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Marta Costa
Uma das fragilidades menos discutidas do modelo económico territorial português não reside apenas na dimensão demográfica, mas na forma como o valor e a decisão se distribuem no espaço. Nos territórios fora das áreas metropolitanas, a dificuldade em reter funções estratégicas e consolidar centros de decisão tem implicações que vão além da economia imediata. Essa limitação projeta-se numa dimensão decisiva: a estrutura e a retenção do capital humano.
O debate sobre o Interior permanece excessivamente ancorado em indicadores demográficos agregados — envelhecimento, baixa densidade, perda populacional. São dados relevantes, mas não esgotam o problema. A evidência acumulada sobre dinâmicas territoriais mostra que os fluxos populacionais são muitas vezes consequência de estruturas económicas e institucionais, e não a sua causa. A questão não é apenas quantas pessoas vivem no território, mas que perfis permanecem, que níveis de qualificação se consolidam e que percursos são possíveis ao longo do tempo.
O fenómeno que importa compreender é seletivo. O Interior tende a perder precisamente os indivíduos com maior mobilidade, qualificação e ambição de progressão profissional. Jovens com formação superior, quadros técnicos intermédios, perfis com capacidade de liderança deslocam-se para contextos onde encontram maior densidade organizacional, diversidade de oportunidades e exposição estratégica. Não procuram apenas emprego; procuram escala, complexidade e possibilidade de decisão.
Não se trata de ausência de emprego imediato. Viseu demonstra isso com clareza. A cidade dispõe de tecido empresarial ativo, instituições de ensino superior, serviços estruturantes e qualidade de vida reconhecida. Forma talento. Atrai estudantes. Gera competências. O ponto crítico é outro: consegue transformar essa capacidade formativa em retenção qualificada? Oferece uma trajetória suficientemente longa, diversificada e exigente para quem pretende construir uma carreira complexa sem necessidade de deslocação geográfica?
Grande parte da economia regional continua fortemente posicionada em funções produtivas e executivas. As funções de comando — definição de investimento, inovação estruturante, expansão internacional, decisão corporativa — permanecem maioritariamente concentradas nas áreas metropolitanas, num país estruturalmente centralizado. Esta arquitetura cria um desfasamento entre qualificação e progressão. Forma-se capital humano no território, mas a fase de consolidação estratégica das carreiras tende a ocorrer fora dele.
A literatura internacional sobre cidades médias aponta para um fator determinante: densidade estratégica. Não basta existir atividade económica; é necessário um ecossistema suficientemente espesso para permitir mobilidade interna, progressão horizontal e vertical e acumulação de funções de decisão. Em contextos como a Alemanha ou os Países Baixos, cidades intermédias consolidaram sedes empresariais com autonomia efetiva, clusters tecnológicos regionais e forte articulação entre universidades e indústria. Não competem com as capitais nacionais, mas estruturam sistemas territoriais complementares com massa crítica suficiente para reter talento e gerar liderança local.
A diferença reside, portanto, menos na dimensão demográfica e mais na localização do poder económico e na capacidade de decidir a partir do território. Onde a decisão se concentra, a trajetória alonga-se. Onde a decisão é escassa, a progressão encurta-se.
Quando o talento qualificado parte, o impacto é cumulativo. A capacidade de inovação enfraquece, a renovação das lideranças empresariais torna-se mais lenta e a ambição coletiva ajusta-se a um patamar defensivo. O território pode manter estabilidade — e até crescimento moderado — mas terá dificuldade em alterar estruturalmente a sua posição relativa.
É neste ponto que a discussão deixa de ser apenas demográfica e se torna estrutural. O problema do Interior não é apenas a diminuição do número de habitantes; é a limitação das trajetórias disponíveis para os perfis com maior potencial transformador. Não é apenas uma questão de retenção de jovens. É uma questão de retenção de ambição.
Se Viseu — e outras cidades médias do Interior — pretendem afirmar-se como polos estruturantes e não apenas como espaços de qualidade de vida, terão de colocar no centro da agenda a densidade estratégica do seu tecido económico. Atrair investimento é importante. Mas atrair decisão é determinante. Formar talento é essencial. Mas estruturar ecossistemas que permitam a esse talento evoluir até à liderança é decisivo.
Sem essa mudança, a saída continuará silenciosa e racional — não como crítica ao território, mas como resposta lógica a um sistema de oportunidades assimétrico.
O verdadeiro desafio não é demográfico. É estrutural. O Interior não precisa apenas de mais habitantes; precisa de mais poder de decisão e de mais funções estratégicas consolidadas no seu território.
E essa não é uma inevitabilidade histórica. É uma escolha coletiva.
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