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Nasceu na Suíça, mas foi em Castro Daire que encontrou um clube que viria a marcar-lhe a vida. A Desportiva de Castro Daire foi fundada em 1975. Marcel Ribeiro nasceu 15 anos mais tarde. A paixão pelo futebol foi crescendo à medida que os anos foram passando e a vontade de jogar à bola cumpria-se em qualquer posição do campo. Mesmo que se viesse a especializar como avançado. “Queria era jogar. Defendia, atacava… Depois perceberam que tinha mais capacidades para jogar à frente e desde muito cedo que jogo a avançado”, sublinha. Com o avançar do calendário, Marcel fez-se jogador e hoje já é pai. Aos filhos, confessa, quer passar-lhes os valores fundamentais. “Queria demonstrar-lhe o valor do amor ao clube e da persistência. O futebol transmite muitos valores para a vida adulta. Os principais, para mim, são o compromisso, o respeito pelo próximo, lealdade. Se quisermos ser alguém no futebol temos de ter um compromisso inabalável”, assinala.
Em Portugal, e enquanto sénior, o Lamelas, vizinho do clube do coração, foi o primeiro a acolhê-lo. Ao longo de 16 anos a jogar futebol no escalão sénior há passagens pelo Parada, Lusitano de Vildemoinhos e Castro Daire. Na equipa castrense joga há sete épocas consecutivas. A essas tem de juntar-se mais dois anos. Contas feitas, em 16 anos como sénior alinhou durante nove épocas no Castro Daire. Uma maioria absoluta que se transformou agora em 250 jogos. Foi o clube que decidiu, em surpresa, prestar-lhe a homenagem.
“Nós estamos tão habituados à presença do Marcel que nem nos demos conta de que o número de jogos era tão grande. Começámos a fazer as contas e percebemos que era algo surreal. Nunca lhe fizemos homenagem nem aos 100 jogos, nem aos 150. E ao chegar ao 250, decidimos avançar”, detalha o presidente do Castro Daire, Eduardo Bebiano.
O líder dos castrenses explica que “a equipa foi chamada para o início do jogo e foi aí que tudo se desenrolou”. Depois de os jogadores se alinharem, houve a entrega de um quadro com o número 250, alusivo aos jogos feitos por Marcel na equipa. Para o líder do clube, há 250 razões que justificam o tributo. “A homenagem é mais do que justa, mas também a fizemos para que os mais jovens – que estavam nas bancadas ou que viram através das redes – sintam este amor ao futebol e ao clube da terra. E perceberem que se pode ajudar o clube da terra”, reforça Eduardo Bebiano.
Na opinião do presidente do clube, que outrora ocupou o lugar de diretor, Marcel Ribeiro é “um líder e um exemplo no balneário para a juventude”. “Além de ser um craque e de ter todas as qualidades como futebolista que todos lhe reconhecem, o Marcel sente o clube exatamente como os adeptos. Os jogadores entregam-se, mas o Marcel é diferenciado. É um exemplo de entrega, de ser pontual nos treinos, dá o máximo nos treinos e nos jogos… A malta mais nova que chega aqui, tem-no como referência”, explica o presidente.
Apesar de jovem, Eduardo Bebiano está no Castro Daire há alguns anos. E de Marcel guarda as melhores imagens. “Enquanto pessoa, não há ninguém que lhe aponte o que quer que seja. Como pai é um exemplo, como familiar e amigo, também. Falamos de um atleta fora de série e de um ser humano incrível”, elogia.
O líder do clube castrense classifica Marcel Ribeiro como “genuíno, amigo e comprometido com o clube”.
É aliás a quase umbilical ligação ao Castro Daire que Eduardo Bebiano salienta. “O Marcel teve oportunidades para sair do Castro Daire. Ele, durante o Campeonato de Portugal a representar o Castro Daire, foi um dos jogadores com mais estatuto de jogador da semana. O Marcel tinha inúmeras propostas nos anos em que esteve no Campeonato de Portugal. Este ano também havia uma equipa do concelho no Campeonato de Portugal e ele recusou ofertas, para poder continuar no Castro Daire”, reforça.
Subida ao Campeonato de Portugal foi o melhor momento da passagem pelo Castro Daire
Horas depois de a homenagem lhe ter sido prestada – ainda por cima no Municipal de Castro Daire – Marcel confessou que não estava à espera de chegar a uma marca de número tão redondo. “Nunca pensei em marcos. Nunca me passou pela cabeça que me fizessem a homenagem. Não fazia ideia. Fiquei mesmo surpreendido. O que vier será bom e que venham mais jogos. Cá estarei de braços abertos. Não acreditei quando vi a moldura com 250. Não fazia mesmo ideia”, assume.
O atleta chegou ao Castro Daire pela mão dos amigos que ali jogavam. Depois a paixão foi crescendo e hoje não hesita em afirmar que “ o principal motivo que me fez ficar no Castro Daire foi gostar do clube”. “Não teve nada a ver com dinheiro, nem com objetivos desportivos. Tinha projetos financeira e desportivamente mais aliciantes, mas o que pesou sempre foi ser o meu clube. Para mim, isso foi sempre o mais decisivo”, indica.
E 250 jogos depois houve conquistas a celebrar e fracassos a lamentar. “Atravessei os bons momentos e as fases menos boas. Sempre aqui”, frisa. “Chegar aos 250 jogos é um orgulho. Fui um pilar deste clube, por assim dizer. E uma pessoa sentir-se útil e ainda ver esse valor reconhecido, é juntar o útil ao agradável”, sustenta.
Como o momento mais feliz e ao mesmo tempo mais triste destaca a subida do Castro Daire ao Campeonato de Portugal na época 2018/2019. Os castrenses dominaram a Divisão de Honra e venceram o campeonato com 70 pontos e 68 golos marcados. Desses, 15 foram apontados por Marcel Ribeiro. O Castro Daire fez a festa da subida e aguentou-se no Campeonato de Portugal na época seguinte. E na hora dos festejos do título distrital, Marcel recorda a moldura humana que acompanhou a equipa. “A nossa família toda e os nossos amigos de infância estavam lá. Quer se queira, quer não, sou de Castro Daire e ter os meus na bancada… Esse momento foi inesquecível”, sublinha Marcel. Ao mesmo tempo que festejava, o jogador recordava os amigos e companheiros de equipa que não puderam celebrar a subida. “A maior mágoa que guardo nem é a descida de divisão. Eu comecei a jogar futebol no Castro Daire porque os meus amigos jogavam cá todos. E tenho pena que os meus amigos não tenham tido a oportunidade de desfrutar da subida de divisão. Eles queriam tanto a subida como eu. É esse amargo de boca que ainda hoje guardo. Eles mereciam muito viver a subida”, lamenta.
Treinador lembra que Marcel foi sempre fiel ao Castro Daire (negrito)
Quando questionado sobre que jogadores eram titulares na equipa de sonho, Marcel elege Zé Gancha e Celso Freitas. “Se calhar estou a ser injusto com outros…”, foi dizendo. No papel de treinador esteve durante algumas épocas – incluindo a atual – Vasco Almeida. “O Marcel é daqueles jogadores que todos os treinadores gostam de ter. Sabemos que, a qualquer altura, pode resolver um jogo por iniciativa própria”, refere o técnico. “Por decisão própria não atingiu patamares superiores aqueles em que esteve. Tinha capacidade para isso. Tem sido fiel ao clube, independentemente, de aliciamentos alheios bem mais vantajosos para ele. E isso é um exemplo para os mais novos”, afirma Vasco Almeida que considera que Marcel tem tido, no Castro Daire, “um papel importante”. “É o capitão já há vários anos. Tem sido um baluarte da qualidade que o clube tem demonstrado nos últimos anos”, sublinha Vasco Almeida.
Com 34 anos, Marcel Ribeiro garante que ainda não pensa muito no fim da carreira. “Sou mais de aproveitar o momento”, esclarece. Apesar de não pensar no adeus aos relvados, Marcel confessa que “volta e meia” a ideia vem-lhe ao pensamento. “O futebol acaba para toda a gente. E quando essas ideias aparecem, não é bom. Quando alguém gosta de um desporto, estar no balneário e ter o dia a dia de treino, jogo… Vai custar um pouco, mas faz parte da vida. É um ciclo”, reafirma. Passados alguns dias desde a homenagem que o Castro Daire prestou a Marcel Ribeiro, no dia 1 de maio, frente ao Penalva do Castelo, o presidente do clube ainda recorda a frase que lhe surgiu na altura. “Não me esqueço daquela ideia. O Castro Daire é o Marcel, mas o Marcel também é o Castro Daire. Foi espontâneo e percebi que saiu bem”, atira. Marcel já fez 251 jogos pelo Castro Daire. E o 252º está a caminho.