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João Pedro Fonseca
A certa altura do ano, Lamego divide-se. Uns lutam por alternativas, outros glorificam os cartazes dos anos 80, reivindicando um regresso impossível. Refiro-me, claro, a Agosto e às Festas da Nossa Senhora dos Remédios. Um fenómeno que já foi nacional e hoje é apenas mais um produto genérico, indistinto de tantas outras festas populares. E não é difícil perceber de que lado está a maioria.
Com as autárquicas à porta, regressa o tema e a liturgia do costume. Mas há um traço novo: um antes e depois do Chega. O debate deixou de ser sobre soluções para os problemas reais e passou a ser um exercício de acusação, onde a retórica serve apenas para reafirmar a ordem conservadora e tradicionalista que mantém a cidade imóvel.
É aqui que se revela a ferida maior. Sei que algumas destas palavras – talvez todas – podem ferir o orgulho de quem ficou e soar mais evidente a quem partiu. Lamego vive suspenso entre a memória e a ausência de futuro. Envelhece em dois tempos: na pedra que guarda séculos de história e nas vidas que se extinguem sem herdeiros. Os números não enganam: em 1960, vive o pico demográfico com 36.200 habitantes; em 2021, cai vertiginosamente para 24.315. Uma queda contínua e previsível, confirmada em 2023 pelo projeto Vivificar, que classificou a cidade como território em risco, incapaz de fixar juventude e condenado a um envelhecimento absoluto.
O mesmo se passa no comércio. Quem cresceu nos anos 90 recorda uma cidade vibrante, com um cinema cheio durante semanas para a estreia do primeiro filme do Pokémon, em 1998. Hoje, o cenário é outro: lojas encerradas, espaços devolutos e serviços moldados a uma população envelhecida – funerárias, ortopedias, floristas. A vitalidade reduz-se a uma única avenida, onde resiste, a custo, a pouca atividade que ainda sobrevive.
É aqui que surge o grande equívoco político. A solução não pode ser resgatar o esplendor de outrora. Esse passado não regressa, por muito que insistam em recuperar slogans da “Romaria de Portugal”. O mundo mudou. Basta olhar para Paredes de Coura, que este ano bateu recordes com 120 mil espectadores. A juventude existe e procura espaço. Lamego podia oferecê-lo. Não o faz. O problema não é a cidade – é a ideia cristalizada que insistem em projetar dela.
O gesto mais árduo, e talvez o único capaz de abrir caminho, é ceder. Ceder espaço, ceder poder, ceder futuro. Mas o apego à memória tornou-se dependência. O turismo patrimonial, transformado em capital económico, é hoje uma âncora que assegura rendimento imediato mas paralisa a cidade. Enquanto satisfaz os mais conformados, expulsa os jovens, que não encontram compatibilidade nem oportunidades.
Lamego, marcado historicamente pela emigração, iludiu-se com a ideia do “voltar”. Os verões do “querido mês de agosto” sustentaram durante décadas a ficção do regresso. Mas voltar não é ficar. O que a cidade precisa não são presenças sazonais, é permanência.
A verdadeira vitória não é encher esplanadas por alguns meses, mas garantir continuidade, expandindo comércio e vida social pelo território. Nesse sentido pergunto: onde estão os jovens, jovens adultos, nas candidaturas? Onde estão as propostas focadas no presente? Onde está a coragem de abandonar a ilusão de reconquistar um passado morto? Onde está a cedência?
Para ficar, é preciso demonstrar que é possível abrir brechas na muralha conservadora. Sem essa prova, Lamego permanecerá como está: belo, mas estagnado. Um guardião de memórias, incapaz de gerar futuro.
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Joaquim Alexandre Rodrigues
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António Regadas
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Maria João Alves, Vera Abreu, Filipa Fernandes
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André Tojal, médico especialista em Cirurgia Geral no Hospital CUF Viseu