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Vítor Santos
A gestão do tempo de jogo, as não convocações e a divisão entre equipas A e B continuam a ser das maiores fontes de conflito no desporto de formação. Pais, treinadores e dirigentes veem-se frequentemente envolvidos em tensões que, demasiadas vezes, acontecem na presença dos jovens atletas. E isso nunca deveria acontecer.
Sabemos que muitos pais não estão preparados para serem pais de atletas. A entrada de uma criança ou jovem no desporto altera rotinas familiares, condiciona fins de semana e impõe uma agenda exigente. Quando a expectativa criada não encontra correspondência no tempo de jogo ou na convocatória, surgem a frustração, a indignação e, muitas vezes, o conflito. Um conflito para o qual ninguém foi verdadeiramente educado. Nem pais, nem clubes.
Sabemos também que muitos treinadores, árbitros e dirigentes estão em processo de formação e aprendizagem. Mas estamos a falar de desporto de iniciação. No máximo, de formação. Não de alta competição, não de carreiras profissionais, não de resultados que justifiquem comportamentos extremos.
A maioria dos conflitos entre pais e treinadores diz respeito precisamente ao tempo de jogo ou à não convocação. Esta é, talvez, uma das situações mais difíceis de gerir para qualquer treinador. Curiosamente, desculpa-se quase tudo ao treinador do clube sénior de Lisboa ou do Porto. Mas quando é com o meu filho de 9 anos, é “o fim do mundo”.
Segue-se o guião conhecido: telefonemas ao presidente, ao coordenador, ao dirigente, ao presidente da câmara… confrontos diretos com o treinador, ameaças verbais e, em alguns casos, agressões físicas. E assim se perde a autoridade do treinador e do clube. Ao mesmo tempo, passa‑se a mensagem perigosa de que a agressão é uma resposta aceitável, se não mesmo recomendável, para situações de desagrado: “filho, quando algo não te agrada, parte para a agressão.” A educação que se transmite é esta. E depois estranhamos a violência.
Foi assim que, durante anos, se retirou gradualmente autoridade aos professores nas escolas: pelo confronto constante, pela desvalorização pública, pela ideia de que o adulto responsável está sempre errado e os pais sempre certos. Infalíveis. Mesmo quando erram.
Este é, de longe, o tema sobre o qual mais tenho recebido mensagens de pais, treinadores e dirigentes. Não existe receita mágica. Mas existe algo que precisa de ser dito com clareza: assim, não estamos a formar. Assim, estamos a falhar.
No desporto, as crianças e os jovens estão entregues a adultos responsáveis e devem aprender a lidar com a frustração, a euforia, a espera e o mérito. Devem aprender a distinguir o que é jogo do que é agradar à bancada. O que é incentivo do que é incitação à agressão e à violência.
Passar a culpa para os outros é sempre o caminho mais fácil. “Eu sei tudo.” “Aquele é burro.” “Eu pago para jogares.” Não. Paga-se para praticar desporto, não para garantir minutos de jogo. O dinheiro não compra tudo, muito menos carácter, crescimento e maturidade.
O jogo é a parte visível do processo e aquela a que os pais naturalmente dão maior importância. No entanto, são os treinos que assumem um papel central na formação: são planeados para o grupo, para a evolução individual e para a dinâmica coletiva. É aí que se constrói o jogador e, mais importante ainda, a pessoa.
Os pais devem incentivar os filhos à dedicação, à superação e ao compromisso. Devem conhecer o projeto do clube, os seus valores e os recursos humanos e físicos que oferece, para poderem fazer escolhas conscientes.
Como exigir a um treinador que eduque para o mérito, o respeito e o espírito desportivo, se são os próprios pais os primeiros a desvalorizar esses princípios? Como bem resume Hernâni Carvalho: “Estes pais deixam de ser buscadores de sonhos para serem assassinos de sonhos.”
Comunicar com respeito é sempre a melhor solução. É assim que se constroem contextos saudáveis, atletas equilibrados e, quem sabe, pais de atletas verdadeiramente cinco estrelas.
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