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O Meu Avô Diogo

 O Meu Avô Diogo
23.03.26
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 O Meu Avô Diogo

por
Leonel Ferreira

O meu avô Diogo morreu quatro meses antes de eu nascer. Nunca lhe ouvi a voz, nunca lhe senti a mão, nunca vi o seu sorriso dirigido a mim. E, no entanto, sempre esteve presente. Há pessoas assim: mesmo ausentes, atravessam a casa, a família e a memória como uma presença inteira. Conheci-o pelas palavras da minha mãe, pelos gestos repetidos nas histórias de família, por esse retrato invisível que se vai compondo devagar dentro de nós.

Era um homem simples e trabalhador. Um homem de poucas posses, mas de muita firmeza. Daqueles que fizeram da vida um caminho duro, levantado à custa do esforço, do sacrifício e de uma obstinação silenciosa. Viveu num tempo em que nascer pobre era quase uma condenação, e em que pensar pela própria cabeça podia sair caro. Anti-salazarista convicto, não se resignava à miséria, ao medo e à injustiça. Tinha dentro de si essa recusa funda do fascismo, não como pose, mas como consciência.

Não sei se alguma vez teve contacto com o Partido Comunista ou se leu o Avante clandestino; se o fez, guardou esse segredo com ele. Soube mais tarde que alguns companheiros de tertúlia eram comunistas. Era um homem de grande coragem e, quando da passagem de Humberto Delgado por Viseu, lá esteve ele na plateia, apesar dos avisos da minha avó: ainda vais preso. O que sei é que desejava profundamente o fim daquele regime e uma vida diferente para os seus. Morreu sem ter a alegria de ver o 25 de Abril, que tanto desejava.

Talvez por isso desejasse tanto que as suas filhas pudessem ter o que ele nunca teve. Queria para elas uma vida mais aberta, menos amarga, menos apertada pelas necessidades e pelos limites do seu tempo. Queria que lhes não faltasse nada. E não faltou. Mas a minha mãe contava também que, apesar disso, não era homem de grandes afectos com as filhas. Havia nele a dureza de uma geração inteira, de homens ensinados a calar o carinho, a esconder a ternura, a confundir amor com dever cumprido. O sentimento existia, mas nem sempre sabia mostrar-se.

Com o tempo, porém, alguma coisa nele se desarmou. A idade foi-lhe abrindo aquilo que a vida antes lhe tinha fechado. E com as netas tornou-se outro homem, ou talvez mais completamente ele mesmo. Mais doce, mais disponível, mais vencido pelo afecto. Cumpria o papel de avô como quem finalmente se permite uma ternura sem vergonha. E eram elas, as netas, quem mandava. Há nessa imagem uma beleza funda: a de um homem endurecido pelos anos a deixar-se governar, com gosto, pelo amor das crianças.

Mas a memória do meu avô não vive apenas nessa ternura tardia. Vive também numa história que a minha mãe contava, e que diz tanto sobre ele como sobre o tempo em que viveu. Já no fim da vida, quando o juízo começava a fugir-lhe, havia noites em que queria dormir vestido. Fato, gravata, sapatos e chapéu. Vestia-se para dormir porque temia que, se aqueles filhos da puta da PIDE viessem, não o levassem de pijama, como tinham levado alguns amigos seus de tertúlia anti-salazarista. A frase ficou. E ficou porque nela está concentrado um mundo inteiro: o medo antigo, a humilhação nunca esquecida, a violência de um regime que continuava a morar dentro dele, mesmo quando o tempo já lhe baralhava as ideias.

Não era apenas desvario. Era memória entranhada. Era a prova de que o fascismo não roubava só a liberdade aos homens: roubava-lhes também o descanso, a paz, o sono, a velhice. Mesmo no fim, mesmo já longe do perigo real, o medo continuava a bater à porta. E ele queria estar pronto. Queria conservar até nessa eventualidade a sua dignidade. Não sair de casa descomposto, vulnerável, apanhado de surpresa. Há qualquer coisa de profundamente comovente e profundamente política nessa imagem de um homem velho que insiste em dormir vestido para não ser apanhado desprevenido pelos fantasmas da repressão.

O meu avô Diogo foi, assim, um homem inteiro nas suas contradições: duro e meigo, contido e profundamente amoroso, simples e politicamente consciente. Não teve uma vida de facilidades, nem deixou fortuna. Deixou outra coisa, mais importante: um exemplo de trabalho, de seriedade, de resistência e de esperança. Deixou a marca de quem quis, acima de tudo, que os seus tivessem uma vida melhor do que a sua.

E talvez essa memória nos fale também aos dias de hoje. Porque há tempos que julgamos enterrados, mas cujos ecos continuam a surgir, pela voz de saudosistas e reaccionários que procuram branquear o fascismo, apagar os seus crimes e reabilitar aquilo que tantos recusaram e combateram. Recordar o meu avô Diogo é também recusar esse esquecimento. É lembrar que não podemos ser apanhados desprevenidos perante os que querem fazer regressar, com novas palavras e novas máscaras, um tempo de medo, arbitrariedade e silêncio que recusamos voltar a viver.

 O Meu Avô Diogo

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