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por
Alfredo Simões
Desde jovem que escrevo em jornais locais. A propósito dos cabelos compridos usados pelos rapazes (ainda a influência dos Beatles), comecei por escrever, num primeiro artigo, que “a sociedade está podre, corrupta, minada pelo convencionalismo burguês” e propunha que o “homem fosse mais amor que ódio, mais liberdade que submissão, mais paz que guerra”. Estávamos em fevereiro de 1973 e não era propriamente um artigo de luta política publicado por um jornal da oposição. O jornal era o “Notícias de Gouveia” (NG), que se publica regularmente há 112 anos! Em abril desse mesmo ano, na primeira página, vejo mais um artigo meu com o título “NEM SÓ…” seguido de um subtítulo mais explicativo: “Com ‘passadeiras’ se faz uma cidade ou com ‘futebóis’ se satisfaz uma(s) necessidade(s)…”. O artigo procurava esclarecer se haveria em Gouveia uma “autêntica atividade cultural”. Com a resposta na ponta da caneta escrevi de imediato que não! E explicava: “Não há porque não existem estímulos adequados nem força de vontade capaz de destruir o marasmo intelectual a que as pessoas se habituaram ou foram habituadas”. Isto levou a que o assunto fosse objeto de discussão, dias depois, em reunião da Câmara Municipal com cerca de meia centena de pessoas representativas da opinião pública. Na edição seguinte, o “NG” dá conta desta reunião que durou 3 horas e “abriu um precedente para reuniões futuras”.
A publicação dos artigos assinalados, e outros, significou a abertura do jornal aos jovens – na altura eu tinha 18 anos -, às suas ideias e preocupações. O jornal pôde, assim, dar voz aos jovens, em regra com menor acesso a meios de comunicação formais, e dar palco às suas ideias numa sociedade fechada, repressiva, como aquela em que vivíamos antes do “25 de abril”.
Além disso, o jornal, com uma orientação editorial própria e que tinha raízes na I República, fez-se intermediário de reivindicações de setores da população e, ao tornar públicas essas opiniões, ‘abanou’ os decisores políticos “obrigando-os” a agirem e a tomarem a iniciativa de ouvir as “forças vivas” locais – as autoridades foram escrutinadas publicamente e reagiram. Talvez fossem poucos os Presidentes de Câmara, pelo País fora, que reagissem da mesma maneira – muitos outros teriam comunicado o caso à PIDE/DGS (ou talvez nem fosse preciso porque ‘informadores da PIDE’ havia-os por todo o lado) e lavado as mãos. Tudo isto se passou num tempo em que era preciso usar pinças para não se espicaçar muito a Censura, evitando-se problemas para o autor da escrita e para o diretor do jornal (à época o prof Carlos Mota) que precisou de mostrar sentido de dever para que tudo isto acontecesse. Teria sido mais fácil para ele dizer ao autor: “- Tenha paciência, mas não posso publicar por causa da Censura”.
A simples existência da Censura – ou o Exame Prévio – induzia a autocensura que conscientemente assumi num outro artigo, publicado em janeiro de 1974, sob o título “Guerra, Fome, Insegurança – Foi 1973”. Nesse artigo escrevi sobre a guerra do Vietname e do Médio Oriente (onde é que já ouvimos falar nisto!?) e não da guerra colonial, nas atrocidades de Pinochet, no Chile, e não nas prisões políticas, na repressão das manifestações, no assalto policial a Universidades em Portugal, na fome que grassava no mundo e não na miséria dos bairros periféricos de Lisboa. Situações – todas elas – que eu conhecia bem. Malgrado a autocensura, o NG foi veículo de discussão de assuntos internacionais à escala e no seio de uma comunidade local relativamente restrita, em número que não nos espaços geográficos da diáspora gouveense onde o jornal chegava e continua a chegar.
Os órgãos de comunicação social não enfeudados ao regime político viviam no fio da navalha e isso aconteceu também com os ‘jornais locais’ como o NG que certamente teria colaboradores ideologicamente próximos do regime, mas aceitava outras colaborações como as de um jovem estudante antifascista ou de outros democratas que mantinham vivas as esperanças de melhores tempos como eram os casos, de que me lembro, de A. Matos e de MF. Os ‘jornais locais’ – os que quiseram – contribuíram, na medida do possível, para a construção da consciência democrática das populações que, há várias gerações, viviam particularmente afastadas dos centros do poder e dos centros de criação e disseminação das ideias.
Ainda antes do 25 de abril um grupo de jovens estudantes gouveenses em Lisboa, entre os quais me incluía, propõe-se produzir um Suplemento do NG a sair mensalmente. Mais uma vez, o ‘jornal local’ mostrou disponibilidade e abertura para experimentar outros caminhos, para introduzir alguma inovação no processo de produção e de comunicação de notícias e de opiniões. O jornal arriscou na expetativa de estar a contribuir para o desenvolvimento da sua comunidade. Ainda antes da saída do primeiro nº do Suplemento, que veio a chamar-se “Nosso Tempo”, chegou o 25 de abril. Nesse nº vi publicado o artigo que tinha começado a escrever dias antes do movimento militar e no qual reivindicava uma biblioteca para Gouveia.
O “NG”, enquanto ‘jornal local’, funcionou igualmente como um fator de coesão da comunidade gouveense, residente no concelho e emigrada por todo o mundo. Desde criança que me habituei a ver em casa o “Notícias” e a encará-lo como a fonte de informação acerca do que se passava no concelho e em cada uma das freguesias. Em muitas (todas?) freguesias havia correspondentes próprios que identificavam acontecimentos merecedores de referência no NG e escreviam a notícia que nos chegava e que nos tornava mais próximo dos nossos vizinhos da aldeia ao lado ou no extremo do concelho. Ainda hoje, como assinante, espero encontrar notícias das freguesias (e, naturalmente, de S. Paio!) que eu procuro em primeiro lugar. Claro que hoje, ao contrário do que se vivia antes do 25 de abril, é possível e continua a ser importante que o jornal discuta, apresente pontos de vista diversos sobre assuntos que dizem respeito à comunidade, à sua vida, ao seu bem-estar. No fundo, espera-se que o ‘jornal local’ cumpra abertamente a sua função de noticiar o que se vai passando localmente, que dê espaço a opiniões diferentes, estimule a criação de ideias para o futuro da comunidade, traga para o espaço local as preocupações que se vivem no mundo e no País. Precisamos que o ‘jornal local’ faça tudo isto preservando a verdade, denunciando as mentiras que são lançadas no espaço público. E o “NG” continua neste caminho, executando as funções que procurei sublinhar acima, embora, certamente, com muitas dificuldades inerentes, afinal, a todo o jornalismo e, em particular, no interior do País.
Todo este trabalho que pertence ao ‘jornalismo local’ está sob ameaça, tal como acontecia antes do 25 de abril! Agora não há Censura nem PIDE/DGS, a mordaça hoje resulta do funcionamento da atividade económica a que falta o papel de efetivo regulador e promotor de políticas públicas por parte do Estado, e da ilusão de que as chamadas “redes sociais”, por si só, dispensam o jornalismo, dispensam intermediários qualificados (e deontologicamente comprometidos) entre o acontecimento e o público. Hoje, o ‘jornalismo local’ está a sofrer pela insuficiente atenção do Estado que não entende a informação enquanto serviço público à escala local com uma importância que segue aquela que resulta na satisfação das necessidades básicas das populações. O “jornalismo local” é um excelente instrumento para a participação pública, especialmente dos jovens, na vida coletiva, na construção da comunidade local, do concelho ou da freguesia, tornando-se, assim, num “agente de resistência à desinformação”, como é citado na Introdução do relatório “Desertos de Notícias, Europa 2025 – Relatório de Portugal” produzido pelo LABCOM, Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior.
Passado mais de meio século depois do 25 de abril, o que este Relatório – demasiado importante para o ignorarmos – nos está a dizer é que em muitos municípios, onde faltam os meios de comunicação locais, as populações estão mais ameaçadas e mais facilmente sujeitas à difamação, à manipulação. Ficam inibidas de terem um veículo independente que seja porta-voz junto das autoridades. Perdem um instrumento com a força moral da verdade constantemente procurada contra a mentira.
Como é afirmado no referido Relatório, “os desertos de notícias surgem em regiões distantes dos grandes centros, com baixa atividade económica, onde os antigos jornais locais não conseguem mais sustentar-se e a região não é atrativa para novos empreendimentos no setor”. Na Região de Viseu Dão Lafões, à data de publicação deste Relatório, tínhamos “desertos de notícias” por ausência de meios de comunicação impressos em 3 municípios, digitais em 10 e rádios em 5 concelhos. Em dois destes municípios (Oliveira de Frades e Santa Comba Dão) não existia qualquer meio de comunicação local e apenas em Viseu e em Vouzela, entre os 14 concelhos da região, marcam presença os três tipos de meios de comunicação. Além disso, é provável que vários órgãos de comunicação existentes sintam um qualquer tipo de dificuldade que acabarão por explicar que o “deserto” se venha a alargar.
Os desequilíbrios territoriais que vivemos no País e a desinformação facilitada por redes digitais não reguladas podem combater-se, também pelo ‘jornalismo local’. Por isso, importa que exemplos como o do “Notícias de Gouveia” – e certamente de muitos outros, a começar pelo Jornal do Centro –, possam continuar o seu papel e ver aumentada a sua força agregadora das comunidades, nas cidades e nas aldeias, prosseguindo o caminho de liberdade, escrutínio publico, participação cívica que há mais de meio século o “25 e abril” veio estimular.
Valerá a pena, por isso, que as “forças vivas” de Viseu Dão Lafões – municípios/CIM, empresários, associações diversas, instituições de ensino, etc. – pensem no futuro do ‘Jornalismo local’ na nossa Região. Poderão os órgãos de comunicação local tomar a iniciativa em parceria, por exemplo, com o ensino superior e criarem um grande movimento pelo “jornalismo local” nesta Região. Dizermos SIM a estas ações será uma forma de comemorarmos o “25 de abril” promovendo, simultaneamente, o “jornalismo de proximidade” e o desenvolvimento das comunidades locais. Não foi também para isto que fizemos o 25 de abril?
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