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Marta Costa
Durante demasiado tempo, o interior foi descrito como aquilo que não tem: falta de população, falta de investimento, falta de oportunidades. Mas essa leitura, além de cansada, é hoje economicamente errada. O interior não é apenas um território a compensar; é em muitos casos um território a reconhecer. E o distrito de Viseu é um bom exemplo disso: produz, exporta, forma, inova e ajuda a sustentar a economia portuguesa com uma discrição que, por vezes, escapa ao debate público.
Basta olhar para a realidade empresarial da Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões. Só em 2024, a região registou um volume total de exportações de cerca de 1,55 mil milhões de euros, com forte integração no mercado europeu. Não se trata de uma economia fechada sobre si mesma, mas de um território industrial e empresarial com vocação internacional, com clusters consolidados nos setores automóvel, metalomecânico, madeira, têxtil e agroalimentar.
O caso de Mangualde é particularmente elucidativo. A fábrica da Stellantis atingiu em 2024 o maior volume de produção da sua história, representa mais de 25% dos veículos produzidos no país e exporta 95% da sua produção. Mais do que um dado industrial, isto é uma evidência económica com implicações políticas claras: uma parte relevante da capacidade exportadora e produtiva nacional está instalada no interior. E está instalada com inovação, com incorporação tecnológica e com criação de emprego qualificado.
Mas Viseu não vive de um único exemplo. O tecido empresarial do distrito revela uma densidade e diversidade que desmontam o velho preconceito de que o interior é economicamente periférico. A CIM Viseu Dão Lafões destaca, além da Stellantis, empresas ligadas aos componentes automóveis, à metalomecânica, à madeira, ao têxtil e ao agroalimentar. A Martifer, com sede em Oliveira de Frades, é um grupo multinacional presente em vários países. O Grupo Visabeira nasceu em Viseu em 1980, mantém aqui a sua sede e afirma-se hoje como uma holding multinacional com atividade em áreas como telecomunicações, energia, tecnologia, construção e indústria. Quando se fala do contributo de Viseu para a economia nacional, é disto que se fala: de empresas que criam valor local e competem globalmente.
Há ainda outro ativo que o distrito soube transformar em economia com identidade: o vinho do Dão. A Região Demarcada do Dão foi formalmente criada em 1908 e tornou-se a primeira região portuguesa de vinhos não licorosos a ser demarcada e regulamentada. Isto não é apenas património histórico. Num tempo em que os mercados valorizam autenticidade, origem e qualidade, o Dão mostra como tradição e sofisticação podem ser fatores de desenvolvimento. O mesmo território que exporta automóveis e metalomecânica exporta também reputação, identidade e valor acrescentado.
Mas nenhum território se desenvolve de forma sólida sem qualificação. E aqui também Viseu tem dado sinais importantes. O Instituto Politécnico de Viseu assume uma ligação estreita ao tecido empresarial regional e oferece 34 cursos técnicos superiores profissionais, além de licenciaturas, mestrados e pós-graduações. Na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Viseu surgem formações em áreas diretamente ligadas às necessidades da economia regional, como Automação e Energia, Energias Renováveis, Tecnologia Automóvel e Desenvolvimento para a Web e Dispositivos Móveis, este último em parceria com a Deloitte. Na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Lamego há ofertas como Computação Cloud, em parceria com a PwC, e Turismo de Saúde e Bem-Estar, em São Pedro do Sul. Isto é formação desenhada para responder ao território.
Este esforço não se limita ao ensino superior. A Escola Profissional de Vouzela apresenta-se como referência regional, com 33 anos de experiência, ensino prático e elevados níveis de empregabilidade. A AIRV, por seu lado, desenvolve formação para empresas, desempregados e formadores, além de apoiar incubação e empreendedorismo. E o Centro de Emprego e Formação Profissional de Viseu permanece como uma infraestrutura pública essencial para articular emprego, requalificação e formação. Em Viseu, a formação é uma estratégia de desenvolvimento.
O que o distrito de Viseu demonstra é simples, mas politicamente exigente: o desenvolvimento do interior não se faz com retórica nem com políticas avulsas que mudam ao ritmo dos ciclos políticos. Faz-se com indústria, exportação, qualificação, ligação entre escolas e empresas, redes institucionais e visão estratégica. Faz-se quando o país percebe que há territórios do interior que não pedem favores, mas apenas as condições para continuar a fazer aquilo que já fazem bem.
Talvez esteja na altura de mudar a pergunta.
O problema nunca foi o que falta ao interior. É o que o país ainda não aprendeu com ele.
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Marta Costa
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