Em maio faz 20 anos que Camila Tomaz Cabral chegou a Portugal. Natural de Santos, em São Paulo, no Brasil, veio para o país, onde o pai nasceu, em 2001 ao abrigo de um programa de estágios que o Estado português criou para lusodescendentes.
“Sou filha de um português e depois de tirar a licenciatura, inscrevi-me num concurso para estágio profissional que os negócios estrangeiros e o centro de emprego abriram para filhos e/ou netos de portugueses recém-licenciados e que estavam a viver fora de Portugal”, explica, acrescentando que foi “selecionada logo na primeira chamada”.
“Como mostrei interesse em Viseu e na área de paralisia cerebral, vim para a cidade diretamente para fazer o estágio profissional de nove meses na Associação de Paralisia Cerebral de Viseu (APCV) em Terapia da Fala”, conta.
Desde que chegou, Camila nunca mais saiu da instituição social que a acolheu. Depois do estágio foi convidada para ser terapeuta da fala na valência de ambulatório da APCV.
A lusodescendente não esconde que a mudança para terras lusitanas foi “um pouco atribulada” porque antes de vir estava a estudar e a trabalhar nos Estados Unidos.
“De forma apressada tive que resolver tudo no prazo de menos de uma semana para não perder a oportunidade. Tive que mudar as viagens que eles mandaram para o Brasil e solicitar um visto de estudante para Portugal uma vez que ainda não tinha nacionalidade portuguesa. Fazer isso tudo no consulado português de Miami, perto do feriado do dia 1 de maio, foi uma aventura… mas tudo correu dentro do prazo”, refere.
Camila adianta ainda que ao chegar sentiu algumas dificuldades na adaptação à língua, mas também ao clima. E revela que foi alvo de discriminação por não ser portuguesa de gema.
“No início sentia preconceitos no dia a dia, no comércio, nos táxis e nas repartições públicas, etc. Claro que não podemos generalizar, era apenas com algumas pessoas. O melhor de tudo é que eu tinha à minha espera a família do meu pai da Cunha Alta, em Mangualde, que me acolheram com muito carinho. E depois com o tempo os colegas do trabalho e a igreja ajudaram muito no processo de adaptação”, realça.
A terapeuta da fala desfaz-se em elogios em relação a Viseu. Diz que gosta “muito” da cidade para viver e para educar os filhos. Destaca a qualidade de vida que, defende, “não tem comparação” com o Brasil.
“Conseguimos fazer de tudo um pouco. Viseu tem muitas zonas de lazer, restauração entre outras. Apenas não gosto do frio, de resto amo Portugal, o país que tão bem me acolheu e me deu muitos amigos e uma família linda que amo muito”, afirma.
Considera Portugal já a sua terra e o seu lar. É deste lado do Atlântico que quer ficar. Para o Brasil, [quero voltar] apenas para visitar a minha família e amigos”, refere.
E nem a pandemia da Covid-19 a fez querer deixar o país que já é o seu, o trabalho, a casa, os filhos e o marido. “Aqui estamos bem”, argumenta.
Um ano depois da chegada do novo coronavírus, confessa que no início a pandemia causou medo. A família estava assustada e ninguém sabia como ia “sobreviver”.
“No entanto, tenho estado em teletrabalho e trabalho presencial conforme as regras que vão sendo colocadas pelo Governo e Direção Geral de Saúde. O meu marido tem trabalhado e estamos com ajuda de Deus a conseguir superar esta fase. Não tem sido fácil, estudos em casa com os meus filhos, eu em teletrabalho, mas até agora tudo tem corrido sem grandes complicações. Penso que esta fase irá ensinar-nos muitas coisas, mas que vai passar quando assim, Deus o permitir”, conclui.