Quando chegámos ao Largo Dr. Couto, em Mangualde, já havia aplausos, lágrimas e muitas flores. Sabíamos que o cortejo fúnebre estava próximo do centro da cidade. Apesar de ouvirmos algum burburinho de fundo, tudo era silêncio como se as palavras fossem demasiado vazias para descrever a vida de Jorge Coelho. A rodear uma parte do largo, avistámos uma simples frase a repousar numa faixa da Cooperativa Agropecuária dos Agricultores de Mangualde: “Até sempre com saudade”. Assistimos à mais pura das emoções. Uns mais contidos que outros. Mas, todos lhe reconheciam a bondade, a simplicidade e o carinho que tinha pela sua cidade.
Ao entrar na praça, o olhar passou dos cravos vermelhos, alguns esbranquiçados, para a urna que acabara de chegar. Estava envolvida por um manto avermelhado que, na realidade, desvanecia através dos vidros esfumados do carro da funerária. E o silêncio permaneceu durante um minuto. Se o olhar se mantinha na urna por breves instantes, desviou-se para a calçada quando as lágrimas insistiam em cair. Depois, aplausos e cravos abraçaram todo o largo.
À saída? Apenas emoção. Várias foram as pessoas que acompanharam Jorge Coelho até à sua terra, Contenças. E nós também. À nossa frente, apenas 10 quilómetros e mais uns tantos de carros que tentavam completar o trajeto até ao cemitério de Santiago de Cassurrães.
O antigo ministro Jorge Coelho fez muito pelo seu concelho-natal. E, por isso, é que todos o guardam como “um grande amigo de Mangualde e um grande homem”, disse o mangualdense Domingos Teixeira, enquanto relança o olhar para a imensidão de flores que as “as carrinhas da funerária ali levam”.
E não esquece: “engrandeceu muito Mangualde e puxou muito por Mangualde e por esta zona toda. Não há palavras”. E questionámos-lhe pela pessoa que era Jorge Coelho. “Como hei-de dizer? Era amigo dos pobres e ajudava qualquer pessoa em quaisquer circunstância”, lançou, com o olhar já humedecido pela saudade, recordando a queijaria que criou com cerca de 20 postos de trabalho direto.
A esposa, Glória Teixeira, também não deixou de dizer algumas palavras pelo antigo ministro: “Fazia o bem, dava muito trabalho a toda a gente”. Enquanto amparava o marido, também lembrou que “temos que pensar que a vida é um dia de cada vez, seja quem for”.
Encontrámos também Lígia Fonseca, amiga de Jorge Coelho, sentada num dos muros que delimitavam o cemitério de Santiago de Cassurães. Com alguma rouquidão na voz, avança que “era um homem com um coração enorme, daí ter amigos de todos os quadrantes, de todos os lugares e penso que é uma perda enorme”, rematou, com a mão a repousar sobre a testa.
“É um dia triste para Mangualde, uma vez que nos despedimos da sua maior referência política e social. Hoje é o dia em que nos despedimos do seu corpo, mas também é o dia em que assumimos plenamente o seu legado”, disse Elísio Oliveira, presidente da Câmara de Mangualde.
O autarca defendeu que quando se perde “um valor destes” toda a gente fica “mais pobre e [enlutada]”, lembrando que foi a razão que levou a autarquia a decretar três dias de luto municipal, que terminam hoje.
Na praça mangualdense estiveram a ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, os secretários de Estado do Desporto, João Paulo Rebelo, e da Igualdade, Rosa Monteiro, também eles oriundos da região.
Também se deslocaram personalidades como Rosa Mota, antigos companheiros da política como Francisco Assis e Edite Estrela, e também os autarcas da região dos vários quadrantes políticos e responsáveis civis e militares.