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Em Cavernães, Viseu, o amentar das almas abraça a noite

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 Em Cavernães, Viseu, o amentar das almas abraça a noite - Jornal do Centro
30.03.24
fotografia: Jornal do Centro
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 Em Cavernães, Viseu, o amentar das almas abraça a noite - Jornal do Centro
30.03.24
Fotografia: Jornal do Centro
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 Em Cavernães, Viseu, o amentar das almas abraça a noite - Jornal do Centro

Faz-se o sinal da cruz e sai a primeira ladainha: “Acorda cristão acorda, desse teu sono profundo. Viemos agora lembrar as almas do outro mundo”. A oração é cantada, em uníssono, pelos mais de dez homens que, de manto preto, percorrem algumas ruas de uma aldeia de Viseu. São quase 22h00 e o silêncio toma conta da noite. Estamos na véspera do dia da Ressurreição de Cristo. Até lá, é preciso fazer a encomendação das almas. A missão é entregue ao Grupo de Amentação das Almas de Cavernães.
A procissão começa junto à capela. O trajeto é feito em silêncio. Não há conversa, não há cumprimentos, não há agradecimentos. A partir do momento em que se faz o sinal da cruz, o único som que sai das gargantas destes homens são os louvores e os apelos pelas almas que sofrem no purgatório. “Rezaremos mais um padre nosso com mais uma avé maria em louvor das benditas almas”, entoam.

Andam mais uns metros e de novo mais uma ladainha . Na aldeia “nem viv’alma”. Talvez só aquelas que precisam de ser “amentadas”. Reza-se a Avé Maria, faz-se, de novo, o sinal da Cruz. A missão termina.
A amentação das almas é um ritual do período quaresmal que ainda permanece em muitas aldeias do distrito de Viseu. São cânticos que remetem para a meditação, daí o silêncio entre eles. Invocam-se os mortos, recordam-se os familiares falecidos.
“Obrigado! Muito obrigado”, ouviu-se na noite, estava a amentação quase a chegar ao fim. A voz comovida saiu de um homem que da janela da sua casa agradeceu ao grupo. Não houve, de volta, resposta de agradecimento. Mais tarde, soube-se, tratava-se do senhor João. “Perdeu há pouco a mulher, já tinha perdido a filha”.

Regresso dos emigrantes
recuperou tradição secular

Esta tradição, de raiz cristã, está incluída nas manifestações de religiosidade popular, porque é uma prática ritualizada por populares à margem do culto oficial quaresmal. A amentação ou encomendação das almas realiza-se durante 40 dias. Termina esta sexta-feira santa com as “excelências”, período em que os cânticos são diferentes.
“Isto é um ritual que veio dos nossos antepassados em que eles por altura da quaresma cantavam estes cânticos para chamar a atenção do povo para refletirem que estão os nossos familiares ou outras pessoas no purgatório. Lembrar que é preciso rezar por eles”, explica Silvério Figueiredo, porta-voz do grupo.

Todas as noites de saída são iguais. “Cantamos e durante o percurso rezamos um pai nosso. Começamos com o ´acorda, cristão, acorda’ para chamar a atenção das pessoas que as almas estão lá e precisam da nossas preces. Com os versículos rezamos uma novena”, descreve.
Há mais de 20 anos que estes homens andam “a vaguear” pela noite. Começaram quando eram novos, mas as vicissitudes da vida levaram cada um para o seu canto e a uma interrupção do ritual.
“Há aqui pessoal que já cá andou quando tínhamos 16, 17,18 anos. Mas há cerca de 20 anos, até com o regresso de alguns que emigraram, começámos novamente. Começámos o grupo com os tais que tinham cantado com os nossos bisavós, avós e pais”, acrescenta Silvério Figueiredo.
E se durante o caminho o silêncio é para ser cumprido, o regresso ao ponto de partida já é feito com outra disposição. Assegura quem já faz este ritual, que para muitos é arrepiante, que nunca apanhou qualquer susto. “Se nós estamos a rezar pelas almas…a pedir por elas”, atira Arlindo Pinto.
É o mais velho do grupo. A primeira vez que Arlindo Pinto começou a “amentar as almas” tinha 16 anos. Interrompeu durante várias décadas. Quando regressou a Cavernães teve vontade de retomar. “Começámos, mas já não me lembrava das letras. Então andámos à procura dos mais idosos que já tinham feito isto para reunir todos os versículos. Batíamos à porta de uns e de outros para reunir tudo”, conta.
João Diogo tem 35 anos e está no grupo há dois anos. Quer manter viva a tradição. “Estar aqui, para mim, tem um significado diferente. Eu vim a convite de uns colegas meus e aceitei o desafio porque é importante manter estas tradições e também é uma forma de honrar os nossos antepassados e manter a memória deles viva”, sublinha.
É um ritual simples, singelo, mas cheio de significado. Eu acho que cada vez mais é preciso encomendar as almas. É pena que a espiritualidade esteja a desaparecer. Os dias de hoje são o que eu chamo de três P – pouco, pequeno e possível. É cada um pelo seu cantinho. Esta é a altura de refletir porque nós não somos ninguém”, recorda Silvério Figueiredo. E avisa: “Acorda, cristão, acorda. Lembra-te que hás-de morrer, que hás-de prestar contas a Deus do mal e bem fazer”, já o diz a ladainha.

Se a preocupação com o destino das almas que sofrem no purgatório é antiga e o ritual de sair para a rua de noite, a lembrar que se reze por elas, remonta a séculos passados, hoje a tradição vai mais longe e já se começam a organizar encontros de grupos. Foi o que aconteceu um pouco por todo a região durante esta semana. Em Cavernães, juntaram-se mais de seis grupos, entre eles o das mulher que cantam os martírios em que são pedidos os louvor “à Nossa Senhora”.
“Neste período, uns vem até aqui e depois vamos nós a outros lados para estes encontros. Chegamos a ser quase uma centena”, sustenta Silvério Figueiredo que sem ser em versículo faz ao apelo “às almas vivas” para não deixarem morrer a tradição, já que se trata de um bem patrimonial imaterial de valoração de identidades locais.

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