Algures a meio da tarde desta segunda-feira (5 de abril), sentia-se o coração de Portugal a vestir-se de luto pela morte do presidente da Câmara de Viseu, António Almeida Henriques. Sabíamos que a despedida estava perto. Pouco ou nada se falou até ao início do cortejo fúnebre. As 16h00 já se aproximavam, quando avistámos a urna a repousar num dos carros antigos dos Bombeiros Sapadores de Viseu, completamente envolvida pela bandeira da sua cidade. Em marcha lenta, avançou até ao largo do Hospital de São Teotónio.
Por instantes, o cenário inverteu-se: desta vez, foram os profissionais de saúde a aplaudir o percurso do autarca de Viseu. Assistimos a lágrimas, muitas lágrimas. Umas mais contidas que outras. Todos lhe reconheciam a bondade, a simplicidade. Dali partiu para o centro histórico e foi aplaudido ao longo de todo o percurso.
Ao chegar ao Rossio, flores e bandeiras amparavam a Câmara Municipal. Familiares e amigos, isolados ou em pequenos grupos, alongavam o olhar até à urna. Aplausos a contornar o Jardim das Mães que, na verdade, se estendiam por toda a cidade. Centenas e centenas de pessoas a preencher o vazio que comovia qualquer viseense. Ao som de um simples trompete, silenciou-se a dor durante um minuto para homenagear a obra do presidente de Viseu. Por momentos, as árvores do Rossio rodearam a urna como se de uma clareira de tratasse. Uma luz bonita para uma “homenagem merecida”, ouviu-se segundos depois.
À saída, o soar do trompete levantou mais uma onda de aplausos que, ao olhar de relance, faz-nos reparar nas janelas da Câmara Municipal. Vários foram os colaboradores que acenaram com lenços esbranquiçados ao ‘seu’ presidente. Aos jornalistas, poucas foram as palavras. Na realidade, não havia nada a acrescentar perante a cerimónia. Entre suspiros e abraços de conforto, aplaudiu-se até a urna desaparecer do ângulo de visão e seguir o seu trajeto até ao cemitério de Abraveses.
A vida de António Almeida Henriques foi complexa e a despedida não foi menos. Nem poderia ser, “porque para um bom homem como ele era, tinha que ter uma bonita homenagem”, lançou Maria Branco, viseense que assistiu à paragem na Praça da República para aplaudir o autarca que fez de Viseu, “a melhor cidade para se viver”.
“Tendo em conta as circunstâncias em que estamos a viver da pandemia, foi tudo muito bem pensado e acho que o doutor Almeida Henriques merecia isto”, acrescenta, enquanto relança o olhar para a imensidão de flores que ornamentavam a câmara. Também aproveitou para alertar para o risco de contágio pelo novo coronavírus: “serve para todos nós pensarmos um bocadinho e nos protegermos mais porque ele era um homem novo, apenas 59 anos”.
Resguardado pelo corrimão que recorta o Jardim das Mães, José Vaz comentava com a mulher, Ascendina Vaz, que Almeida Henriques “era uma pessoa muito boa e vai fazer muita falta a Viseu”. Ainda assim, José considera que “há que levantar a moral e seguir em frente” pelo bem da cidade e de todos os viseenses.
Encontrámos também Glória Marques, atrás das grades que delimitavam os acessos ao centro da Praça da República. Com uma certa rouquidão na voz, não deixa de deixar umas palavras pelo presidente: “Era um grande homem. Sempre esperámos a sua recuperação, quando deram a notícia que ele tinha falecido e depois voltaram a negar, nunca pensámos que ia fechar isto assim”, estremeceu.
Mais à frente, conhecemos Ana Pereira, amiga da família de Almeida Henriques. Em simples palavras, disse-nos que “é um dia muito triste para Viseu, não haja dúvida. É um dia que fica marcado e no dia de Páscoa ainda pior”, lamentou, com o olhar a humedecer. “Estou muito comovida”, rematou a viseense.