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Um realizador “com voz própria” e autor de filmes que foram “espelho da sociedade portuguesa”. É este o legado que Rodrigo Francisco, coordenador do Cine Clube de Viseu guarda de António-Pedro Vasconcelos. O realizador morreu esta quarta-feira aos 84 anos.
Rodrigo Francisco conheceu António-Pedro Vasconcelos e nas conversas que teve com o cineasta vai recordar uma “pessoa muito estimulante”. “Além de ter uma paixão por filmes, mas não se esgotava no cinema. Era um leitor inveterado, um consumidor de filmes, música. Partilhou vida social e vida profissional com escritores como o José Cardoso Pires, realizadores como o Fernando Lopes. Fazia dele uma personalidade muitíssimo carismática e esse carisma notava-se nos filmes dele”, ressalva o responsável pelo Cine Clube de Viseu.
Ao Jornal do Centro, numa reação ao desaparecimento do realizador de “Amor Impossível”, filmado em Viseu, em 2015, Rodrigo Francisco defende que o cineasta conseguiu ter “uma voz própria no cinema”. “Sentimos que os filmes dele eram filmados por ele, não podiam ser por outra pessoa. Além de serem filmes muito ligados a Portugal e esse não é um lugar muito comum em Portugal. Em muitos momentos os filmes de António-Pedro Vasconcelos são um espelho da sociedade portuguesa. As pessoas lembrar-se-ão de ‘Jaime’, nos anos 90, sobre o trabalho infantil, ou, mais recentemente, ‘Os Gatos não têm vertigens’, com a Maria do Céu Guerra, sobre a desertificação dos centros históricos das cidades. Em vários momentos ele foi corajoso. Falou do que estava a acontecer no país. E essa é uma característica que lhe é muito singular”, sublinha.
Rodrigo Francisco sustenta que o realizador que partiu a quatro dias de comemorar 85 anos de vida, não era autor de um único tipo de filmes. “Ele realizava filmes que tinha necessidade de fazer, independentemente de ser um policial, um filme mais realista, mais dramático ou mais cómico. Passava por vários registos. Sentia-se seguro para isso acontecer. Esse é o maior elogio que se pode fazer”, ressalva.
“A marca dele foi ter tido uma voz própria em vários momentos. Conseguiu falar do país em que vivia. Colocou questões sobre o que estava a acontecer”, concretiza o coordenador do Cine Clube de Viseu.
Além de se afirmar nos filmes, Rodrigo Francisco recorda que António-Pedro Vasconcelos “nunca passou ao lado de debates que estavam a acontecer no cinema, mas também na Cultura”.
António-Pedro Vasconcelos morreu esta quarta-feira aos 84 anos. Para a história do cinema português ficam vários filmes que realizou. “O Lugar do Morto”, “Imortais”, “Jaime”, “Call girl”, “Amor Impossível”, “Os Gatos não têm vertigens” são alguns dos exemplos.
Nascido em Leiria em 10 de março de 1939, António-Pedro Vasconcelos foi realizador, produtor, crítico e professor, tendo fundado o Centro Português de Cinema.