Os Bombeiros Voluntários de Farejinhas são a corporação mais antiga do país, em meio rural, e celebram 93 anos.
Na aldeia de Farejinhas, localizada no concelho de Castro Daire, ou se é bombeiro ou se é bombeiro. A corporação conta já com mais de 90 elementos.
O amor pela causa é grande e o orgulho em vestir a farda é ainda maior. Farejinhas tem cerca de 300 a 400 habitantes e uma boa parte integra a corporação. Mas não só, há elementos vindos de várias freguesias do concelho e até de outros municípios.
Contam-nos que o quartel é a segunda casa e até a primeira, já que são muitas as horas passadas nas instalações. Os bombeiros, asseguram, são uma identidade de Farejinhas. Além desta corporação, o concelho tem ainda os Voluntários de Castro Daire.
O facto de os bombeiros de Farejinhas estarem inseridos num meio rural, numa pequena localidade e fora da sede de concelho, acaba por fazer desta corporação uma grande família, no sentido literal e não literal. Nuno e Sandra Mendes e os filhos ou Sofia Ferreira e os pais são dois exemplos de famílias que integram o corpo ativo dos bombeiros de Farejinhas.
“Desde que me lembro que venho para aqui e isso é comum à maior parte da população de Farejinhas, que nasceu praticamente nos bombeiros”, conta Sofia Ferreira, de 23 anos. A jovem, além de ser bombeira na corporação, é uma das responsáveis pela área administrativa.
“Ser bombeira já faz parte de mim e é um orgulho, mas ser bombeira em Farejinhas é ainda melhor. Nunca estive em outra corporação, mas acho que aqui somos uma família, isto é a minha segunda família e acho que é isso que faz a diferença, aqui sinto-me em casa”, garante.
Os pais de Sofia Ferreira integram a corporação, o pai enquanto voluntário e a mãe enquanto funcionária e bombeira.
“O meu pai era bombeiro, os meus irmãos eram bombeiros, tudo estava aqui. O meu bisavô foi um dos fundadores”, conta Edite Ferreira, mãe de Sofia, lembrando o ambiente acolhedor que sempre se viveu por ali.
Uma boa parte do tempo que Edite Ferreira passa nos bombeiros é dedicado ao serviço de transporte de doentes. Até aqui, garante, se nota que é mesmo tudo uma grande família.
“Acabamos por nos conhecer todos, conversamos durante as viagens e isso é muito bom”, diz reforçando que ser bombeira em Farejinhas “é diferente”.
“Nunca estive em outro sítio, mas sei que aqui é diferente”, assegura.
Nuno e Sandra Mendes são marido e mulher, estão desde há alguns anos na corporação, ela há menos tempo do que ele. Mas não estão sozinhos, os dois filhos de 19 e 21 anos também integram o corpo de bombeiros, algo que os deixa “orgulhosos”.
“É um orgulho que eles gostem”, garante Nuno Mendes. Quanto ao facto de ser pai de um bombeiro, e de muitas vezes irem juntos para ocorrências, assegura que está “sempre de olho no trabalho, mas também a ver como se portam”. “Quando vejo que fazem algo menos bem conversamos e tento ensinar”, conta.
Sandra Mendes, que acabou por ser influenciada pelo marido para integrar a corporação, destaca a vontade que os filhos sempre demonstraram em serem bombeiros e garante que não é fácil escolher um momento de destaque ao longo destes anos.
“Tudo nos marca, acho que nos lembramos de todos os momentos. Ser bombeiro é muito bom”, assegura.
Patrícia Fernandes é outro exemplo de “amor à camisola”, é enfermeira de profissão e conta que ser bombeira sempre lhe esteve no sangue.
“A minha vontade em vir para os bombeiros já era antiga, mas enquanto menor de idade os meus pais nunca me deixaram inscrever, pelo risco inerente. Mas, sempre gostei e já em pequena o meu avô me oferecia carros de bombeiros”, conta Patrícia Fernandes, que é também uma das responsáveis pela escola de formação da corporação.
A bombeira chegou há alguns anos aos Voluntários de Farejinhas e durante a conversa com o Jornal do Centro conta que em 2017, o ano fatídico dos incêndios na região, era estagiária. Quando questionamos se isso a fez repensar a vontade em ser bombeira, Patrícia garante que não.
“Muito pelo contrário, não tive vontade de sair tinha era vontade de ir ajudar e ir com eles, mas não podia”, recorda. Para Patrícia Fernandes ser bombeira é “amor, entrega, paixão e querer ajudar”, garantindo que é muito diferente de ser enfermeira.
“Já sou enfermeira, ajudo, mas aqui ajudo de outra forma, é muito diferente. Aqui, enquanto bombeira, há coisas que não posso fazer, mesmo sendo enfermeira, mas vive-se tudo de outra maneira, nunca sabemos o que vamos encontrar. Até a relação com a própria comunidade é diferente nos bombeiros”, destaca.
Bombeiros de Farejinhas com mais de 90 elementos
Ao contrário do que acontece em muitas corporações onde são cada vez maiores as dificuldades de angariação e retenção de efetivos, em Farejinhas o número de elementos tem vindo a crescer.
“Temos 84 bombeiros mais 12 na escola de estagiários, o que perfaz 96 bombeiros. Temos tido um crescimento a nível de operacionais, é certo que temos o problema de estarmos no interior, o que faz com que muitos desses operacionais, fruto de várias vicissitudes, vão deixando os bombeiros, mas temos conseguido crescer. Estou aqui desde 2015 e, quando cheguei, tínhamos 60 bombeiros e dois ou três funcionários, hoje funcionários já são 20”, conta António Ribeiro comandante dos Bombeiros Voluntários de Farejinhas.
A corporação é, atualmente, uma das maiores, senão a maior, empregadora na localidade, um orgulho para os responsáveis que têm acompanhado o crescimento da corporação.
“É algo que nos deixa com vontade de continuar a fazer mais e melhor”, destaca o comandante que lembra ainda que este aumento permite uma maior capacidade de resposta.
“Fruto desse crescimento também estamos com uma capacidade de resposta maior do que a que tínhamos há uns anos. Temos crescido o número de operacionais, mas também de ocorrências, quer ao nível dos incêndios rurais, o que acaba por ser mais visto, mas temos atividade ao longo de todo o ano. Agora, por exemplo, estamos envolvidos na colocação de sal por causa do gelo. Ao nível do transporte de doentes temos também um lote de funcionários que estão afetos. Temos a parte da emergência médica que também é uma área que tem crescido e que queremos dar continuidade”, conta.
António Ribeiro destaca ainda o reforço do corpo ativo com as Equipas de Intervenção Permanente (EIP), atualmente com duas e com intenções de poderem vir a ter uma terceira. Há ainda o protocolo com o INEM que também “permite ter um socorro diferenciado”. “Somos reserva de INEM e sempre que é necessário temos uma equipa pronta”, explicou.
Novas viaturas precisam-se!
Apesar de um bom número de efetivos, de uma situação financeira “estável e sustentada”, há ainda muito a fazer nos Bombeiros Voluntários de Farejinhas.
Renovar o “parque automóvel envelhecido” é um dos grandes desafios.
“Temos uma situação financeira que se tem mantido estável e sustentada, mas obviamente que as dificuldades se sentem, não só em manter a operacionalidade, mas também em termos de investimento. Uma das lacunas que temos é um parque automóvel envelhecido, nomeadamente na parte de combate a incêndios rurais e urbanos e obviamente não há capacidade financeira, porque são valores muito elevados”, garante João Almeida, presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Farejinhas.
Ainda assim, a corporação adquiriu recentemente uma nova viatura. “Tínhamos a necessidade de um veículo de desencarceramento, fizemos um investimento e será apresentado no aniversário”, frisou.
João Almeida critica que não exista, a nível nacional, um “plano de reequipamento das corporações de bombeiros” e lamenta que as associações tenham que andar sempre de “mão estendida”.
“Esta política da mão estendida deveria acabar. Felizmente temos um município que apoia as duas corporações, mas nunca sabemos o que pode acontecer”, sublinha.
Recentemente, a associação concretizou um sonho antigo: ampliar e reabilitar as instalações, que há muito não tinham condições.
“O quartel antigo foi construido com o esforço da população, mas era uma ambição criar novas instalações. Foi um projeto de ampliação e remodelação, embora não reste nada do anterior, porque não tinha condições. Esse sonho foi conseguido, as instalações foram inauguradas em 2020, e sempre com o objetivo garantir condições dignas para todos os bombeiros, para que continuássemos o nosso trabalho e para que conseguíssemos colocar a instituição no ponto que hoje está”, destacou João Almeida.
1930, o ano em que nasceu a AHBV de Farejinhas
A Associação Humanitária Bombeiros Voluntários de Farejinhas foi fundada a 5 de janeiro de 1930, mas há registos que levam até 1924/1926 no Rio de Janeiro. Os responsáveis pelo nascimento da AHBV de Farejinhas são emigrantes naturais da localidade de Farejinhas, e arredores que se encontravam no Brasil.
“Tudo começou com um movimento de emigrantes da localidade e arredores que se juntou, porque era a vontade das gentes de Farejinhas criar uma corporação de bombeiros. Iniciaram esse movimento no sentido de angariar fundos, que na altura levou à subscrição de uma letra para comprar a primeira bomba braçal e o restante material, no valor de 8.500 escudos”, conta João Almeida.
Nesse dia, a 5 de janeiro de 1930 a Comissão Instaladora reuniu, deu início à instituição e criação do respetivo corpo de bombeiros. “Foram colocados editais, de acordo com a época, quem tivesse serviço militar obrigatório poderia alistar-se para ser bombeiros”, lembra João Almeida.
E assim foi, desde aí os Bombeiros Voluntários de Farejinhas nunca mais pararam. Este fim de semana estão em festa para comemorar os 93 anos de existência.