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Um estudo sobre a malária apresentou o mundo em desenvolvimento à portuguesa Andreia Fausto que trabalhou na luta contra a fome em países como Moçambique, Maláui, Sudão ou Guatemala, onde conheceu uma realidade da ajuda humanitária bem diferente dos livros.
A trabalhar na Guatemala, onde gere as várias iniciativas do Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas, esta portuguesa nascida em Trevões, no concelho de São João da Pesqueira, há 31 anos, abraçou a ação humanitária quando ainda estava a fazer o mestrado em saúde pública, no Reino Unido.
“As grandes causas e com maiores populações com incidências em doenças que dizem respeito ao léxico da saúde pública estão nos países em desenvolvimento. Comecei a fazer alguns estudos sobre a malária que me levaram até África”, contou à agência Lusa.
Desde 2013 passou por Moçambique, São Tomé e Príncipe, Maláui e Sudão, onde presenciou à queda de Omar al-Bashir, em 2019.
O seu trabalho para o PAM — um programa que anualmente ajuda 90 milhões de pessoas em 80 países — mostrou-lhe uma realidade nem sempre em sintonia com os livros.
“Só com a experiência no terreno e só com essas experiências vividas, com o intercâmbio de culturas, com o perceber que o que é normal para mim, pode não o ser necessariamente para outros povos, outras pessoas, só depois de ter esta convivência e nos apercebermos do que está no terreno é que se devia fazer os livros e não o contrário”, defende.
E acrescenta: “A parte teórica nem sempre se adapta a cada país ou a cada comunidade. Este jogo de cintura, esta adaptação ao contexto de cada país é das mais valias e das maiores riquezas que se aprende quando se está no terreno, quando se vive cá”.
“Existe sempre toda a parte teórica, o que idealmente se deve fazer, mas cada país é um país, cada contexto é um contexto, cada etnia é uma etnia diferente. Só estando no terreno, só estando com as comunidades, falando com as pessoas, percebendo exatamente o que elas querem é que se pode complementar o que está nos livros”, adiantou.
No Sudão, país que atravessa uma nova crise, após um golpe militar no passado mês de outubro, a especialista em saúde pública trabalhou com os refugiados.
Este país africano conta com um dos mais elevados números de deslocados internos do mundo (cerca de 454.000, segundo a organização que os monitoriza) e que para ali vão para fugir de conflitos, da violência ou porque se sentem ameaçados, apesar de também atravessar várias crises.
“Eles vêm sem nada ou com muito pouco e vêm para um Sudão, que é um país fragilizado, politicamente muito instável, com uma economia que já teve dias melhores, com uma inflação de 300%. Se essas pessoas vêm para um país que a nível macro está muito, muito mal, isso só diz que a única coisa que eles procuram é sobreviver, não é viver”, contou.
E dá o exemplo dos refugiados que vieram da Etiópia, em condições extremas – idosos, crianças, mulheres, mulheres grávidas, mulheres a amamentar.
“Os primeiros dias que esses refugiados vivem nos campos de refugiados, abertos pelo governo do Sudão, ficam para sempre na memória de cada um de nós e que nos ajudam a valorizar muito daquilo que temos. Muitas vezes queixamo-nos, mas na verdade somos todos é muito privilegiados”, referiu.
Este ano, Andreia Fausto deixou para trás o Sudão, onde o marido continua, também ele ao serviço da ação humanitária, para ser agradavelmente surpreendida por uma Guatemala cheia de cheiros e um povo simpático que, contudo, atravessa uma grave crise alimentar.
“A Guatemala, um país de renda média, é o sexto país do mundo com maior taxa de desnutrição crónica e o primeiro na América Latina”, disse.
Andreia Fausto considera que é importante entender as razões para estes dados aparentemente contraditórios, para os quais poderão estar a contribuir as desigualdades sociais, as diferenças entre os guatemaltecos e as suas populações indígenas.
“Estas diferenças sociais são muito marcadas com estes níveis de desnutrição crónica e isto, se não for tratado e se não se perceber qual é a razão por detrás de tudo isto e se não se tiverem programas específicos que trabalhem a mudança social de comportamento, o que vamos ver é que a Guatemala, que é um país agora de renda média, nunca vai ser um país produtivo, as pessoas não vão ter esta capacidade produtiva e cognitiva que teriam se não tivessem desnutrição crónica”.
E adverte: “Não é só os níveis de nutrição crónica, que são muito, muito preocupantes, mas é também o futuro das gerações que aí vêm e que estão comprometidas”.
A simpatia dos guatemaltecos surpreendeu Andreia Fausto, para quem este é um país “lindíssimo e que tem um potencial muito grande”, a par de aromas muito característicos, entre eles o bom café que produz, mas que acaba quase todo exportado.
“É um país que tem uma realidade muito diferente da realidade africana. A Guatemala tem um governo, um governo forte, que é um governo que existe, que tem estruturas e que essas estruturas, melhor ou pior, elas funcionam. Não é uma realidade como o Sudão, que tem golpes militares, ou até Moçambique ou o Malawi, que são estruturas governamentais mais deficientes”, prosseguiu.
Neste país que “tem sido uma boa caixa de surpresas” tem tido a sorte de ter colegas do programa de origem portuguesa, o que acontece pela primeira vez, pois o inglês é normalmente a língua com que trabalha.
Como em todos os países onde tem ajudado a combater a fome, e sempre que diz ser portuguesa, recebe a atenção de quem conhece Cristiano Ronaldo.
“Todos eles falam do Cristiano [Ronaldo] e há muitas pessoas que me perguntam se eu conheço o Cristiano, porque Portugal é pequeno”, disse, indicando que os pasteis de nata e o bacalhau seguem no top dos símbolos de Portugal identificados naquelas paragens.