No coração verde do concelho de Viseu, Côta é uma aldeia onde…
Nasceu, em Cinfães, a Quinta da Maria, um projeto turístico com alma…
No coração do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, há…
A história de três mulheres é o fio condutor de “Perdeu-se relógio de senhora”, novo romance de Alice Brito, que retrata o quotidiano em Portugal sob ditadura, recuperando memórias e expondo a repressão exercida, sobretudo sobre as mulheres.
Ao trazer para título da obra uma senha usada clandestinamente, Alice Brito sintetiza aquilo que era uma vida marcada pelo medo e regulada por um conjunto rigoroso de normas destinadas a garantir a segurança.
“‘Perdeu-se relógio de senhora’ era a senha que o Partido Comunista utilizava quando alguém era preso. Essa fórmula era posta num jornal (…) e era um aviso à navegação. E eu achei que era um título engraçado e que corresponde, de facto, a uma senha interna do PC. Aquilo depois tinha uma série de procedimentos, que o livro indica, como é que se fazia, o que é que as pessoas tinham de fazer”, contou em entrevista à agência Lusa.
Com chancela da Companhia das Letras e chegada às livrarias a 11 de maio, este é o quarto romance da autora e marca a sua estreia nesta editora, que a descreve como “uma voz única, que se eleva em defesa da condição feminina, mas sem proselitismos de qualquer espécie”.
“Perdeu-se relógio de senhora” passa-se em Portugal nos anos do fascismo e acompanha três mulheres “oriundas de geografias diferentes, estratos sociais, três mulheres completamente diferentes, de idades diferentes”, que, “por circunstâncias várias, se vão encontrar em Lisboa já na década de [19]70, pouco tempo antes do 25 de Abril”, contou Alice Brito.
As suas vidas vão-se desvendando, inscritas num tempo com pouca cor, sob o olhar vigilante da polícia política e de uma moral repressiva, num país sob a sombra da guerra colonial e já farto da ditadura.
Por um acaso do destino, estas três mulheres, que tinham tudo para não se cruzar, acabarão a partilhar a mesma casa, um apartamento na Avenida Duque d’Ávila, em Lisboa, e, embora a vida de cada uma tenha seguido um percurso distinto, até ao momento desse acaso, sobre todas elas pesou “a pata da ditadura”.
Segundo Alice Brito, toda a narrativa e as personagens são ficcionais, embora uma delas corresponda a uma mulher que existiu na vida real e a quem a autora mudou o nome e criou uma aparência, construindo-a “toda como uma personagem”, mas “o ‘esqueleto’, esse, é real”.
A inspiração surgiu a partir de uma prisão ocorrida em Setúbal e que foi identificada no âmbito de uma investigação feita pelo marido, um historiador local, que fez um levantamento dos presos políticos na cidade.
Foi então que surgiu a história de “uma prisão acontecida em Setúbal, exatamente na rua onde eu vivia”, recordou a escritora, que foi então consultar documentação no Conservatório do Registo Civil para reconstituir o percurso de vida dessa pessoa.
O arco temporal da narrativa acompanha cada uma daquelas três mulheres, desde o seu nascimento até à queda da ditadura.
“A primeira personagem nasce em 1922, portanto terá 50 e poucos anos quando foi o 25 de Abril. A segunda é uma personagem que nasce talvez 10 anos depois e a terceira ainda 10 anos depois ou quase 20 anos depois”, revelou, acrescentando que esta “é a história de cada uma delas”.
O livro centra-se na vivência quotidiana durante o Estado Novo e essa narração prende-se a “como é que as pessoas viviam, de facto: Quais eram os recursos que usavam? O que é que faziam do seu dia-a-dia? Como é que era a ideologia de tudo aquilo? Como é que era vista a virgindade? Como é que eram vistas as pessoas que viviam em união de facto e que não eram casadas? Enfim, como é que eram as leis? Como é que eram os livros das escolas? Como é que eram as escolas? Como é que se vivia e respirava?”.
“Mas é um romance e, portanto, não é um panfleto nem é um ensaio. Tem personagens, tem enredo e tem um fim que é feliz porque acontece o 25 de Abril”.
O foco que a autora põe nas mulheres é assumido, porque estas “eram as principais visadas por uma ideologia asfixiante a todos os níveis, nas normas que tinham de interiorizar, na forma de estar na vida, na falta de liberdade, na obediência que tinham de ter”.
“Se tudo isto era uma sociedade repressiva, ela era fundamentalmente ainda mais repressiva em relação às mulheres como todas as ditaduras”.
Advogada e defensora da causa feminista, Alice Brito reconhece a influência da profissão e a forma como esta molda a sua escrita, porque a linguagem de direito veste-lhe “um colete-de-forças” e impede-a de “ir para uma ação falar de paixões ou de sentimentos”, tendo de se cingir aos factos, mas a literatura permite-lhe usar os mesmos factos e experiência humana, com liberdade estilística.
“Têm passado à frente de mim casos que ultrapassam em muito uma realidade romanceada, quer dizer, que se fossem escritos diria que eram improváveis. E, portanto, essa experiência relativamente a relatos que me são feitos de mulheres, o que elas passam, como é que elas vivem, o seu dia-a-dia, as suas relações com o companheiro, ou marido, ou namorado, seja o que for, às vezes salta para dentro do meu romance. Digamos que na subalternidade a que as mulheres são sujeitas, nem nos passa pela cabeça as diferentes formas que isso pode assumir. E, de algum modo, eu tento transcrever isso para o romance”.
Questionada sobre a atualidade e o ressurgimento de discursos extremistas e ultraconservadores, a autora apontou a falta de memória como a principal responsável, considerando que “uma pessoa sem memória é uma pessoa louca, não sabe de onde vem, não sabe para onde vai”.
Daí a importância de livros como este, que reavivem a memória “desses dias terríveis”, que contem “a maneira como se vivia”, pois, de alguma forma, “são instrumentos para podermos lutar contra tudo isso”.
“São tempos terríveis, aqueles que vivemos, terríveis a todos os níveis”, com a “emergência dessas forças de extrema-direita que, de uma forma muito despudorada e dizendo coisas inacreditáveis, conseguem angariar votos até por parte dos mais pobres”, lamentou a autora.
“Quando alguém vem dizer que eram precisos três Salazares, é porque não viveu no tempo de um só, e isso é uma coisa que me aterroriza, a hipótese de um regresso a tempos como esses que são narrados no livro”, acrescentou.
Alice Brito publicou anteriormente “As mulheres da Fonte Nova” (2012), “O dia em que Estaline encontrou Picasso na biblioteca” (2015) e “A noite passada” (2019). No passado mês de março esteve entre os autores portugueses convidados para a Feira do Livro de Leipzig, na Alemanha, coincidindo com a publicação neste país do seu primeiro romance, “As mulheres da Fonte Nova”.