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por
Pedro Escada
Escrevo estas linhas a partir de uma posição pessoal, que importa deixar clara. Fui militante do PSD, mas deixei de o ser há cerca de oito anos. Não falo, portanto, em nome do partido, de qualquer direção ou de qualquer estrutura interna. Falo como cidadão, como antigo militante e como eleitor de centro-direita moderada e responsável. Falo como alguém que continua a acreditar na política democrática, na ordem, nas instituições e num humanismo que não abdica nem da autoridade nem da liberdade.
É precisamente por continuar a identificar-me com esses valores que não posso aceitar que o PSD seja empurrado para uma aproximação governativa ao Chega como se essa fosse uma consequência inevitável da aritmética parlamentar ou uma exigência da realidade política.
O PPD-PSD não nasceu para ser um instrumento ao serviço das ambições de uma personalidade, nem para se transformar numa plataforma de conveniência onde caibam todas as alianças que, em determinado momento, pareçam eleitoralmente vantajosas. Nasceu de uma ideia de Portugal, de uma conceção humanista da política, de uma tradição reformista e de uma ambição de progresso que Francisco Sá Carneiro procurou afirmar num país acabado de sair de uma longa ditadura. Uma tradição que não se confunde com a esquerda, mas que também nunca precisou de procurar na radicalização da direita a justificação da sua existência.
Sá Carneiro não fundou um partido para que, décadas depois, a sua herança pudesse ser invocada conforme as conveniências do momento. Fundou-o porque acreditava que Portugal precisava de uma alternativa democrática, reformista, socialmente consciente e politicamente livre. A liberdade de um partido não se mede apenas pela capacidade de chegar ao poder. Mede-se também pela capacidade de saber que poder pretende exercer, com quem o pretende exercer e quais os limites que não está disposto a ultrapassar para o conseguir.
É aqui que a posição de Passos Coelho se torna particularmente difícil de compreender.
Depois de tantos anos de prática política, depois das escolhas, das opções e das consequências de uma governação que deixou marcas profundas na sociedade portuguesa, vir defender que o PSD tinha a obrigação de procurar um entendimento governativo com o Chega é mais do que propor uma estratégia parlamentar. É sugerir uma orientação para o futuro do partido que não pode ser tratada como um simples expediente de aritmética política.
Uma coisa é negociar medidas concretas no Parlamento, onde a democracia exige diálogo e responsabilidade. Outra, bem diferente, é transformar esse diálogo numa obrigação de partilha do poder. Confundir as duas coisas é reduzir a política a uma operação de soma, como se os princípios fossem apenas obstáculos que a calculadora eleitoral se encarregaria de remover.
E se Pedro Passos Coelho considera que essa é a solução de que Portugal precisa, então deve assumir, sem ambiguidades, todas as consequências políticas dessa convicção. Se a sua afinidade com André Ventura e com o projeto do Chega é tão profunda que o leva a considerar indispensável uma coligação governativa, talvez devesse perguntar a si próprio se continua verdadeiramente identificado com o caminho que o PPD-PSD deve percorrer.
Se acredita mais no projeto de André Ventura do que na capacidade do PSD para governar de acordo com os seus próprios princípios, há uma solução de uma clareza elementar: assuma essa proximidade e, se for esse o caso, filie-se no Chega. O que não pode é pretender que o PSD se transforme naquilo que ele próprio não é, nem exigir que a sua história se acomode às preferências políticas de quem, tendo sido seu líder, já cumpriu a sua passagem pelo Governo.
Luís Montenegro é o presidente do PSD e o primeiro-ministro de Portugal. Exerce funções por força da legitimidade democrática que resulta do processo eleitoral e tem o direito e o dever de governar segundo a orientação política que assumiu perante o país. Pode ser criticado. Deve ser escrutinado. Pode e deve ser confrontado com os resultados da sua governação. Mas não tem de governar sob a permanente tutela moral ou política de um antigo primeiro-ministro, nem de ajustar cada decisão à expectativa de quem parece aguardar, na reserva, a oportunidade de regressar.
Passos Coelho já governou Portugal. Conhece as dificuldades do cargo, sabe o preço das decisões e conhece, melhor do que muitos, a distância que separa a crítica da responsabilidade de decidir. Tem todo o direito de intervir no debate público, de apontar erros e de defender reformas. O seu passado confere-lhe experiência, não lhe atribui um direito de propriedade sobre o futuro do PSD.
O partido não pode procurar agradar a gregos e troianos, tentando conciliar a sua identidade social-democrata com todas as correntes que, por razões diferentes, reclamam uma mudança radical do sistema político.
Há, aliás, uma contradição que merece ser assinalada. Quem exige clareza ao atual Governo não pode, ao mesmo tempo, alimentar uma indefinição que mantém o partido suspenso entre a liderança que exerce o poder e a sombra de quem o exerceu. A clareza não pode ser uma exigência dirigida apenas aos outros.
Talvez a vida política, com as suas derrotas, desilusões e expectativas frustradas, torne por vezes as pessoas mais amargas. Talvez o afastamento do poder faça parecer insuficiente aquilo que, visto de fora, continua a ser uma responsabilidade enorme. Mas a experiência deveria ensinar-nos precisamente o contrário: a política não é um ajuste de contas com o presente, nem uma oportunidade de corrigir retrospectivamente o passado à medida das nossas convicções.
Portugal não precisa de salvadores providenciais, de figuras que se julguem chamadas a regressar para resgatar um país que, alegadamente, só elas compreenderam. Precisa de instituições fortes, de partidos com identidade, de líderes responsáveis e de governos capazes de executar políticas consistentes, mesmo quando as circunstâncias são difíceis e os resultados não aparecem à velocidade desejada.
O PSD tem a obrigação de provar que sabe governar, reformar e transformar o país. Cabe-lhe fazê-lo com a sua liderança, com as suas ideias e com a responsabilidade que assumiu perante os portugueses. Se falhar, será julgado democraticamente. Se vencer, deverá fazê-lo pelos seus próprios méritos, e não porque aceitou que outro partido lhe ditasse os termos da sua sobrevivência política.
A Francisco Sá Carneiro não se presta homenagem repetindo o seu nome. Presta-se homenagem preservando a coragem das convicções e a fidelidade aos princípios que justificaram a criação do partido.
E o PPD-PSD precisa, agora mais do que nunca, de se lembrar quem é…
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