21 out
Viseu

David Duarte

OPINIÃO

Fragmentos de um Diário

17 de outubro de 2020, 07:00

CLIPS ÁUDIO

20 de outubro de 1974

 

Domingo. Fui à missa. Após o almoço, fui com a minha tia à fonte, e apareceu ela e a mãe. As mulheres falaram. Nós olhávamos e escutávamos meio comprometidos. Convidei-a a um passeio. Fomos pela estrada do cemitério, e talvez a visão daqueles muros altos de fronteira entre os dois mundos nos tenha inspirado a darmos as mãos. Mais adiante, há um terreno para jogos de futebol, sem ninguém àquela hora, rodeado de pinhais. Demos o primeiro beijo e olhámo-nos, surpresos e enleados por um sentimento indefinível. Conhecíamo-nos de há horas e ela disse que aquilo não devia estar a acontecer. Mas foi ela que se apertou a mim num enlace demorado. A solidão da natureza e a nossa própria solidão interior inspirava-nos este encontro que era mais que de mera sensualidade. Havia uma certa poesia no nosso olhar, uma busca de um sentido profundo no carinho trocado por ambos. Perdemo-nos do tempo, perdidos de nós próprios no encantamento do momento. Pouco falávamos, nenhuma promessa se jurou, nada sabíamos das reservas do futuro. Mas gostei daqueles lábios carnudos, bem desenhados.        

Mas confesso que me parecia que o meu comportamento estava marcado por uma traição. Mas foi a Laura que precipitou os acontecimentos. Agiu com lucidez, é verdade. Mas podia ter dado mais tempo ao desenlace. Na verdade, foi isso que ela quis evitar: a agonia do amor. Talvez pelo exemplo dos pais. 

 

21 de Outubro de 1974

 

         De novo em Lisboa. Um calorzinho ainda resiste neste dia azul, lavado, dia de aniversário de minha mãe. Quarenta e dois anos.

        Circula  a notícia da formação de um governo que se pretende representativo da designada maioria silenciosa. Formado na capital espanhola. Relembro os acontecimentos recentes do dia 28 de setembro e temo por uma guerra civil ou por uma guerrilha urbana que possa ensanguentar a democracia.

        Por outro lado, o governo provisório tomou a decisão de substituir o nome da ponte Salazar por 25 de Abril. Não sei, mas tenho para mim que mudar os nomes às coisas é fácil mas também ilustrativo do que se pode esperar. Dever-se-ia atribuir nomes novos às novas construções. Acho que teria mais lógica.

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