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São várias as missões de paz onde os militares do Regimento de Infantaria 14 de Viseu estiveram presentes ao longo dos anos. Além da participação em conflitos históricos como a Batalha do Buçaco em 1811, aquando das invasões francesas, ou a participação na Primeira Grande Guerra, os militares do RI14 têm participado desde 2001 em diversas missões ao abrigo da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, ou NATO, a sua sigla em inglês e como é mais vulgarmente conhecida).
As missões de paz ao abrigo das duas organizações mundiais já requisitaram os serviços do RI14 tanto em preparação de militares como no envio dos mesmos a países como Timor-Leste em 2001, ao Kosovo em 2005 e 2007, e nos últimos anos ao Afeganistão e atualmente à República Centro-Africana. O Tenente-Coronel Pedro Costa, Relações-Públicas do Regimento de Infantaria 14, dá conta de 4 militares do RI14 que se encontram em missão de paz na República Centro-Africana e de mais 5 militares que estão na fase aprontamento, para render os colegas em junho deste ano.
Nos dias 14 e 25 de janeiro de 2021 regressaram a Portugal, oriundos do Afeganistão, um total de 168 militares provenientes de várias unidades da Brigada de Intervenção do Exército e que pertenciam à 5ª Força Nacional Destacada. A missão destes militares, que tinham na sua composição membros do RI14, era assegurar a segurança e o controlo do Aeroporto de Cabul, a capital do Afeganistão.
Os preparativos para a missão, contudo, iniciaram-se ainda no ano de 2019. A 4 de dezembro desse ano, os militares do RI14, sob a chefia do Tenente de Infantaria João Souto, Comandante de Pelotão, deslocaram-se para o Regimento de Infantaria 13, em Vila Real. A permanência na cidade transmontana durou até 21 de julho de 2020, numa fase de missão conhecida como “aprontamento”. Esta fase tem como objetivo promover o entrosamento entre militares dos diferentes pontos do país que participariam na missão, assim como formar os militares segundo as condições específicas do objetivo da missão. Para tal, os militares sob responsabilidades de liderança, como é o caso do Tenente João Souto, deslocaram-se ainda durante a fase de aprontamento a Cabul de modo a realizar o reconhecimento do local e transmitir deste modo os dados mais específicos possíveis aos seus subalternos para o desempenho da missão. “Numa primeira fase, o objetivo foi tornar os militares do RI14, que ocupam em Viseu cargos distintos, numa equipa coesa em que cada um desempenha na perfeição as suas funções”, explica o Tenente João Souto. Na restante maioria do aprontamento, a formação consistiu “em exercícios em áreas edificadas que realizámos em Mafra, e após o nosso regresso do reconhecimento, replicámos o cenário de Cabul no nosso treino para que os soldados, caso enfrentassem um teatro de operações hostil, estivessem habilitados a realizar plenamente as suas funções”.
No dia 21 de julho do ano passado, a 5ª Força Nacional Destacada partiu com destino a Cabul, onde permaneceriam até 14 e 25 de janeiro de 2021, duas datas de chegada a Portugal pela necessidade de se realizar um regresso com duas levas da Força Nacional Destacada. A missão só começaria no dia 2 de agosto, pelo que as primeiras semanas permitiram aos militares um entrosamento nas rotinas ocupadas pelos militares que iriam substituir. Os soldados tiveram, após o regresso do Afeganistão, de permanecer nos seus domicílios ou no RI13, durante um período de 2 semanas, para cumprir as normas de quarentena da Covid-19.
O pelotão do RI14 ficou a cargo da segurança dos acessos à linha de voo e da placa de estacionamento número 8 do Aeroporto de Cabul. A experiência desta missão foi, segundo o Tenente João Souto, “bastante positiva, não tendo havido nenhum problema de maior que não a falta, em situações do dia a dia, de um documento de alguma pessoa, o que obrigava a um tempo de espera dessa mesma pessoa até que todos os contactos com as delegações e instituições tivessem sido realizados de modo a assegurar a validade de toda a documentação”. A preocupação nos últimos anos com a segurança deste aeroporto levou a uma aposta da NATO no reforço de militares no controlo do estabelecimento aéreo, pelo que atualmente o local não presencia conflitos de maior escala. Os militares do RI14 não entraram em nenhum combate durante a sua estadia em Cabul.
A pandemia da Covid-19 limitou o contacto do corpo militar com a população afegã, o que levou uma menor experiência da 5ª Força Nacional Destacada no convívio com a população civil. O convívio, além da população local, era realizado entre militares de países diferentes que integraram esta missão da NATO. “Tínhamos que estar muitos resguardados nas nossas forças, mas os convívios normais, quer fossem no refeitório com outros militares, ou nas lojas nos dias de folga, ocorreram de um modo positivo, e o povo português é sempre bem-vindo lá fora”, assume o Comandante de Pelotão João Souto, que admite não ter ocorrido a criação de laços de proximidade como outras forças destacadas para Cabul puderam presenciar em períodos anteriores à pandemia.
Natal serviu para reduzir as saudades de casa
A permanência num local a milhares de quilómetros de casa no desempenho de uma missão de risco como foi o assegurar do funcionamento regular do Aeroporto de Cabul gerou algumas situações de stress entre os militares, eventos normais para João Souto e que foram ultrapassados pela camaradagem entre os soldados e os contactos telefónicos com os familiares. “Somos todos humanos, e as pessoas ao longo do tempo vão sentindo o stress cada um à sua maneira, mas temos uma força que permaneceu junta num núcleo muito forte e que apoiou cada militar nas situações das suas vidas pessoais, e mesmo nós, os comandantes, estivemos sempre em contacto com as praças no sentido de perceber se estava tudo bem ou não”, explica João Souto, Comandante do Pelotão do RI14. A época natalícia foi uma altura em que as saudades apertaram mais, mas que foram mitigadas pelo convívio festivo entre os militares. Com a pandemia, os ajuntamentos na quadra natalícia foram reduzidos, mas permitiram ainda assim o cumprir de algumas tradições como a ceia de Natal. “Com a questão da Covid-19 foi mais complicado, mas conseguimos fazer algumas ceias de Natal por levas de grupos muito pequenos e bastante separados, que deu para todos terem pelo menos uma ceia de Natal com alguns alimentos que levámos de Portugal como o bacalhau, a batata cozida e o azeite”, relata João Souto. A diferença horária de quatro horas e meia entre Portugal e o Afeganistão permitiu o recolher noturno mais tardio para os militares destacados, de modo que pudessem realizar videochamadas com as suas famílias e reduzir as saudades de casa.
Igualdade de Género foi verificada no cumprimento da missão no Afeganistão
Num país como o Afeganistão onde apenas metade dos crimes contra as mulheres são punidos, segundo um relatório da ONU, e onde o casamento infantil feminino é tolerado, a igualdade de género está longe de ser alcançada na sociedade. As quatro militares do RI14, contudo, não sentiram que a diferença de género tivesse colocado em causa a sua autoridade enquanto força militar, assegura o Tenente João Souto. “Falámos com as nossas militares logo na fase de preparação relativamente a essa preocupação, porque efetivamente nós quando vamos em missão para um país devemos tentar entender um pouco do modo de vida das populações”, explica João Souto. O Comandante de Pelotão considera que “nunca sentimos que houvesse um desrespeito para com as militares com base no seu género, e entre os próprios militares essa diferença não existe, pois tanto os treinos como a convivência profissional e o respeito que as Forças Armadas promovem entre os seus membros anula esse tipo de barreiras de género”.
A 6ª Força Nacional Destacada, constituída por 170 militares, partiu, entretanto, para Cabul nos dias 14 e 24 de janeiro deste ano, para substituir os militares que em conjunto com o pelotão de Viseu regressaram a casa.