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por
Joaquim Alexandre Rodrigues
Ladies and gentlemen, “Lágrima de preta”, um poema de António Gedeão:
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Gostou? Também gosto. Simples, poderoso. Que este poema é uma chapada na cara dos racistas já se sabe desde 1958, ano da sua publicação. Que também incomoda uma certa esquerda identitária acabou de saber-se, depois de ter saído, no Público, um texto de Nuno Veiga intitulado “Lágrima de Preta no microscópio: o racismo estrutural no programa escolar”.
Veiga é mediador cultural e linguístico numa escola pública e o seu argumento, exposto com toda a seriedade, é o seguinte: o poema é paternalista porque quem tem o bisturi é o poeta branco, que usa a mulher negra como cobaia passiva para atingir a sua epifania moral. A mulher não tem agência, não tem voz, não tem história. Quem certifica a humanidade do “outro” é sempre o privilegiado que empunha o microscópio.
O argumento tem uma certa consistência interna — se aceitarmos as premissas. E são precisamente essas premissas que vale a pena discutir. A Teoria Crítica da Raça, de que este texto é um manual de aplicação, exige que se leia qualquer autor branco através de uma única lente: a do poder e do privilégio. Nessa grelha, a intenção não conta. A beleza não conta. O efeito anti-racista também não conta. O colunista teve o seu “13 de Maio” e viu Kimberlé Crenshaw em cima de uma azinheira. A partir de então, passou a ver racismo estrutural em tudo o que mexe — até neste poema que, durante décadas, ajudou gerações de alunos portugueses a perceber que a dor não tem cor.
Em 24 de Junho de 2026, neste artigo do Público, Nuno Veiga afirmou que “não defende o cancelamento de António Gedeão” e que “rasgar páginas de manuais é uma higiene moral inútil”. Em 11 de Janeiro de 1968, um despacho da censura do Estado Novo, assinado pelo capitão José Brandão Pereira de Mello, concluía, sobre O Reino da Estupidez, de Jorge de Sena: “não será, evidentemente, de recomendar ou aconselhar a espíritos juvenis em formação, mas não encontro neste livro, objectivamente, coisa que justifique a sua proibição.” A diferença entre o capitão e o mediador cultural é que o primeiro representava a censura do Estado; o segundo representa uma forma mais subtil de policiamento cultural.
Yascha Mounk prevê que vão ser precisos trinta anos para erradicar a infecção woke. Entretanto, o poema continua a dar o mesmo resultado de sempre: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio.
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