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Joaquim Alexandre Rodrigues
O ensaio de Yascha Mounk “A burguesia mudou de lado”, tratado aqui na semana passada, motivou uma resposta muito interessante de Michael Lind, num texto intitulado “As duas burguesias”.
Nele, Lind começa por lembrar que é necessário fazer uma distinção entre a elite instruída e a elite proprietária. Os “instruídos” preferem “formas de governo tecnocrático” o que enfurece há muito os “proprietários” que, através dos “políticos e comentadores que financiam”, contestam o poder dos “burocratas intrometidos” e dos “professores de cabelo comprido”, nem uns nem outros ligam aos trabalhadores, excepto, claro está, “em períodos eleitorais, quando precisam do voto”.
Sendo verdade que “a burocratização do ensino superior e da filantropia nos Estados Unidos e na Europa, expandiu enormemente os cargos” dos tecnocratas, não é menos verdade que “a burguesia proprietária actual inclui tanto pequenos empresários como empreendedores que criam empresas que crescem enormemente” e que “tendem a ver as suas empresas como propriedade pessoal”, sem pachorra para “reguladores, autoridades fiscais e trabalhadores que procuram sindicalizar-se ou simplesmente exigir salários mais altos.”
Chegados aqui, já dá para perceber onde vai chegar Michael Lind: os Venturas e os Trumps “afirmam representar ‘o povo’ contra ‘as elites’, quando na realidade representam a burguesia proprietária na sua batalha antiga contra a elite gestora profissional.”
Os populistas de direita estão a “atrair eleitores da classe trabalhadora — insatisfeitos com a imigração ou alienados pelo” wokismo, mas “os seus principais apoiantes e financiadores são a pequena burguesia e também grandes magnatas extremamente ricos” e, no caso específico de Trump, por “empresários do petróleo ou fundadores de empresas tecnológicas”.
Apliquemos, de uma forma esquemática, a doutrina de Yascha Mounk e de Michael Lind ao nosso rectângulo:
(i) a burguesia educada — altos quadros do estado (ministérios, universidades), comentadores e jornalistas, elites culturais urbanas; é progressista, europeísta, institucional e cosmopolita; revê-se no PS e no Livre; este bloco perdeu votos nas últimas legislativas, uma fatia significativa para o Chega;
(ii) a burguesia proprietária — donos de PME, empresários da construção civil, turismo, exportação, classe média alta, profissionais liberais; queixa-se do peso do Estado, dos impostos, da burocracia; este bloco está em boa parte com o PSD e a Iniciativa Liberal que mantêm um eleitorado relativamente estável; uma parte minoritária está com o Chega e financia-o;
(iii) a classe trabalhadora — operários, trabalhadores dos serviços, economia gig, logística; queixa-se dos baixos salários, da precariedade e do custo de vida; bloco em acentuada perda, parte ainda se mantém no PS, parte migrou para a abstenção e outra para o Chega.
Habituemo-nos a uma ideia simples: o conflito político deixou de caber no velho eixo esquerda-direita e não há uma elite — há elites em conflito. E, no meio delas, uma classe trabalhadora que deixou de saber quem a representa — e começa a desconfiar de todos.
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