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André Cardoso
A véspera do 25 de abril desperta-me uma ansiedade infantil, que lembra dias antes de uma ida à praia, quando havia apenas estradas nacionais e parávamos no Luso para encher garrafões de água, e o cheiro do farnel que a mãe fazia no fogão da cozinha ia ter connosco ao quarto pelas frestas da porta, enquanto debaixo dos lençóis, nos convencíamos a adormecer.
A véspera desperta-me os sonhos possíveis, a ideia santificada de uma manhã de abril que nascerá fértil e abundante. Esperam-se discursos que acendam a chama da liberdade, da democracia, que combatam a corrupção, as desigualdades sociais, que foquem a saúde, a justiça, a habitação, as assimetrias nacionais, a cultura. Esperam-se discursos de oposição: normal em democracia. No fundo, sabemos como será o dia, cheio de trivialidades, frases repetidas, críticas previsíveis.
Esta véspera foi diferente. Ligaram-me no fim do dia, para dizer que a calçada do pátio da minha casa, passados anos de espera, finalmente iria começar: na manhã de 25 de abril. Não eram estes os meus planos para um feriado tão especial. Abri a porta cedo, e à hora combinada, um quase regimento de homens entra de armas em punho e mais uns tantos paralelos para conquistarem o meu pátio e as daninhas que quero que não cresçam.
‘Se precisar de alguma coisa é só falar aqui com este: Oh baixinho, anda cá!’ – disse o patrão com sotaque beirão. O baixinho, pele castanha e feições asiáticas, aproxima-se a sorrir – ‘Está sempre a mostrar os dentes, é um espetáculo este miúdo’ – depois de algumas indicações vociferadas com urgência, o patrão despede-se e parte para outra obra.
A empreitada avançou veloz. O dia estava quente. Ofereci-lhes bebidas, pizza e uns pastéis. O trabalhador mais novo tinha 20 anos e o mais velho 38, perguntaram se a pizza tinha carne de vaca, disse que não. São hindus e budistas. Do meu pátio, como de quase todos os pátios das beiras, vê-se a Serra da Estrela. ‘Da nossa terra, vemos o Evereste’ – disse o baixinho.
Já tinha reparado no sorriso e humildade que traziam consigo, mas não adivinhei que seriam do país de Siddhartha Gautama, dos Himalaias, do Nepal, da terra que vive no futuro, 56 anos à frente no nosso calendário e a 8500 quilómetros de Portugal.
O dia de trabalho acabou e foram embora.
No fim de tarde, com a lua bem presente no céu, pensava que jamais irei esquecer o dia em que a calçada portuguesa do meu pátio foi feita por nepaleses, que comeram pizza ao lanche, no dia 25 de abril.
Talvez haja diferentes credos, diferentes noções de tempo e calendário, de horizontes, de cor de pele, talvez se chegue mais perto à lua do Evereste do que da nossa Estrela, e de lá se compreenda a frase da astronauta Christina Koch da missão Artemis II: “Planet Earth, you are a crew”.
Segundo Buda, a paz, a paz interior, advém da superação do desejo e da ignorância. Que o espírito de abril floresça aqui e em qualquer lugar.
Viva o 25 de abril, viva o dia 1 de maio!
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Leonel Ferreira
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André Cardoso
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Alfredo Simões
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