para mim as jam sessions são um lugar incrível e é muito emocionante quando de repente vemos no mesmo palco os miúdos que tocaram durante a tarde no workshop ou os mais velhos que vêm dos cursos profissionais, que tocaram com os seus combos, com um músico estrangeiro e outro de cá. Acho que é muito importante para quem está a começar, poder sentir motivação para aprofundar os seus conhecimentos.
A interação dos mais novos com os músicos mais experientes também é uma amostra da importância deste festival para colocar Viseu no mapa a nível cultural?
Sim, percebemos desde o ano anterior à pandemia que há uma diferença no público que tem que ver com este acréscimo de pessoas de fora. Continuamos a ter público fiel de Viseu que eu acho que são pessoas que confiam no trabalho da Gira Sol Azul e que independentemente do que nós trazemos, vêm por uma questão de confiança. Sabem que vão ser surpreendidas. Podem não gostar da mesma maneira de todas as propostas, mas gostam de ficar a conhecer, mesmo coisas que há partida não lhes agradaria tanto. Desde 2019 notamos que há muito público de outras cidades e até do estrangeiro que vêm porque viram este ou aquele concerto, nomeadamente concertos de músicos estrangeiros que vêm a Portugal e que vêm fazer um concerto só a Viseu. De repente temos pessoas que são fãs desses músicos, que vieram cá e que aproveitam para usufruir do resto do festival e que nos escrevem muito agradados com o formato menos convencional. Para além dos concertos de palco, há uma série de iniciativas que surpreende as pessoas e que as envolve.
Se houvesse alguém na dúvida entre ir ou não ao festival, em apenas duas ou três frases, como é que convencia essa pessoa?
Não têm nada a perder e só têm a ganhar, porque acho que podem conhecer coisas novas e para além da música em si, há um aspeto muito importante neste festival que é o encontro. Acho que faz todo o sentido e cada vez mais precisamos de encontros e de sair um bocadinho do nosso ciclo mais confortável. Experimentar estar com outras pessoas, outras linguagens e outros lugares. Além disso, os sítios onde temos as iniciativas são sítios incríveis, desde os Jardins da Casa do Miradouro aos Claustro do Museu Grão Vasco ou ao Parque Aquilino Ribeiro.