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Serafim Delfim está há uma semana na nova casa que foi requalificada no Bairro Municipal de Viseu. Uma mudança que esperava que fosse radical, depois de mais de um ano num alojamento temporário, mas que acabou por lhe causar alguma desilusão. Com 86 anos e mais de 50 no Bairro que está a ser alvo de uma reabilitação, este idoso diz que não dá um passo sem estar, ao mesmo tempo, na sala e na cozinha e quase no quarto.
“A minha antiga casa era muito melhor que isto. Esta até pode ser mais bonita, mas não tem espaço.
Os meus armários não cabem nesta nova casa, ficam lá fora à chuva”, conta, uma semana depois de ter mudado.
Com um olhar, além da sala e da cozinha, consegue-se ver um pequeno quarto e uma pequena casa de banho que, lamenta o senhor Serafim, nem dá para meter uma banheira. “Eu não estou bem aqui”, confessa incomodado. A preocupação é simples: “Tenho família, tenho duas filhas. Tenho 86 anos se me der alguma coisa e precise de ajuda onde elas vão ficar? Vão dormir onde”, questionou, sabendo que a resposta não vai chegar.
Este é um dos 40 moradores que foi realojado mum bairro que, quando foi construído, em 1948, estava na periferia da cidade. Hoje, “dentro de portas”, está a ser alvo de uma requalificação, quer ao nível das típicas habitações que ali albergaram muitas famílias durante décadas, quer nas infraestruturas.
Para muitos, um investimento “que vale a pena”
Também conhecido como Bairro da Cadeia (por ali estar a prisão desativada há cerca de dois anos), a Câmara, na altura liderada por Almeida Henriques, decidiu suspender em 2014 o processo de demolição do bairro e determinou a sua classificação como Conjunto de Interesse Municipal, que foi concretizada em janeiro de 2016, criando um projeto de reabilitação para esta zona.
E é esta reabilitação que está em curso, num investimento global de 6,8 milhões de euros, que o Presidente da República e António Costa visitam esta sexta-feira, no âmbito da iniciativa promovida pelo Governo “PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) em Movimento.
Presidente e Primeiro-Ministro querem ver no terreno um investimento com financiamento do PRR.
São 78 habitações que estão a ser remodeladas, respeitando a traça arquitetónica do Bairro, e das quais 40 no âmbito do “1° Direito/PRR” para os atuais moradores e 38 destinadas a famílias jovens de médios e ou médios/baixos rendimentos, financiadas pelo “Arrendamento Acessível/PRR”.
O projeto contempla ainda a requalificação do espaço público exterior, melhorando os seus arruamentos e criando espaços verdes e de lazer, para o usufruto de toda a comunidade.
“O Bairro, quando estiver pronto, que não se olhe para ele como um bairro dos pobres. Este englobar de pessoas mais jovens para o arrendamento acessível vai retirar essa mescla”, pediu o presidente da Câmara de Viseu que antes de abandonar o cargo há 10 anos tinha anunciado a sua demolição e substituição por blocos de apartamentos para os moradores. “Na altura tinha uma solução, que até foi aplaudida por duas vezes por moradores em Assembleia Municipal. A única diferença para o projeto de agora é que eu achava que se deveria aproveitar o Bairro, deixando para memória futura algumas das casas. O que se entendeu foi preservar todas, mas também vai ser construído um novo bloco”, anunciou.
Uma posição que a Associação de Viseu Olho Vivo – que sempre defendeu a preservação do Bairro – diz não deixar de causar alguma ironia. “O mesmo presidente que queria destruir o Bairro, vem agora na véspera da manifestação Casa para Viver (em Viseu realiza-se sábado e chama a atenção para a falta de alojamento acessível) mostrar uma obra que não vai ser solução para a falta de habitação social e para estudantes”, sustentou Carlos Vieira, lembrando que “depois de décadas de incúria, o Bairro sofreu um processo de deterioração e há muito que deveria ter sido recuperado. Esta não era a postura do presidente em anteriores mandatos”.
Para Carlos Vieira, as casas recuperadas no Bairro da cadeia deveriam ser 99,9 por cento para os moradores necessitados e o restante para uma ou outra associação que ali fosse criada e que cresce-se juntamente com o Bairro.