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Sou uma pessoa de afetos

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 Sou uma pessoa de afetos - Jornal do Centro
07.05.21
fotografia: Jornal do Centro
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 Sou uma pessoa de afetos - Jornal do Centro
07.05.21
Fotografia: Jornal do Centro
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 Sou uma pessoa de afetos - Jornal do Centro

Nasceu em Angola. O que é que vem desses tempos?

Nós somos quatro filhos. Todos naturais de Angola. Os meus pais são portugueses, mas conheceram-se lá. Nascemos os quatro em Nova Lisboa, atual Huambo e eu vim para Portugal quando dinha 6 anos.

Há memórias ainda?

Sim, bastantes memórias. Tenho dois tipos de memórias. Lembro uma vivência muito mais desprendida e alegre. Em Angola, nós juntávamos todos os fins de semana as famílias. Os bairros juntavam-se para fazer patuscadas. Depois lembro algum sofrimento, lembro o que passámos para vir embora porque quando a guerra se agudizou e nós, retornados, tivemos de vir para Portugal, todo o processo de vinda foi bastante difícil. O meu pai, um homem com a quarta classe, era um grande empresário em Angola. Há uns tempos emocionei-me com uma situação: uma pessoa amiga que esteve em Angola, num dos armazéns do meu pai, ainda está uma placa à porta a dizer “Armazéns Américo Eusébio”. O senhor que ainda hoje lá está e que, na altura, era empregado do meu pai, disse que aquela placa só irá sair quando ele morrer. A nossa vinda foi muito difícil, não havia transporte… Nós somos três meninas e um rapaz e todas nós trazíamos aquelas bonecas grandes, flamencas… Lembro-me de estarmos escondidos debaixo das camas, porque havia balas no quintal… Memórias que ficaram desse tempo da guerra.

Tiveram que renascer…

Sim, e nós não tínhamos qualquer ligação a Viseu. Viemos para cá porque o meu pai comprou uma loja em frente à Central de Camionagem e foi aí que começámos. Passámos muitas dificuldades.
De repente ficámos sem nada.

E não havia um estigma?

Havia. A escola para onde fomos foi a da Avenida, que era a escola do centro da cidade. Atualmente fala-se tanto no bullying… Nós fomos vítimas de bullying. De tal forma foi tão acentuado que no meu inconsciente apaguei as memórias desse período. Não me lembro dos rostos dos professores nem dos colegas. Quando fui para a quarta classe, mudámos de Viseu para Santiago e estudámos nesse ano, na escola de lá. Era uma escola de periferia onde havia crianças diferentes. Nós, no centro da cidade, estávamos onde viviam as chamadas crianças da cidade. A elite… Muito mais dada ao bullying, à discriminação… No fundo, nós realmente trazíamos um colorido diferente para um Portugal muito cinzento. Aos fins de semana íamos à aldeia dos meus avós. Uma aldeia que não tinha água canalizada, luz… Aqueles fins de semana era onde nos sentíamos felizes porque tínhamos liberdade. Vir viver para o centro da cidade fazía-nos ficar fechados em casa, totalmente diferente também do que vivíamos em Angola.

E há pouco, confidenciou-me, cheira a Angola…

Quando estamos na época de setembro, esteve calor e, de repente, choveu… Aquele cheiro a terra lembra logo Angola. Nós lá estávamos habituados ao calor com aquelas chuvadas…

E ainda não voltou lá…

Não, nenhum de nós voltou. Angola continua a ser muito insegura e acabámos por não ir. Se me perguntasse uma das coisas que ainda gostaria de fazer na vida, uma delas seria voltar a Angola. Penso tantas vezes no meu pai, que era um grande empresário… Penso naquilo que se sentirá quando se perdeu tudo. O que é que se sente quando aquilo que se construiu à custa do trabalho e do esforço, e de repente se fica sem nada.

E a fé? Quando entra na sua vida?

É algo que me acompanha em períodos de forma diferenciada. Quando vim de Angola afastámo-nos da Igreja, houve um desenraízar. Fiz a primeira comunhão e o Crisma só o fiz aos 22 anos. Mais tarde, reencontrei a Fé para lá dos 20 anos. Inicialmente sem ser tão próxima da Igreja, mas sempre com essa Fé presente. Quantas e quantas vezes eu digo que sinto a presença de Deus e de Maria na minha vida. A Fé não pode viver do entusiasmo do momento. É uma caminhada e uma fidelidade que se mantém, mas que não é linear.

E ainda bem?

Sim, porque os períodos de deserto fazem-nos crescer.

E as idas a Fátima a pé? O que a comove mais?

É uma experiência que não se pode explicar por palavras. A minha primeira experiência foi em 2014 e não o fiz por promessa. Todos os anos há diferenças, surpreende-nos sempre a cada ano. O que me comove mais é sermos pessoas tão diferentes, com personalidades e vivências diferentes e que, ali, somos todos um só grupo. Vê-se emergir a solidariedade, às vezes estarmos mal e ainda ter forças para alguém, pensar no outro e não só em nós. A capacidade que temos de ter para suportar o sofrimento e nos superarmos. Passa pela cabeça desistir, mas sentimos o colo a dizer-nos para não o fazermos.

E tem outro pilar: a família…

A minha família, os meus pais, são o meu porto de abrigo. Considero que tenho ali um apoio. Temos essa união… Temos um hábito de passar uma semana de férias todos juntos. Eu tenho dois filhos que continuam a ter a referência dos avós. É muito importante… Curiosamente, criámos o hábito de ter uma reunião de família, em pandemia, todos os dias por volta das sete e meia, oito da noite, através de videochamada. Isso mantém-se. Temos necessidade de estar juntos. É tão bom. É uma das coisas que agradeço muito a Deus. Fico muito triste quando vejo famílias zangadas. É um património que se perde e nós precisamos de ter as nossas ligações, referências e afetos. Não concebo uma vida sem isso: sou uma pessoa de muitos afetos: dou-me muito, gosto de fazer de coração, mas depois achamos que seria tudo muito mais fácil se todos atuássemos assim. Quando vemos o contrário, ficamos tristes e magoados.

Que valores passa aos seus filhos?

Há uma premissa que lhes digo sempre: nunca faças ao outro aquilo que não gostavas que te fizessem.

E é uma mãe galinha?

Sou, sou. (risos) De tal forma que custa deixá-los crescer. A dificuldade de ser mãe está em nós sabermos a fronteira entre aquilo que deve ser o nosso amparo e a necessidade de os deixar crescer e de cometer erros porque isso é importante para o crescimento deles. Essa fronteira é difícil. Temos de ter limites na proteção. Mas é evidente que os meus filhos são o maior tesouro que eu tenho. Já tive períodos até em que me questionei se eu consegui o equilíbrio entre a minha vertente profissional e a de ser mãe. Questionamos isso e isso dói. O facto de profissionalmente ter períodos de forte exigência e dedicação, quantas vezes me questionei… Mas acho que tentei sempre compensar. Não podemos avaliar as coisas dessa forma tão linear. É importante procurarmos o equilíbrio… Vivemos numa sociedade extremamente crítica e não podemos transpor isso para a nossa vida. Começar a medir tudo é difícil.

A morte assusta-a?

Não tenho medo de morrer. Já fiz muita coisa na minha vida. Tenho é medo do sofrimento. Isso assusta-me muito. Quando penso em mim própria, o que me assusta é o facto de os meus filhos precisarem de mim e eu já não estar cá. Tenho dois filhos, o Filipe tem 14 anos, a Mariana tem 21. Sobretudo no caso dele, preocupa-me mais ele precisar de mim e eu não estar cá para o apoiar. As pessoas deviam pensar que o tempo que estamos aqui é para estarmos bem e construirmos o bem. E isso é o mais importante. Às vezes penso como é que as pessoas podem ser felizes se pensarem apenas nelas porque não consigo pensar assim (risos).

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