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Batalha da Visa: “Isto é uma roda cultural de improviso. É mais do que batalhar, é cultura. Aqui faz-se arte!”

Daniela Iordache*
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03.03.26
fotografia: Jornal do Centro
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 Batalha da Visa: “Isto é uma roda cultural de improviso. É mais do que batalhar, é cultura. Aqui faz-se arte!”

Improviso. É a palavra que surge no pensamento quando se ouve falar da Batalha da Visa. Nada é escrito, nada é ensaiado, nada se repete. À volta, forma-se uma roda apertada de pessoas, algumas de braços cruzados, outras a reagir a cada punchline (deixa). No centro, dois MC’s encaram-se em silêncio, até que a primeira rima sai, de forma espontânea, arrancando gritos e risos do público. Esta é a base da roda de batalhas de rima improvisadas, que se tem vindo a afirmar no cenário cultural de Viseu.

Depois do primeiro verso lançado ao ar, a roda nunca mais volta a ficar em silêncio. As palavras sucedem-se, intensificam-se e o público assume um papel ativo, reagindo a cada rima bem conseguida ou a cada falha evidente. A Batalha da Visa não é apenas um confronto verbal entre MC’s (Master of Ceremonies): é um ponto de encontro, um espaço cultural e um símbolo de resistência artística, numa cidade onde, durante anos, o freestyle esteve praticamente ausente. Mais do que competir, quem entra na roda partilha experiências, aprende e contribui para a construção de uma comunidade unida pela arte de improvisar, pela criatividade e pela liberdade de expressão.

O dia em que Viseu começou a rimar

Criado de forma informal, o projeto nasceu “de uma simples brincadeira”, como explica Gonçalo Magalhães, de 19 anos, atual organizador e representante da roda. “Íamos para Jugueiros, metíamos o beat e rimávamos durante horas, um dia percebemos que não havia nada disto em Viseu e decidimos começar”, explica o jovem. 

O início foi modesto: poucos participantes, nenhuma estrutura definida e um público reduzido. Ainda assim, foi o suficiente para lançar as bases de um movimento que hoje se afirma como uma das maiores rodas do centro do país. Para Gonçalo Magalhães, chamar o evento de “batalhas de rima” não chega, já que “isto é uma roda cultural de improviso, é mais do que batalhar, é cultura, aqui faz-se arte,” refere.

O crescimento da Batalha da Visa começou a tornar-se evidente quando MC’s de fora da cidade começaram a aparecer. A presença de um rapper conhecido do circuito de Coimbra, na quinta edição, trouxe visibilidade e colocou Viseu no mapa do freestyle nacional. Desde então, a roda tem criado ligações com outras cidades, participado em eventos conjuntos e levado uma bandeira simbólica sempre que sai para representar a cidade.

Improviso como regra, não como opção

A boa energia é a característica principal sentida por quem entra na roda pela primeira vez. Lucas Pinto, de 19 anos, MC participante desde a 13.ª edição, descreve a experiência como “amor à primeira vista”. Apaixonado pela cultura hip-hop e influenciado pelas batalhas do Brasil, defende o improviso como pilar essencial deste movimento. “Trazer rimas pensadas é um ataque ao improviso, o que fazemos aqui tem de sair na hora,” confessa o jovem. Outro aspeto que destaca é “a energia que se passa aqui, que não se sente em todas as rodas, aqui, nota-se que há paixão pelo movimento,” afirma.

Entrar na roda implica, para muitos, vencer alguma insegurança inicial. A falta de experiência e o ambiente ainda desconhecido, marcam o primeiro contacto com este projeto. João Covinha, de 22 anos, natural de Viana do Castelo, é um desses exemplos. Quando começou a estudar em Viseu, descobriu a Batalha da Visa, mas relembra. “No início tinha receio porque não conhecia ninguém e nunca tinha batalhado, mas a primeira ida mudou tudo, adorei e agora sou membro da casa,” reconhece o participante.

O preconceito que ainda marca o hip-hop

Apesar da crescente adesão e da visibilidade que o improviso tem vindo a ganhar, a cultura hip-hop continua a ser alvo de preconceitos. Em muitos contextos, estas práticas ainda são associadas a estereótipos marginais e, muitos, acabam ainda por ignorar o valor artístico e o impacto cultural que estes movimentos carregam. João Covinha sustenta que essa ideia não se limita apenas à imagem associada a quem gosta e frequenta batalhas, mas estende-se à tentativa de rebaixar quem o faz “Querem dar a entender que rimar é uma coisa má, que não transmite uma boa imagem, mas as pessoas têm de perceber e entender que rap não são só degenerados,” explica o estudante.

A roda funciona também como espaço de aprendizagem e inclusão. Diogo Silva, de 34 anos, um dos participantes mais recentes e atual campeão da Batalha da Visa, sublinha o contraste entre a agressividade verbal dentro da batalha e o ambiente fora dela. “Dentro da batalha atacamo-nos, é violento, mas fora somos todos amigos, é uma lição até para a sociedade,” refere. Para o participante, errar faz parte do percurso e é a chave para o sucesso. “A minha primeira batalha foi um bocado estranha, dar um passo em falso, acabou por ser importante para me alinhar no caminho,” recorda o campeão.

De roda em roda pelo país

Mais velho do que a maioria, Diogo Silva assume também um papel logístico e comunitário, ajudando a levar outros participantes a batalhas noutras cidades, afirmando que “os MC´s não devem perder tempo a rimar sempre contra os mesmos, sempre na mesma roda e é importante fazer pelo movimento, ter andamento e batalhar com novas pessoas, pelo desafio”. As vitórias simbolizadas pelas “folhinhas” (documento informal que “certifica” o vencedor de cada batalha) são motivação, ainda que “ganhar não quer dizer nada, mas ao mesmo tempo dá aquela força extra de motivação para se ser cada vez melhor”, justifica o participante.

Aberta a todos, a roda afirma-se como um espaço de inclusão, onde qualquer pessoa pode entrar e rimar, independentemente de quem é ou de onde vem. No fim, o que fica não é o silêncio, mas o eco. O círculo desfaz-se, as vozes baixam e o beat desliga-se, mas a roda continua em movimento. De norte a sul do país, as rimas seguem viagem, ligando ruas, cidades e pessoas diferentes e continuam a circular, mantendo viva uma cultura no improviso e na partilha, porque enquanto houver voz, há roda.

Daniela Iordache – aluna do 3.º ano do curso de Comunicação Social – Jornalismo Especializado

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