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Verdade e mentira

 Direito à Cultura!
04.04.26
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 Verdade e mentira

por
Joaquim Alexandre Rodrigues

Dediquei o dia das mentiras deste ano à leitura de O Futuro da Verdade, um livrinho de Werner Herzog, um cineasta alemão (ele prefere dizer-se bávaro) com mais de 70 filmes, vários deles a desafiarem as fronteiras entre ficção e documentário, entre o mundo da “verdade” e o da “mentira”. O realizador defende que há uma “verdade dos contabilistas” (dos factos brutos, dos dados) e uma “verdade extática” (das emoções, da ficção) e que a segunda descreve melhor a experiência humana do que a primeira. 
No livro, editado pela Zigurate, dedica cinco páginas ao seu filme Family Romance (2019). Vou tentar aqui descrever as várias camadas de verdade e de ficção deste “drama”, melhor dizendo, deste “docudrama”. 
Family Romance é uma empresa japonesa real, pioneira no aluguer de actores para substituirem membros da família ou amigos ausentes, um negócio de substituição emocional que emprega mais de dois mil actores e que dá resposta à solidão existente na sociedade japonesa. Muitas vezes este faz-de-conta é solicitado para preservar as aparências e a harmonia social que, como se sabe, é muito valorizada no Japão.
Exemplos de serviços: 
— um pai bêbedo e inconveniente substituído por um actor no casamento da filha;
— uma lésbica contrata um actor para um casamento de fachada para consumo da família conservadora.
Um terceiro com mais detalhes:
— a mãe de Mahiro aluga-lhe um “pai” porque a menina, de 11 anos, nunca conheceu o seu verdadeiro progenitor; esta “encenação” proporciona “a Mahiro uma sensação de segurança” que “desenvolve um carinho cada vez maior por aquele pai manifestamente falso” que “entra no jogo, escuta-a, caminha afectuosamente com ela”; a certa altura, “Mahiro começa, pelo menos em pequenas questões, a mentir”, mostra uma fotografia sua a fazer ioga e diz ao “pai” que a tirou em Bali quando na verdade tinha sido numa praia perto de casa; depois tudo se complica ainda mais, a mãe começa a apaixonar-se pelo “pai”, isto é, por ela o “pai” virava pai.
Herzog delira com estas voltas nos enredos: o pai é falso, o encontro encenado, a relação contratual, mas o afecto e o crescimento e a segurança emocional de Mahiro é real, e, detalhe delicioso, ela começa a mentir, a mentira a gerar mais mentira. No livro, Herzog ronrona como um gato satisfeito: “tudo no filme é mentira, tudo é fingimento, tudo é uma performance profissional, mas o curioso é que há em todo ele uma constante de verdade: a dos sentimentos”.
Em vésperas da Páscoa, deixo aqui dois votos:
— que a “verdade extática” se fique pela ficção e as redes sociais;
— que o jornalismo se deixe deste 1º de Abril todos os dias, se cinja aos factos e não os misture com opinião, em suma, passe a praticar aquilo a que Herzog chama “verdade dos contabilistas”. 

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