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Home » Notícias » Colunistas » Os Estados Sociais (# 2) — La rosa enferma

Os Estados Sociais (# 2) — La rosa enferma

27.06.26
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por
Joaquim Alexandre Rodrigues

1. Na semana passada, depois de ter descrito as condições históricas que permitiram o desenvolvimento do Estado Social Europeu no pós-guerra, deixei uma pergunta em suspenso: porque é que os partidos que mais contribuíram para este milagre institucional  — os vários “PS” da Europa fora — são hoje os que parecem ter mais dificuldade em defendê-lo? 
Um artigo recente do El País, intitulado “La rosa enferma: ¿qué le ha pasado a la socialdemocracia europea?”, dá-nos a fotografia do problema: no início do século, quase 70% dos cidadãos da UE eram governados por primeiros-ministros sociais-democratas; hoje essa fatia reduziu-se a 10%. 
Basta olharmos para o chamado “eixo franco-alemão” para percebermos o colapso do centro-esquerda: o PS francês ainda mantém força no poder local mas a nível nacional, depois de se ter amancebado com a esquerda radical, perdeu relevância; o outrora poderoso SPD alemão está em quarto nas sondagens com intenções de voto à volta dos 12%. 
A UE já foi um mar de rosas para a “rosa”. Agora, muitos espinhos. Só há três chefes de governo “socialistas”: o maltês Robert Abela, a dinamarquesa Mette Frederiksen e o espanhol Pedro Sánchez. 
Enquanto Abela faz um controlo apertado das fronteiras e só aceita trabalhadores de fora da UE qualificados, na Dinamarca, Mette Frederiksen sabe que imigração elevada pressiona salários, habitação e serviços públicos e corrói o consenso redistributivo dos Estados Sociais descritos aqui na semana passada.
Pedro Sánchez, mais a sul e escorado no fluxo falante espanhol proveniente da América Latina, fez exactamente o oposto — regularizou meio milhão de imigrantes em situação irregular e escreveu no New York Times que o Ocidente precisa deles, sob pena de optar entre “sociedades fechadas e empobrecidas” ou “abertas e prósperas”.
Temos dois sociais-democratas que, perante a imigração, têm respostas inversas. Não é incoerência pessoal — é o sintoma de uma fractura mais funda, que já aqui tratei a propósito de Yascha Mounk e Michael Lind.
Outrora conhecida por “Mette a Vermelha”, Frederiksen segue o diagnóstico cultural de Mounk: pouco lhe importam as elites instruídas — os académicos, os funcionários, os jornalistas, os artistas, todos mais ou menos abrigados das vicissitudes do mercado —, quer é recuperar para a esquerda os votos dos operários, dos trabalhadores e dos precários que a esquerda está a perder para as direitas radicais. 
Sánchez, pelo contrário, afaga as burguesias proprietárias identificadas por Lind, num raciocínio económico que vê na imigração uma resposta ao envelhecimento e à sustentabilidade fiscal.
Isto é, a social-democracia já não fala a uma só voz nem sequer sobre o que a define. Já não existe uma resposta social-democrata para os grandes temas; existem respostas dinamarquesas, espanholas, alemãs ou britânicas. Os partidos que criaram o grande compromisso social europeu continuam a defendê-lo, mas já não concordam sobre as condições que o tornam possível. 

2. Dinamarca, esta semana: o ministro da imigração Morten Bødskov anuncia legislação para limitar o chamamento islâmico à oração (Adhan/Azaan) amplificado por altifalantes — não quer ver as cidades dinamarquesas transformadas num “subúrbio de Islamabad”.
Loulé, Festival Med, esta semana: dinamarqueses abanam o corpo ao som da música de Arooj Aftab, filha de pais paquistaneses.
Talvez seja esta a contradição do nosso tempo — querer fronteiras mais firmes e, ao mesmo tempo, continuar apaixonado pela circulação das formas de vida.

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