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Outdoor cinema in a stone courtyard at night, audience seated watching a large screen.
Six musicians pose with their instruments: accordion, banjo, guitars, violin, and percussion on a white backdrop.
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Group of pageant contestants in evening gowns/swimwear with sashes standing on a brightly lit stage, audience seated in foreground.
Six young dancers pose with medals and a large trophy in front of a dance competition backdrop, Portugal flag visible behind them.
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Inteligência artificial e ignorância natural

 Doença de refluxo gastroesofágico: quando tratar bem faz a diferença
27.07.26
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Portrait of a mature man with gray hair in a white button-down shirt, against a black background. Inteligência artificial e ignorância natural

por
Leonel Ferreira

A propósito de certas publicações sobre marxismo acompanhadas por imagens geradas por inteligência artificial

Cruzei-me, não sei bem como, com uma série de publicações sobre marxismo acompanhadas de imagens geradas por inteligência artificial. A experiência é curiosa: há nelas um esforço visual evidente, uma composição gráfica estudada, um certo dramatismo de cartaz político e uma tentativa de dar densidade estética ao argumento. O problema é que, por detrás da sofisticação da imagem, o conteúdo permanece onde sempre esteve: no velho anticomunismo primário, agora maquilhado com filtros digitais.

É caso para dizer: muita inteligência artificial, mas uma ignorância natural absolutamente preservada.

Numa dessas imagens, surge uma figura de boné, ostentando a foice e o martelo, escondida e matreira, como quem espera usar causas justas – o voto das mulheres, a igualdade de oportunidades, os direitos iguais – como disfarce para a revolução. A legenda pergunta: “E se eu as usar como disfarce?”

A imagem quer sugerir uma revelação profunda. Na verdade, revela sobretudo a pobreza do argumento. O marxismo aparece como uma espécie de parasita histórico, à espreita de todas as lutas emancipadoras para as capturar. As mulheres não lutariam realmente pelo voto; os trabalhadores não lutariam realmente por direitos; os povos colonizados não lutariam realmente pela libertação; os pobres não lutariam realmente por justiça. Estariam todos, mesmo sem saber, a ser instrumentalizados por uma entidade obscura chamada marxismo.

É uma tese confortável para quem quer deslegitimar tudo o que cheire a transformação social. O método é simples: pega-se numa reivindicação justa, cola-se-lhe uma sombra vermelha, acrescenta-se uma caricatura maliciosa e, de repente, já não estamos perante justiça, democracia, igualdade ou liberdade concreta. Estamos perante “marxismo disfarçado”.

O que há de novo nisto? Quase nada. Só o software.

A certa altura, nestas publicações, surgem frases como:

O marxismo não é apenas inveja do pobre contra o rico.”

O marxismo, como sabem, é uma ideologia baseada na inveja.”

A relação entre o marxismo e a inveja não foi descoberta ontem.”

A segurança com que estas frases são escritas só é comparável ao desconhecimento que revelam. A pose é filosófica; o conteúdo é panfletário. O tom é de quem acaba de atravessar Hegel, Marx, Engels, a crítica da economia política, a história do movimento operário e dois séculos de pensamento social. Mas o resultado final é uma tese de café: o marxismo é inveja.

Não é uma crítica. É uma redução caricatural.

O marxismo não nasce da inveja. Nasce da análise das relações sociais de produção. Nasce da constatação de que a riqueza, no capitalismo, é produzida colectivamente, mas apropriada de forma privada. Nasce da pergunta sobre quem trabalha, quem decide, quem possui, quem lucra e quem obedece. Nasce da investigação sobre a mercadoria, o valor, a força de trabalho, a mais-valia, a propriedade dos meios de produção e a relação estrutural entre capital e trabalho.

Pode-se concordar ou discordar. Pode-se discutir a validade da teoria, a sua aplicação histórica, os seus limites, os seus desenvolvimentos e as suas contradições. Mas reduzi-la a “inveja” é como reduzir a medicina ao medo da morte ou a arquitectura à inveja de quem tem casa. Pode ter efeito retórico; não tem seriedade intelectual.

A inveja é uma categoria moral. O marxismo trabalha, antes de tudo, com categorias sociais, económicas e históricas. Não pergunta se o trabalhador tem inveja do capitalista. Pergunta por que razão o trabalhador, não possuindo os meios de produção, tem de vender a sua força de trabalho para sobreviver; pergunta por que razão o valor produzido pelo trabalho excede o salário pago; pergunta por que razão a propriedade confere a uns o poder de comandar o tempo, o corpo e a vida de outros.

Isto não é inveja. É análise de classe.

Mas a palavra “inveja” tem uma utilidade evidente: dispensa o pensamento. Permite transformar uma crítica à exploração num defeito psicológico do explorado. Permite dizer que quem reivindica melhores salários não quer justiça, quer o que é dos outros; que quem defende habitação pública não quer direitos, quer nivelamento; que quem exige serviços públicos fortes não quer dignidade, quer dependência; que quem denuncia a concentração da riqueza não quer democracia económica, quer vingança social.

É uma operação velha: moralizar a desigualdade para evitar discutir as suas causas.

Curiosamente, estes moralistas da inveja raramente a detectam onde ela talvez fosse mais evidente: na acumulação sem limite, na ganância institucionalizada, na obsessão pelo lucro, na especulação imobiliária, na pressão permanente para baixar salários, no desejo de transformar todos os domínios da vida – saúde, educação, habitação, cultura, água, energia – em oportunidades de negócio.

A inveja, para eles, só existe de baixo para cima. De cima para baixo chama-se liberdade económica.

Quando os trabalhadores lutam por salário, são ressentidos. Quando os grandes grupos económicos exigem benefícios fiscais, são competitivos. Quando os pobres reivindicam direitos, são invejosos. Quando os ricos acumulam património, são empreendedores. Quando o Estado apoia os mais frágeis, é socialismo perigoso. Quando o Estado salva bancos, empresas ou interesses privados, é responsabilidade nacional.

A balança moral vem sempre inclinada para o mesmo lado.

Outro equívoco recorrente é a ideia de que o marxismo pretende “nivelar resultados” e destruir o mérito. É uma caricatura útil, mas falsa. O marxismo não nega que existam diferenças individuais, talentos diversos, capacidades distintas, escolhas pessoais ou percursos singulares. O que questiona é uma sociedade em que essas diferenças são moldadas, condicionadas e muitas vezes esmagadas por desigualdades materiais anteriores a qualquer mérito.

Falar de mérito sem falar de classe social, herança, propriedade, escola, saúde, habitação, cultura, tempo livre, estabilidade familiar e redes de protecção é fazer batota intelectual.

A criança que nasce numa casa sem livros, sem quarto para estudar, sem segurança alimentar, sem estabilidade económica, sem acesso fácil à cultura e sem rede familiar não parte do mesmo lugar que a criança que nasce rodeada de património, contactos, explicações, segurança, herança e capital cultural. Dizer que ambas têm “igualdade de oportunidades” porque a lei lhes permite concorrer ao mesmo exame é confundir igualdade formal com igualdade real.

E esta distinção é decisiva.

A igualdade formal diz: todos podem tentar. A igualdade real pergunta: em que condições tenta cada um?

O marxismo incomoda porque recusa ficar pela superfície. Não se contenta com a piedade ocasional. Não se satisfaz com a caridade selectiva. Não diz apenas: “ajudemos a criança pobre que merece estudar”. Pergunta também: por que razão há crianças pobres numa sociedade capaz de produzir tanta riqueza? Quem beneficia dessa organização social? Que estrutura reproduz a pobreza? Que relações de propriedade, salário e poder tornam a desigualdade permanente?

Enquanto se ajuda o pobre sem pôr em causa a pobreza, chama-se humanismo. Quando se pergunta por que razão a pobreza existe, chama-se marxismo perigoso.

É aqui que se percebe a diferença entre compaixão e crítica social. A compaixão pode aliviar uma ferida. A crítica pergunta quem a abriu e porque continua aberta. A caridade dá pão. A análise social pergunta quem ficou com a terra, o trigo, o forno, a padaria e o lucro.

Talvez seja isso que estes textos não suportam. Não é a “inveja”. É a pergunta.

Também é intelectualmente preguiçoso apresentar todas as lutas por igualdade como máscaras do marxismo. A luta das mulheres pelo voto, dos trabalhadores por direitos, dos povos pela autodeterminação, dos cidadãos por liberdades democráticas, das populações por saúde, educação ou habitação, não precisa de ser reduzida a uma conspiração. A história é mais complexa do que uma imagem gerada por IA com um homem de boné escondido atrás de uma esquina.

O marxismo teve e tem influência em muitas lutas sociais, como outras correntes também tiveram. Mas dizer que todas as reivindicações de igualdade são apenas “disfarces” do marxismo é uma forma de negar autonomia, consciência e legitimidade aos próprios sujeitos históricos que lutaram. As mulheres que exigiam o voto sabiam pelo que lutavam. Os trabalhadores que enfrentaram jornadas brutais sabiam pelo que lutavam. Os povos colonizados que combateram a opressão sabiam pelo que lutavam. Não eram figurantes ingénuos numa peça encenada por um conspirador de boné.

Esta visão conspirativa não é apenas errada. É profundamente desrespeitosa para com a história das lutas populares.

Importa acrescentar uma dimensão que estes exercícios de caricatura quase sempre omitem: o marxismo não foi apenas uma teoria para interpretar o mundo. Foi, e continua a ser, uma força intelectual, política e social decisiva na transformação do mundo contemporâneo.

Naturalmente, nenhuma conquista social pertence a uma só corrente, a um só partido, a uma só tradição ou a uma só geração. A história real é sempre mais vasta do que as suas sínteses. Mas seria uma falsificação grosseira ignorar o papel que o marxismo desempenhou na organização dos trabalhadores, na elevação da consciência de classe, na luta sindical, na conquista de direitos laborais, na denúncia da exploração capitalista, na resistência ao fascismo, no combate ao colonialismo e na afirmação de projectos de emancipação social.

A jornada de trabalho, o salário, a protecção social, o direito à organização sindical, a escola pública, a saúde pública, a habitação, a cultura, a igualdade jurídica, a intervenção do Estado em defesa dos mais frágeis: nada disto caiu do céu, nem resultou da bondade espontânea das classes dominantes. Resultou de conflito, de organização, de pensamento, de luta. E, nessa luta, a tradição marxista teve um papel incontornável, precisamente porque deu nome às relações de poder que a ideologia dominante preferia apresentar como naturais.

Também por isso o PCP insiste, nas suas próprias publicações, que o marxismo-leninismo não é um catecismo parado no tempo, mas um instrumento de análise da realidade e um guia para a acção, enriquecido pelas novas situações e pelos novos fenómenos. Esta formulação é importante: o valor do marxismo não está em repetir fórmulas, mas em compreender a realidade concreta para nela intervir.

Ao assinalar o seu Centenário, o PCP recordou igualmente que os avanços e conquistas dos trabalhadores e do povo português estão ligados, directa ou indirectamente, à sua iniciativa, luta, acção e intervenção. Pode-se concordar ou discordar politicamente desta leitura, mas não se pode apagar o facto histórico de que a intervenção comunista, assente numa leitura marxista da sociedade, esteve presente em momentos centrais da luta democrática, social e laboral em Portugal.

É justamente isto que torna tão pobre a acusação da “inveja”. Chamar inveja à força histórica que ajudou trabalhadores a conquistarem direitos, povos a lutarem pela sua libertação, mulheres e homens a exigirem igualdade real, e sociedades inteiras a pensarem a justiça para lá da caridade, é mais do que um erro teórico. É uma tentativa de desqualificar a própria história das transformações sociais.

A ironia é evidente: quem acusa o marxismo de se disfarçar por trás das lutas sociais é, muitas vezes, quem tenta disfarçar a defesa da ordem existente por trás de palavras nobres como mérito, liberdade e igualdade de oportunidades. Mas a história das conquistas sociais mostra que a liberdade sem condições materiais é uma promessa vazia, e que a igualdade sem transformação concreta das relações sociais é apenas uma frase bem arrumada.

Há, evidentemente, críticas sérias ao marxismo. Há críticas filosóficas, económicas, políticas e históricas. Há debates sobre o Estado, a liberdade, a democracia, a planificação, a experiência soviética, os partidos, as formas de transição, os erros cometidos, os limites das leituras deterministas e as transformações do capitalismo contemporâneo. Tudo isso merece discussão. Tudo isso exige estudo.

Mas não é isso que encontramos nestas publicações. Encontramos antes uma tentativa de parecer culto sem passar pelo incómodo de compreender. Um anticomunismo de bolso, com estética de cartaz e ambição de tratado.

A ironia maior é que se recorre à inteligência artificial para produzir imagens supostamente sofisticadas, mas se mantém intacta a mais artesanal das ignorâncias: aquela que confunde Marx com ressentimento, igualdade com nivelamento, justiça social com inveja, direitos colectivos com tirania e crítica ao capitalismo com ódio à liberdade.

No fundo, estas publicações não discutem o marxismo. Defendem o capitalismo sem o nomear. Defendem a ordem existente apresentando qualquer crítica como patologia moral. Defendem a desigualdade chamando-lhe mérito. Defendem o privilégio chamando-lhe liberdade. Defendem a concentração da riqueza chamando-lhe sucesso. Defendem a exploração chamando-lhe mercado.

E depois acusam os outros de ideologia.

Ninguém é obrigado a ser marxista. Ninguém é obrigado a concordar com Marx. Mas quem quer criticar o marxismo com seriedade deve, pelo menos, saber distinguir uma teoria social de uma caricatura; uma crítica da economia política de uma birra moral; uma análise da exploração de um ataque ao mérito; uma luta por justiça de um capricho invejoso.

Sem isso, não há crítica. Há ruído.

E talvez seja precisamente por isso que o marxismo continua tão actual. Não porque seja uma doutrina da inveja, mas porque insiste em colocar perguntas que a ideologia dominante prefere esconder:

Quem trabalha?

Quem lucra?

Quem manda?

Quem possui?

Quem decide?

Quem vive da riqueza produzida por outros?

E por que razão há tanto medo de que estas perguntas sejam feitas?

A inteligência artificial pode gerar uma imagem em segundos. Mas não gera pensamento onde há apenas preconceito.

E, neste caso, a máquina até fez a sua parte. A ignorância foi toda humana.

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