No coração verde do concelho de Viseu, Côta é uma aldeia onde…
Nasceu, em Cinfães, a Quinta da Maria, um projeto turístico com alma…
No coração do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, há…
por
Natalia Oviedo Ramirez
Todos os verões, há uma pergunta que regressa à consulta: «Como podemos aproveitar melhor as férias?» A resposta nem sempre corresponde ao que os pais esperam ouvir. O maior presente que podemos oferecer às crianças, durante o verão, talvez não seja mais uma atividade, a inscrição num novo campo de férias ou uma agenda cuidadosamente preenchida. Talvez seja, simplesmente, tempo.
Tempo para brincar sem objetivos. Para inventar jogos. Para construir uma tenda com lençóis. Para andar de bicicleta. Para ler um livro só porque apetece e não porque é obrigatório. Tempo para conversar à mesa, visitar os avós, descobrir um trilho na natureza ou simplesmente observar as nuvens, sem olhar constantemente para o relógio.
Vivemos numa época em que se valoriza a ocupação permanente e até a infância parece estar submetida a essa lógica. Como se cada hora tivesse de ser útil e cada experiência tivesse obrigatoriamente de ensinar alguma coisa. Esquecemo-nos, por vezes, de uma ideia simples: brincar não é um intervalo da aprendizagem. É uma das formas mais importantes de aprender.
Ao longo dos anos, a prática clínica ensinou-me uma coisa: raramente uma criança me fala das fichas de férias que completou. Fala-me do cão que conheceu na aldeia, do primeiro mergulho sem braçadeiras, da bicicleta sem rodinhas ou da noite em que ficou a contar estrelas. São essas as memórias que ocupam um lugar especial na infância. E que permanecerão, passados muitos anos.
Talvez por isso não exista um verão perfeito. E ainda bem. Sabemos hoje – e as recomendações das principais Sociedades de Pediatria convergem nesta ideia –, que o desenvolvimento infantil depende da qualidade das relações, da possibilidade de brincar livremente, do sono adequado, da atividade física, do contacto com a natureza e de uma utilização equilibrada dos ecrãs. Até o aborrecimento, tantas vezes encarado como um problema, pode transformar-se num extraordinário exercício de criatividade, autonomia e imaginação.
As férias não são uma pausa no desenvolvimento. São uma forma diferente de crescer. Neste contexto, vale a pena uma reflexão: a infância precisa de menos fotografias e de mais memórias. Muitas vezes, vivemos as férias através do telemóvel, preocupados em registar cada momento. Mas será que estamos a criar memórias ou apenas conteúdo? As fotografias guardam instantes, mas não substituem a experiência de estar verdadeiramente presente. O desafio é simples: fotografar um pouco menos e viver um pouco mais. Sem complicar.
É nas memórias simples que se constrói a infância. E há aprendizagens que não cabem numa sala de aula. O verão é uma delas.
Natalia Oviedo Ramirez, pediatra no Hospital CUF Viseu
por
Natalia Oviedo Ramirez
por
Vítor Santos
por
Alfredo Simões
por
Leonel Ferreira