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Todos os dias, uma vez por dia, Belarmino Almeida, de 67 anos, tem que esticar uma mangueira para poder encher de água o depósito de 500 litros que tem por baixo da casa onde habita. Belarmino Almeida mora em Vilar, uma aldeia na freguesia de Lordosa, no concelho de Viseu, onde não há, nem nunca houve, rede pública de água e saneamento.
Há uns anos, instalou uma bomba para que a água do depósito chegasse às torneiras e fosse usada para beber, cozinhar ou tomar banho. Belarmino Almeida é um dos cerca de 20 habitantes da aldeia que vive sem água da companhia ou saneamento, desde que se lembra. Em Vilar a população é maioritariamente idosa, e são vários os habitantes acima dos 80 anos.
“Água e saneamento é uma coisa indispensável. Sempre ouvi falar que havia muita água para explorar aqui, mas nunca nada aconteceu. Tinha eu uns 15 anos e já se falava que iam por, já lá vão uns 50 anos. Promessas sempre houve muitas, água e saneamento é que nada”, desabafou o popular.
Da casa onde habita até ao furo de onde extrai a água, e que é propriedade da irmã, são cerca de 150 metros. Pelo caminho, é preciso atravessar a mangueira pela via pública, é necessário pedir autorização ao vizinho e alguma ajuda.
Renato, filho de Belarmino Almeida, tem 18 anos e é ele que avisa o pai quando o depósito está cheio. Visivelmente incomodado com o facto de terem que viver assim, Renato desabafa que só há uma coisa que o faz querer muito sair da aldeia onde nasceu: não haver rede pública de água e saneamento.
“É triste, é uma palhaçada, não há palavras. A falta de água e saneamento leva-me a querer sair o mais rápido possível. Aliás, é a única coisa que me faz querer sair daqui”, atira. Na aldeia, crianças e jovens são uns seis ou sete.
Renato lamenta que as aldeias sejam esquecidas e que nada seja feito para reverter isso. “O investimento que é feito é apenas a pensar no turismo, não se pensa em dar qualidade de vida a quem cá está e estamos a meia dúzia de quilómetros da cidade”, lembrou.
Além da falta de água e saneamento, a aldeia tem agora outro problema: a fonte, localizada no largo e que servia como única hipótese para alguns habitantes, secou.
Irene Loureiro é um desses casos. Para beber, fazer o comer e tomar banho usava a fonte, agora vai encher os cântaros e regadores a um chafariz um pouco mais abaixo da casa onde mora, “mas até essa já não tem a mesma força”. O mesmo faz Maria Augusto Cardoso, de 86 anos.
Praticamente todos os populares garantem que a grande prioridade é a água, mas o saneamento é também um problema para quem mora nestas aldeias.
“O saneamento são as fossas, ainda há um tempo fiquei com a fossa cheia e depois não tinha ninguém que viesse limpar. É triste”, lamentou José Marques, de 75anos. Ao lado, atenta e a concordar com a necessidade de resolver todos estes problemas estava Miquelina Aparício, de 83 anos, também ela nascida e criada na aldeia de Vilar.
Mas a aldeia de Vilar não é um caso único. Um pouco mais ao lado, em Pouso Maria, há uma parte da aldeia que também não tem acesso à rede pública de água e saneamento. O mesmo acontece em Sanguinhedo de Maçãs.
Júlio Rolo, habitante de Pouso Maria, conta que deixou de regar os jardins e uma pequena parcela de terra para poupar água. Tem um furo, mas teme que aconteça o mesmo que há dois anos. “Fiquei sem ‘ponta de água’ e temo que possa voltar a acontecer. E é mais importante ter água para beber e tomar banho do que regar”, desabafa, lembrando que apenas as árvores de fruto vão recebendo água.
“No inverno encho uns reservatórios com a água da chuva. Tenho um bidão de 250 litros e um pote de mil litros e quando chove a água vai para esses potes, mas até essa já está a acabar e não tem chovido”, lamenta.
Uma das grandes indignações dos populares das várias aldeias é o facto de toda a rede de água e saneamento estar feita, mas não ter sido ligada às habitações.
Em Vilar, uma parte dos ramais de água e saneamento foram feitos há 10 anos, mas a obra acabou por não ficar completa. “Temos tudo pronto a meia dúzia de metros, só faltava mesmo chegar a casa, está ali na estrada principal”, desabafa Belarmino Almeida.
O popular lembrou ainda que esta situação tem afastado as pessoas da aldeia. “Já não é a primeira vez que vêm cá pessoas ver casas desabitadas e para reconstruir, mas desistem porque não há o básico: água e saneamento”. E em jeito de desabafo atirou: “Isto arrasta-se há tantos anos que os mais velhos morrem e os mais novos desaparecem daqui”.
Junta de Freguesia lamenta situação
José Manuel Pereira, presidente da Junta de Freguesia de Lordosa, lembrou a necessidade de resolver este problema.
“Custa-me viver e saber que tenho pessoas com 60/70/80 anos que estas semanas andam a esticar mangueiras para ter água em casa. Quero acreditar que o executivo vai fazer alguma coisa, porque estamos a falar de uma questão de saúde pública”.
O autarca recorda que este tema já foi levado à Assembleia Municipal de Viseu, por duas vezes, mas que até agora não houve respostas.
“Há uma grande parte dos ramais de saneamento que já foram feitos há 10 anos e que ficaram sem ser utilizados porque a obra não foi concluída. A água e saneamento são coisas muito importantes, não faz sentido, e o investimento não me parece muito avultado. O SMAS [Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Viseu] tem os projetos elaborados, para a rede de água e saneamento, agora é uma questão de ser decidido”, destacou.
José Manuel Pereira lembra ainda o “perigo” dos poços e furos, que acabam por ser a única alternativa para a maioria dos seus fregueses. “Até podem dizer que as pessoas estão servidas com furos e poços, mas isto também é um problema. Essas águas não são controladas e estamos a falar da saúde das pessoas das nossa freguesia”.
O autarca lamentou ainda que a falta de rede pública de água e saneamento em aldeias que ficam a menos de 10 quilómetros do centro da cidade “não dignifica Viseu, a maior cidade da região centro”.
O Jornal do Centro também questionou a Câmara Municipal de Viseu que remeteu esclarecimentos para mais tarde.