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Água e cloreto de sódio

 A responsabilidade dos administradores: um risco muitas vezes desconsiderado
04.07.26
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 Água e cloreto de sódio

por
Joaquim Alexandre Rodrigues


Ladies and gentlem
en, “Lágrima de preta”, um poema de António Gedeão:

Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.

Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gota

muito transparente.

Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.

Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.

Gostou? Também gosto. Simples, poderoso. Que este poema é uma chapada na cara dos racistas já se sabe desde 1958, ano da sua publicação. Que também incomoda uma certa esquerda identitária acabou de saber-se, depois de ter saído, no Público, um texto de Nuno Veiga intitulado “Lágrima de Preta no microscópio: o racismo estrutural no programa escolar”. 

Veiga é mediador cultural e linguístico numa escola pública e o seu argumento, exposto com toda a seriedade, é o seguinte: o poema é paternalista porque quem tem o bisturi é o poeta branco, que usa a mulher negra como cobaia passiva para atingir a sua epifania moral. A mulher não tem agência, não tem voz, não tem história. Quem certifica a humanidade do “outro” é sempre o privilegiado que empunha o microscópio.

O argumento tem uma certa consistência interna — se aceitarmos as premissas. E são precisamente essas premissas que vale a pena discutir. A Teoria Crítica da Raça, de que este texto é um manual de aplicação, exige que se leia qualquer autor branco através de uma única lente: a do poder e do privilégio. Nessa grelha, a intenção não conta. A beleza não conta. O efeito anti-racista também não conta. O colunista teve o seu “13 de Maio” e viu Kimberlé Crenshaw em cima de uma azinheira. A partir de então, passou a ver racismo estrutural em tudo o que mexe — até neste poema que, durante décadas, ajudou gerações de alunos portugueses a perceber que a dor não tem cor.

Em 24 de Junho de 2026, neste artigo do Público, Nuno Veiga afirmou que “não defende o cancelamento de António Gedeão” e que “rasgar páginas de manuais é uma higiene moral inútil”. Em 11 de Janeiro de 1968, um despacho da censura do Estado Novo, assinado pelo capitão José Brandão Pereira de Mello, concluía, sobre O Reino da Estupidez, de Jorge de Sena: “não será, evidentemente, de recomendar ou aconselhar a espíritos juvenis em formação, mas não encontro neste livro, objectivamente, coisa que justifique a sua proibição.” A diferença entre o capitão e o mediador cultural é que o primeiro representava a censura do Estado; o segundo representa uma forma mais subtil de policiamento cultural.

Yascha Mounk prevê que vão ser precisos trinta anos para erradicar a infecção woke. Entretanto, o poema continua a dar o mesmo resultado de sempre: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio.

 A responsabilidade dos administradores: um risco muitas vezes desconsiderado

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