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91 minutos. Vitória Sport Clube – Benfica. Jogo em Guimarães. 25 de janeiro de 2004. O húngaro Miklos Fehér caiu inanimado no relvado do D. Afonso Henriques. O futebolista morreu subitamente, aos 24 anos, enquanto jogava futebol. Desamparado. Parou, pôs as mãos nos joelhos e caiu de costas no chão. A fazer o que lhe dava felicidade. Antes de cair, sorriu. E é essa imagem que ainda hoje é guardada.
A causa da morte, uma paragem cardiorrespiratória, chocou o país e o mundo do futebol. O uso de um desfibrilhador, aparelho que emite uma carga elétrica moderada no coração, poderia ter sido utilizado caso existisse algum no estádio. Nem um ano depois, foi decretado que todos os recintos desportivos da Primeira Liga de futebol tivessem obrigatoriamente de ter um aparelho que, para muitos, salva vidas. Mas nem todo o futebol ou o desporto é profissional.
Vinte anos depois de um episódio que marcou a história do futebol português, podem os futebolistas do distrito estar descansados numa situação de colapso cardíaco? André Ferreira é fisioterapeuta no Atlético Clube de Travanca. O clube do concelho de Viseu que joga na Primeira Divisão distrital, que equivale à segunda divisão do futebol sénior de Viseu, foi um dos primeiros a decidir investir num desfibrilhador automático externo (DAE). Estávamos em fevereiro de 2022. Estão quase a passar dois anos.
“O clube criou um gabinete médico, com vários equipamentos. E surgiu a ideia de termos um desfibrilhador, para prevenir uma situação que possa vir a ocorrer”, revela o profissional de saúde. E nem só os jogadores ou elementos da equipa técnica estão “a salvo” quando existe um desfibrilhador. Também quem assiste aos jogos pode sentir mais segurança. Um episódio em que um adepto precisou de assistência por se ter sentido mal deu ainda mais força ao clube para ir avante com o objetivo de ter no Estádio do Ribeiro um DAE.
“Em 2021, tivemos uma situação com um adepto. Paramos o jogo para o ir assistir”, recorda. Não foi preciso usar o desfibrilhador. A situação não o exigia. Mas pode acontecer. “Já tínhamos ideia de profissionalizar mais o Travanca. Depois desse episódio, achámos que deveríamos avançar para dar todas as condições de saúde aos nossos atletas e adeptos”, justifica.
Questionado sobre se o que fez o Travanca é prática comum no futebol distrital, André Ferreira não tem dúvidas de que não. São raros os clubes que, não sendo obrigados, têm um DAE. Para atingirem a certificação de três estrelas como clube formador, as instituições desportivas têm de ter um DAE e formação associada a ele. Não é o caso do Travanca: o clube não tem formação, mas decidiu avançar na aquisição do equipamento. Há, de acordo com os números relativos à época 2022/2023, 15 clubes com três ou mais estrelas na certificação enquanto clube formador. Esses têm de ter obrigatoriamente um DAE. Os restantes, como o Travanca, podem ter ou não ter.
Uma situação confirmada ao Jornal do Centro por José Carlos Lopes, presidente da Associação de Futebol de Viseu (AFV).
“Por ser uma situação que não acontece de forma comum, os clubes só vão lembrar-se de ter um desfibrilhador quando ocorrer um episódio. Não há ainda um despertar de consciência”, lamenta André Ferreira. No entanto, antes de os clubes do futebol distrital adquirirem um dispositivo como o DAE, o fisioterapeuta do Travanca defende que é necessário olhar-se para o departamento de saúde com mais “seriedade”. “O primeiro passo é os clubes perceberem que têm de investir na área da saúde. Depois sim, avançar para o desfibrilhador”, afirma.
É também esta a posição de Francisco Santos, médico e jogador da Associação Desportiva de Sátão. Para o profissional de saúde tal como é fundamental haver em cada estádio ou pavilhão um DAE que “albergue mais do que cem pessoas, entre jogadores, equipa técnica ou adeptos”, “era igualmente importante que houvesse formação em suporte básico de vida e que essa formação fosse dada aos treinadores e aos jogadores, que podem ser os primeiros a poder socorrer o colega”.
(Ler mais na edição impressa desta sexta-feira, 2 de fevereiro, do Jornal do Centro)