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Porque é que avançou para a presidência da Federação Portuguesa de Ciclismo?
É uma candidatura de um dirigente que está muito preocupado com o futuro do ciclismo. Tenho 41 anos e sou o mais jovem presidente de uma associação regional. O futuro é muito sombrio, vejo muito pouco desenvolvimento. A atratividade para jovens que se possam juntar ao associativismo é, cada vez, menor. E é com base nestas preocupações que me candidato para garantir que o desporto e o ciclismo passem a ser mais atrativos para captar dirigentes, treinadores, atletas, para rejuvenescer uma comunidade que está envelhecida e que já deu o que tinha para dar. Fizeram um bom trabalho no passado, mas, neste momento, estão a entrar numa fase de completa desatualização e precisam ser apoiados por pessoas mais jovens, como eu.
Tem referido que é preciso reposicionar o ciclismo enquanto modalidade desportiva de interesse público. Isto é exatamente o quê?
Está relacionado como, no passado, o ciclismo estava introduzido na nossa sociedade. Houve corridas que foram desaparecendo e, neste momento, a única corrida que serve de montra para o ciclismo nacional é a Volta a Portugal. E também ela está em queda. O ciclismo é muito mais do que isto. É uma modalidade apaixonante, que tem a possibilidade de atrair multidões para as estradas, de levar pessoas a espaços confinados para corridas, que não apenas ciclismo de estrada. Tem espetacularidade, adrenalina. O ciclismo precisa de ser, novamente, transformado num espetáculo desportivo. E quando o conseguirmos fazer, vamos transformar o ciclismo numa das modalidades desportivas mais vistas e mais apreciadas em Portugal.
Esse tal espetáculo desportivo é apenas visto na Volta a Portugal?
A Volta tem uma ligação histórica à nossa sociedade. É a Volta do povo que, notamos, está muito agarrada às gerações mais velhas. Está a ser muito difícil passar a imagem de grande evento aos mais novos. E isso está a fazer-nos perder adeptos. Há provas que antigamente passavam na televisão e que agora não passam. Eram provas que aproximaram as pessoas do ciclismo e que têm de passar para a ribalta. E dar oportunidade a outras vertentes. O caso do downhill, que é um espetáculo que atrai multidões, o XCO, uma vertente olímpica, o ciclocrosse… O ciclismo, num todo, é um espetáculo desportivo.
Sente que a transmissão televisiva da Volta a Portugal perdeu importância?
No ano passado teve mais destaque e isso foi importante. Mas é preciso replicar a outros eventos desportivos. Hoje em dia, algo não tem destaque, se não passar nas redes sociais ou na televisão. Estarmos a limitar a promoção do ciclismo, em especial do ciclismo profissional, à Volta a Portugal ou ao Algarve, estamos a limitar a visibilidade da modalidade à comunidade em geral. E se queremos aproximar mais atletas, dirigentes, patrocinadores, dinheiro, obrigatoriamente vamos ter de trabalhar no sentido de o colocar novamente na televisão. De o mostrar a toda a gente.
Tem dito que é preciso tornar a Federação Portuguesa de Ciclismo uma referência nacional. Já não é?
Infelizmente, não. Foi perdendo com o tempo. As pessoas que lá estão, já estão cansadas. A Federação de Ciclismo, à semelhança de outras, precisa de renovação. Hoje não podemos ter à frente de federações pessoas que gostam daquela modalidade. Precisam de ter pessoas nos quadros sociais que sejam da área da gestão desportiva, do desenvolvimento desportivo. Que tenham especialização e estudos em determinadas áreas. Federações que não têm pessoal qualificado nos órgãos sociais acabam por ficar para trás. E na nossa federação eu reconheço isso. Há processos que não evoluem, porque as pessoas que lá estão, não têm condições, nem capacidade para os fazer evoluir.
O que é que fica da presidência de Delmino Pereira na Federação Portuguesa de Ciclismo?
Fizeram um bom trabalho dentro daquilo que são as capacidades deles. Estando por dentro, reconheço que havia condições para fazer um muito maior trabalho. Do ponto de vista do ciclismo de pista, graças ao selecionador, temos campeões europeus e mundiais. Mas depois, relativamente a outras vertentes do ciclismo ficou muito por fazer. O BTT sempre foi o parente pobre. É uma vertente mais jovem do ciclismo, mas que pela falta de cultura de quem está na Federação – que está muito ligada ao ciclismo de estrada – nunca houve permissão dada ao BTT para que pudesse evoluir. E quanto ao ciclismo de estrada que é o que a Federação mais apoia do ponto de vista financeiro, não teve grande crescimento. Se espremermos tudo, temos um João Almeida e um António Morgado. E os restantes 200 miúdos que pedalaram com eles? Onde andam? O investimento foi feito, mas só saíram dois. Terá sido bem feito? Será que não podíamos ter feito um melhor trabalho no apoio aos clubes, nos quadros competitivos? No caso do João e do António, tiveram vantagem porque tiveram famílias que os deixaram sonhar com uma carreira profissional. No outro dia comentava com um amigo, se o Cristiano Ronaldo tivesse ido para o ciclismo, teria sido alguém? Não. A família dele não teria condições financeiras para garantir que estivesse neste desporto.
E cabe à Federação dar essas condições?
Do ponto de vista financeiro, não. Mas nem tudo é dinheiro.
Marketing?
Acima de tudo. Atrair mais financiamento para o ciclismo. Havendo mais dinheiro, é possível dar mais condições aos clubes, aos atletas, criar mais competitividade nas competições.
Então do seu ponto de vista uma das maiores falhas desta presidência é a visibilidade dada ao ciclismo?
Acima de tudo, sim. Tenho um grupo de pessoas na minha lista que são apaixonadas pela modalidade, que querem alterar a estratégia atual. E tenho outras que não são do ciclismo, mas do desporto e do desenvolvimento desportivo. Pessoas que conhecem a realidade da gestão desportiva e do marketing. É através disso que nos vai permitir crescer, evoluir e ter mais visibilidade.
Nas eleições terá Cândido Barbosa como adversário e que já foi apoiado por Delmino Pereira. É um apoio que o prejudica ou beneficia?
Acredito que seja benéfico. Vejo a comunidade [do ciclismo] extremamente cansada, muitas pessoas têm vontade de deitar a toalha ao chão. Acredito que este clima de cansaço, insatisfação e mudança, é benéfico para mim. Sabendo que o outro candidato é apoiado por uma direção, que já lá está há 12 anos, apoiado por outras pessoas como o atual presidente da Assembleia, Artur Lopes, é vantajoso, para mim. Esta minha candidatura só avançou depois de uma longa conversa com o Cândido Barbosa, em Viseu, em janeiro. Juntámo-nos num restaurante durante três horas. Admito que no início da reunião estava bastante entusiasmado para me juntar a um projeto liderado pelo Cândido, mas saí completamente desiludido. Como presidente de uma associação regional, não me revia na maior parte das coisas que o Cândido tem como ideais. Não me revejo num discurso em que o BTT serve apenas de maternidade para o ciclismo de estrada. Sendo presidente de uma Associação onde 90% da nossa comunidade pratica BTT, é completamente impossível aceitar isso como válido. O ciclismo de estrada é totalmente diferente do BTT. Nem todas as pessoas têm uma personalidade que se identifica com o ciclismo de estrada. Temos de dar condições aos jovens de fazerem percurso no BTT e de lhes dar o sonho de chegar aos Jogos Olímpicos. Eu sou um dirigente que reconhece a importância do ciclismo em todas as vertentes. A próxima direção da Federação não pode, nem deve continuar com o registo de que só o ciclismo de estrada é que é bom. Tudo o que tenha uma pedaleira e uma corrente é suscetível de atrair atletas, multidões e dinheiro. Se as comunidades do ciclismo de pista, de estrada, BTT, downhill, não se juntarem e não houver uma união para formar uma comunidade única, não vamos conseguir evoluir.
O Pedro tem afirmado que é preciso mexer no calendário do ciclismo em Portugal. Como?
É um tema complexo. Não temos atletas suficientes para dividir comunidades. No ciclismo feminino, por exemplo. Temos atletas que, por falta de quadro competitivo, acabam por ter de participar em provas de estrada e BTT para poder ter ritmo e competir. O ciclismo feminino em Portugal neste momento limita-se a cinco provas da Taça de Portugal e um campeonato nacional. É muito pouco. Como se consegue juntar patrocinadores limitando-se a cincou ou seis dias de competição por ano? E depois como é que as atletas vão evoluir se não têm um quadro competitivo que lhes permita evoluir? Por não terem mais provas de estrada, vão para o XCO. É uma vertente explosiva, onde se tem de apurar técnica e que são benéficas para o ciclismo de estrada. Se a Federação, no planeamento, concilia, na mesma data, uma prova da Taça de Portugal de estrada, com uma prova da Taça de Portugal XCO, as atletas têm de escolher. E na altura manifestei-me contra. Devia haver um desfasamento de competições. A planificação anual das competições deve ser feita com os vários departamentos sentados à mesma mesa.
Está confiante para o resultado eleitoral?
Bastante. Acima de tudo estou tranquilo. Eu tenho 41 anos, sou presidente da Associação de Ciclismo da Beira Alta desde 2019, já dei muito da minha vida – e dou – de forma voluntária em prol da Associação. Estou tranquilo porque, no meu dia a dia, não preciso do ciclismo para nada. O ciclismo é que precisa de mim. E esta candidatura vem neste sentido. Não quero passar a imagem de um homem altruísta. Tenho a noção da minha importância na vida associativa e no desenvolvimento do ciclismo, até mesmo no nosso território.
É esse o ponto-chave da candidatura?
Sim. E ter a noção de que sou importante. Eu e as pessoas que escolhi para colocar na minha equipa. Eu não vou trabalhar sozinho.
A candidatura nasce depois do tal jantar com o Cândido Barbosa?
Essa é a parte mais engraçada. Já há muito tempo que algumas pessoas me diziam que me deveria candidatar. Entretanto, sempre tive uma relação de proximidade com o Cândido [Barbosa]. Reconheço-lhe o espírito de trabalho. Ele gosta de trabalhar. Se tem a estratégia certa, é completamente diferente. Agora, tem garra. Uma das pessoas que falei sobre a minha candidatura foi com ele, em finais de novembro, em Guimarães. Conversámos sobre vários tópicos e um deles foi a candidatura. A certa altura deparo-me com o cenário da candidatura dele. Aparece do nada. Nunca ninguém me tinha dito nada. Passado pouco tempo recebo uma chamada do Cândido a dizer que precisava de falar comigo. Encontrámo-nos em Viseu, conversámos. No final, o que poderia ter acontecido era: ou eu me identificava com o projeto dele e o acompanhava, ou eu avançava com uma candidatura. Liguei a algumas pessoas a dizer o que se estava a passar e motivaram-me a continuar com a candidatura. Não é o nome que faz o presidente. No outro dia alguém me perguntava, mas você nunca foi corredor. Pois não, mas não preciso de ser. Eu dou sempre este exemplo. O meu pai foi um grande gestor de uma grande empresa nacional da área da eletricidade e se lhe pedirmos para trocar um interruptor ele não sabe. E nunca precisou. Cumpriu bem a função dele, enquanto gestor. Eu não preciso de ser um grande corredor para ser um grande gestor – que fui – da Associação. Estou tranquilo. Se eu perder as eleições para o Cândido, a minha vida continua, não vou ficar na rua.
E vai recandidatar-se?
Teríamos de conversar daqui a quatro anos. Depende da minha vida, na altura.
Mas se perder será oposição?
Vou continuar a ser presidente da Associação de Ciclismo da Beira Alta pelo menos até 2027, que é quando termina o mandato. Só funciona se trabalharmos em conjunto. Neste último mandato do Delmino Pereira fiz sempre críticas construtivas. Tem é de haver do lado de lá a intenção de ouvir. E até agora raramente aconteceu. Se o Cândido ganhar e não quiser ouvir quem está do lado de cá, provavelmente aí sim, farei oposição e, se tiver vontade, em 2028 estou lá outra vez. Mas acredito que não será preciso chegar tão longe.