No telemóvel de Olena Mazakenko a fotografia de familiares a dormir num parque de estacionamento em Kiev é o mote para o apelo que a ucraniana, em Viseu, faz. “Ajudem com colchões como os que se usam no ioga ou pilates para quem tem de dormir nas caves ou nos parques de estacionamento não apanhem frio. Precisamos de seringas, insulina, medicamentos de primeiro socorro”.
Alguns já seguiram no camião que na noite de terça-feira partiu de Viseu com destino a Lviv (cidade na Ucrânia). Na cabine dois ucranianos que deixaram para trás a família e o trabalho para na sua pátria “ajudarem no que é preciso”.
Mykhaylo Machyshyn é um dos condutores e antes de fazer os mais de três mil quilómetros que separam Viseu de Lviv diz à reportagem do Jornal do Centro que está pronto para “ajudar quem está lá dentro”. “Se for preciso pegar em armas pegamos, mas felizmente que já há muitos voluntários dizem-nos da administração militar. Vou com o objetivo de ajudar na forma que conseguir. Ajudar a entregar roupa, vir buscar mais donativos, o que for preciso”, conta. Está com “toda a força”, muita. “Somos um país no mundo e agora o povo vai ver”, reforça.
A preocupação é grande, o receio, de certeza, que também está presente. Mas, a urgência do trabalho é mais forte e não deixa lugar a sentimentos. É preciso rapidamente carregar o camião com roupa, medicamentos, comida colchões e outros bens que são necessários e que são já largas toneladas que os viseenses têm deixado no centro de recolha montado no Instituto Politécnico de Viseu.
Mykhaylo e o colega Sergey vão explicando às dezenas de pessoas que estão a ajudar a carregar os caixotes que depois de partirem de Viseu vão, ainda, parar na Guarda e Covilhã e em dois lugares na Espanha para recolher mais material.
“Vamos conduzir os dois para não perder tempo porque eles estão a precisar disto. Podíamos deixar junto à fronteira, mas depois demora muito tempo até chegar a quem precisa, por isso queremos seguir diretamente para Lviv”, conta.
Na fronteira, já têm alguém à espera para os ajudar, mas a incerteza faz também parte desta jornada. “Não sabemos como vai ser. Se vai ser complicado? Eu acho que vamos chegar bem, mas estamos em estado de guerra e tudo pode acontecer”, desabafa.
E pouco depois das 22h00, com palmas a acompanhar, o camião amarelo, com os dois ucranianos no leme, partiu para “dentro da Ucrânia”. No pára-brisas folhas A4 a avisar que se trata de um veículo de ajuda humanitária.
Mas são muitos mais aqueles que por estes dias têm feito ou ainda vão fazer a mesma viagem, mas para se apresentarem à administração militar. O destino Kiev ou as cidades que estão a ser mais bombardeadas.
Não querem dar o nome, não querem ter um rosto. Dizem que apenas precisam dos braços para pegar em armas e defender o país. Despedem-se dos trabalhos e da família. “Hoje ou amanhã vou com os meus primos. Vamos de carro”, conta, de fugida, um dos jovens que esteve a ajudar a carregar o camião. Não quer dizer mais nada. Mas sabe-se que em vários grupos nas redes sociais estão criadas as logísticas para quem quer partir.
E aos que ficam? A eles cabe-lhes serem a âncora da comunidade. No seu português de quem já está no país há vários anos, mas com a pronúncia de leste, Olena Mazakenko, entre lágrimas, agradece a a ajuda que a comunidade ucraniana tem recebido. “Eu quero agradecer todos os portugueses porque são gente de grande coração”, repete uma e outra vez. O que mais lhe custa? “Saber que somos todos de leste e agora estamos em guerra”.