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Partilharam nos últimos anos o microfone da Rádio Jornal do Centro no programa Conversa Central. António Leitão Amaro, José Junqueiro e Fernando Ruas falam de Jorge Coelho, o comentador, o político e o empresário. Destacam o homem cordial, amigo dos adversários e genuíno “beirão”. Os três comentadores políticos que com Jorge Coelho completavam esta quadratura da opinião lamentam a perda de um defensor do interior e de uma voz assertiva.
Jorge Coelho morreu na última quarta-feira, vítima de doença súbita.
Fernando Ruas, por exemplo, recorda a “amabilidade” de Jorge Coelho e as palavras deixadas quando o ex-autarca terminou os seus mandatos na Câmara de Viseu. Já José Junqueiro lembra que o seu percurso público cruza-se com o do ex-ministro que foi quem o convidou para ser secretário de Estado. Recorda ainda o “regresso” à vida partidária em 2013 quando Jorge Coelho interveio na apresentação da sua candidatura à Câmara de Viseu. António Leitão Amaro fala de alguém que “defendia a sua terra e tinha uma voz forte nessa defesa”.
Depois de terminar a sua participação pública em programas televisivos, Jorge Coelho manteve a sua presença na Rádio Jornal do Centro. Chegou a afirmar que era o único local onde permanecia por se tratar de um projeto da sua terra.
E nas várias reações à vida do ex-ministro socialista, o seu amor pela região é um dos pontos de destaque. Governantes, ex-governantes, responsáveis de instituições e empresários falam do “empreendedor”, daquele que fazia pontes, por exemplo, entre as empresas e o ensino.
E o Interior estava no coração do ex-ministro. Fez parte, com outras individualidades, do Movimento pelo Interior que colocou os problemas deste território na agenda política, criando um relatório com propostas e medidas para as próximas legislaturas.
Numa das últimas participações na Conversa Central, há duas frases que ficam das suas opiniões. A primeira é a de que os empresários da região vão ser a peça mais importante na recuperação da economia no pós-pandemia. A segunda fala de uma sociedade que se não sabe preservar o seu património é uma sociedade sem grande futuro.
A última vez que Jorge Coelho falou aos microfones da Rádio Jornal do Centro foi para deixar a sua homenagem a Almeida Henriques, o autarca de Viseu que faleceu no último domingo. ““Almeida Henriques era um combatente por Viseu, pelo interior, pelo desenvolvimento do nosso país e pelo poder local democrático”, disse.
Agora, a homenagem é prestada ao ex-ministro socialista, o empresário que investiu numa queijaria em Mangualde, que era presidente da Assembleia Geral da AIRV e fazia parte do Conselho Geral do Instituto Politécnico de Viseu. Que era também membro do Conselho Geral e Supervisão do Grupo Visabeira e administrador do Grupo Vistalegre.
Natural de Contenças, concelho de Mangualde, Jorge Paulo Sacadura Almeida Coelho nasceu em 17 de julho de 1954, e licenciou-se em Organização e Gestão de Empresas pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade Técnica de Lisboa.
Foi militante de extrema-esquerda, “braço direito” de António Guterres no PS, ajudou à vitória socialista em 1995, e ministro que assumiu responsabilidades na tragédia de Entre-os-Rios, há 20 anos.
Jorge Coelho iniciou-se na atividade política pela extrema-esquerda. Depois do 25 de Abril de 1974, militou em movimentos como os Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas (CCR-ML) e Partido Comunista Reconstruído PC(R), que mais tarde deu origem à formação da UDP (União Democrática Popular).
Filiou-se no PS em 1983. Nessa altura, conheceu Murteira Nabo e foi seu chefe de gabinete duas vezes, primeiro no Governo do Bloco Central, de 1983 a 1985, e depois em Macau, entre 1986 e 1991.
Dentro do PS, Coelho começou por apoiar Mário Soares, ajudando a coordenar a campanha presidencial do fundador do PS, entre o final de 1985 e 1986. E esteve ao lado de Vítor Constâncio, quando este foi secretário-geral dos socialistas.
Em 1990, começou, como Guterres, a afastar-se de Jorge Sampaio no congresso do Porto do PS e, em 1992, esteve na primeira linhada candidatura de António Guterres à liderança do partido.
Desde então, foi um dos “braços direitos” do atual secretário-geral da ONU, António Guterres, na corrida às legislativas, com a organização dos Estados Gerais para uma Nova Maioria, por oposição à “velha maioria” do PSD e de Cavaco Silva, que deixaram o poder em 1995.
O conhecimento das estruturas do PS valeu-lhe a designação de “homem da máquina” ou “homem do aparelho” e chegou a contar que saia da sede do Largo do Rato, em Lisboa, por uma porta “do lado” para evitar conversas com “candidatos a candidatos” a deputados.
Com Guterres, foi ministro Adjunto, da Administração Interna, da Presidência e do Equipamento Social, até 2001.
Depois da política, Jorge Coelho dedicou-se à gestão de empresas e foi, de 2008 a 2013, presidente da Comissão Executiva da Mota-Engil. Na vida pessoal, venceu um cancro, processo em que emagreceu muitos quilos.
Fez, porém, uma nova incursão na vida partidária do PS após a saída de Ferro Rodrigues, em 2004, e esteve ao lado de José Sócrates na campanha para as eleições que deram aos socialistas a primeiro e única maioria absoluta até hoje, em 2005.
E há 20 anos, após a queda da ponte de Entre-os-Rios, na noite de 04 de março de 2001, onde morreram 59 pessoas, assumiu as responsabilidades políticas pelo sucedido e – num gesto raro na política portuguesa – demitiu-se de imediato de ministro da Presidência e do Equipamento Social, com a tutela sobre as pontes, numa conferência de imprensa realizada madrugada dentro.
“Pelo respeito que merecem os que ali morreram e os que continuam a sofrer”, porque era “preciso retirar consequências políticas” e porque “a culpa não pode morrer solteira”, afirmou então, nessa madrugada, depois de conversas acaloradas com vários membros do Governo, incluindo António Guterres.