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Doença de refluxo gastroesofágico: quando tratar bem faz a diferença

 Os barcos de Bezos, Catarina e Jerónimo — o abanão das legislativas
07.01.26
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 Doença de refluxo gastroesofágico: quando tratar bem faz a diferença

por
André Tojal, médico especialista em Cirurgia Geral no Hospital CUF Viseu

A azia é um dos sintomas digestivos mais comuns e desvalorizados. Muitos encaram o ardor no peito ou a regurgitação ácida como algo normal, resolvido com medicação ocasional. No entanto, quando estes sintomas são frequentes, podemos estar perante doença de refluxo gastroesofágico (DRGE), uma patologia crónica que afeta cerca de 20% dos adultos em países desenvolvidos e que merece atenção médica adequada.

A DRGE resulta do refluxo repetido do conteúdo ácido do estômago para o esófago, comprometendo a qualidade de vida e, em casos graves, provocando inflamação (esofagite), estreitamentos e aumentando o risco de cancro do esófago. Além dos sintomas típicos – azia e regurgitação –, pode causar tosse persistente, rouquidão, dor torácica ou sensação de “nó” na garganta (sintomas atípicos), o que dificulta o diagnóstico precoce.

O tratamento começa sempre por mudanças no estilo de vida: perda de peso, evitar refeições abundantes ou tardias, evitar o consumo de álcool, tabaco, café e alimentos gordurosos e adotar bons hábitos de sono, incluindo elevação da cabeceira da cama. Quando necessário, recorre-se a medicamentos que reduzem a acidez gástrica – os inibidores da bomba de protões (omeprazol, pantoprazol, esomeprazol, lanzoprazol, rabeprazol) – eficazes no controlo dos sintomas e cicatrização das lesões. Contudo, controlar os sintomas não significa que a doença esteja resolvida.

O cirurgião geral desempenha aqui um papel-chave. A cirurgia deve ser ponderada quando o tratamento clínico não é suficiente, existe esofagite grave ou hérnia de hiato volumosa, surgem efeitos colaterais dos fármacos ou quando o doente prefere evitar o uso prolongado destes. Além de tratar complicações, o cirurgião participa na avaliação global do doente, na exclusão de diagnósticos alternativos e na escolha da estratégia terapêutica mais adequada.

Antes da cirurgia, é essencial confirmar o diagnóstico com exames como endoscopia digestiva alta, pHmetria (mede o nível de acidez no esófago) e manometria esofágica (avalia a função/motilidade do esófago), garantindo que os sintomas são, de facto, causados pelo refluxo e definindo o tipo de intervenção.

A cirurgia antirrefluxo, indicada apenas em casos selecionados, oferece uma solução segura e eficaz. A técnica mais utilizada é a fundoplicatura laparoscópica, que restaura a barreira entre estômago e esófago e corrige a hérnia de hiato quando presente. Por ser minimamente invasiva, permite recuperação rápida, baixo risco de complicações e, em muitos casos, suspensão da medicação crónica. O seguimento pós-operatório e o apoio contínuo ao doente são partes fundamentais deste processo.

O refluxo não deve ser banalizado nem tratado de forma automática. Azia frequente não é normal. Uma abordagem individualizada, com envolvimento do médico assistente, gastroenterologista e cirurgião geral, é essencial para controlar a doença, prevenir complicações e devolver conforto e qualidade de vida ao doente.

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