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Vitor Santos
Falar de desporto escolar é falar muito para além de correr, saltar ou competir. É falar de um espaço onde emergem emoções fortes, rivalidades inesperadas e fragilidades que, demasiadas vezes, replicam o pior do desporto federado. Talvez por isso o desporto escolar seja, paradoxalmente, um dos territórios mais férteis para trabalhar a ética, esse exercício permanente de pensar o que fazemos e por que o fazemos.
A escola enfrenta hoje o desafio de formar cidadãos críticos, capazes de se posicionar num mundo complexo. Integrar a ética no desporto escolar não é, portanto, um “extra” – é uma exigência. Princípios como respeito mútuo, justiça, solidariedade e diálogo não podem ser apenas palavras bonitas em documentos curriculares. Precisam de ser vividos, e o desporto oferece o palco ideal para que esses valores se tornem visíveis, tangíveis e discutíveis.
Basta observar qualquer competição para perceber como o respeito está longe de ser garantido. Muitos professores relatam níveis de agressividade preocupantes, comportamentos desleais e um cenário onde o professor é visto mais como treinador do que como educador. Há quem seja excluído por falta de habilidade, quem seja alvo de alcunhas, quem seja relegado para segundo plano apenas por não corresponder ao “nível” esperado. Cabe ao professor transformar o jogo num espaço onde todos contam, adaptando modalidades, criando oportunidades reais de participação e combatendo práticas de humilhação que, muitas vezes, passam como normais.
A justiça, por sua vez, exige reconhecer que igualdade não é tratar todos da mesma forma, mas considerar as diferenças reais entre os alunos. É no diálogo, tantas vezes esquecido, que se resolvem conflitos, se negocia o que é justo e se constroem regras reconhecidas como legítimas pelos próprios alunos.
E a solidariedade? No desporto escolar ela manifesta-se quando alguém abranda para ajudar um colega, quando uma turma se mobiliza para incluir um aluno com necessidades especiais, quando a vitória deixa de ser a única métrica de sucesso. Por isso, faz sentido discutir propostas como impedir que alunos federados compitam nas mesmas modalidades, permitindo que o desporto escolar seja realmente complementar, abrindo espaço a novas práticas, novas competências e novas atitudes.
Infelizmente, continuam a surgir relatos de competições onde impera a lógica da vitória a qualquer custo, e onde alguns professores, longe de inocentes, reforçam precisamente aquilo que deveriam combater. Para que os alunos sejam capazes de exercer o respeito mútuo, é imprescindível que os professores também o façam, o que exige coerência entre o discurso e a prática cotidiana.
O desporto escolar tem o potencial de ser um dos mais poderosos laboratórios de cidadania da escola. Mas isso só acontece quando se assume que jogar vai muito para além do jogo em si. É conviver, negociar, falhar, reparar e aprender. A ética não se ensina num discurso, pratica-se em cada passe, em cada discussão, em cada gesto. Se a escola quiser realmente educar para a cidadania, o desporto escolar não pode ficar de fora desta missão.
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Vitor Santos
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Joaquim Alexandre Rodrigues
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