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Joaquim Alexandre Rodrigues
Apesar de haver cada vez mais gente a lançar livros e cada vez mais vanity-publishing (publicação-de-vaidade), isso não quer dizer que haja mais gente a escrever. É que, convém lembrar, há e sempre houve muito plágio, muitos ghostwriters (escritores-fantasmas) cujo nome não aparece nas capas, a que se soma agora a prosa diligente dos chatbots da IA.
Há dois anos, num Olho de Gato intitulado “Escrita Fantasmática”, contei aqui a história de Liam Pieper que tinha escrito um best-seller falado por toda a gente, que estava nas estantes de todos os seus amigos, mas ele não podia dizer que tinha sido o autor porque Liam é escritor-fantasma. Ele contou ao Guardian que não tinha mãos a medir, estava bem na vida, cheio de encomendas de gente importante “no desporto, nas artes, na política, no TikTok”.
Vamos agora à escrita-fantasma da “inteligência” artificial generativa. A 8 de Fevereiro, num artigo intitulado “The New Fabio Is Claude”, o New York Times apresentou ao mundo a escritora sul-africana “Coral Hart” — pseudónimo, claro.
A sra. “Hart” sempre foi muito produtiva. Antes de ter posto as máquinas a trabalhar para si, ganhava bem a vida como ghostwriter e escritora de romances populares — dez a doze por ano, publicados sob cinco pseudónimos. Agora, com a IA, aumentou dramaticamente a sua produção que já era imensa. No ano passado, “produziu mais de duzentos romances numa variedade de subgéneros, desde romances sombrios da máfia a histórias doces para adolescentes” e publicou-os no Kindle da Amazon, com vinte e um pseudónimos diferentes. Nenhum foi campeão de vendas, mas ao todo “venderam cerca de 50 mil cópias”, rendendo “seis dígitos”, isto é, pelo menos 100 mil dólares, pelo menos 86 mil euros. Nada mau.
A arte da Sra. “Hart” (piadola fracota, eu sei) nunca pára: enquanto conversava por Zoom com o jornal norte-americano, tinha simultaneamente um romance a ser escrito — não por si, mas para si, uma história de “um rancheiro que se apaixona por uma rapariga da cidade que foge do seu passado” feita, de cabo a rabo, em “cerca de 45 minutos”.
Não admira que a sul-africana se tenha tornado “uma evangelista da IA” que saca também o seu dízimo com “coaching para autores”. Já “ensinou mais de 1600 pessoas a produzir um romance com IA”. O que não é fácil. Para dar uma ideia: se se encomendar uma novela erótica a um chatbot ele terá tendência a insubtilizar os preliminares e ir logo aos finalmentes.
A sra. “Hart” tem jeito para o marketing. Numa madrugada do início de Dezembro, “pouco antes das duas da manhã na Cidade do Cabo”, conectou vinte pessoas espalhadas pelo mundo para aprenderem “como escrever cenas de sexo com inteligência artificial”, no apelativo curso “Escreve Sujo Comigo”.
Enfim, já não nos bastava a “publicação-de-vaidade” que se farta de abater árvores inocentes, agora, como me disse o ChatGPT com uma assinalável capacidade autocrítica, temos também a “agricultura intensiva de clichés, com colheitas em 45 minutos”.
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