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Abriu esta semana, na Biblioteca Municipal de Mangualde, a exposição “Este livro de reles estofo” — A censura à literatura durante o Estado Novo, organizada pelo Arquivo Ephemera, com dezenas de relatórios da Censura a proibirem livros ou a autorizarem-nos (com ou sem cortes). São documentos preciosos: evidências do afã administrativo do controlo editorial durante o salazarismo e o marcelismo — os livros que o povo podia ler, os que o povo não podia ler, tudo carimbado, rubricado e deixado à consideração superior.
Algumas notas:
— ao contrário do que acontecia com os jornais, não havia censura prévia de livros; estes só eram avaliados depois de postos à venda, circunstância que, como é visível em vários despachos, irritava os burocratas;
— aqueles funcionários (muitos deles militares) não eram uns analfabrutos: sabiam comparar obras, distinguir correntes, reconhecer influências; simplesmente exerciam outra profissão — não eram leitores, eram porteiros da leitura;
— os censores tinham os sensores afinados para o risco: eram agentes sanitários do regime, não críticos literários;
— aquelas criaturas proibiam os livros por quatro razões principais:
(i) morais-sexuais (“luxúria”, “promiscuidade infrene”, “homossexuais”, “pornográficos”),
(ii) políticas (“tendências filo-comunistas”, “ideias subversivas”, “anti-militarismo”),
(iii) religiosas (“visão desprimorosa e desrespeitosa do Natal de Cristo”, “a ‘fala’ de Jesus é (…) ofensiva e definidora do espírito ‘achincalhante’ da obra”),
(iv) institucionais (“não está em condições” por “constituir um desafio aos Serviços de Censura”);
— muitas vezes, o pide bom do início do despacho (“como obra literária não merece reparo”, “perfeita textura literária”, “livro muito bem escrito”) metamorfoseava-se em pide mau (“mandar apreender imediatamente”, “proibido por grave inconveniência política”).
Em suma, esta burocracia — que se via a si própria como guardiã da moral, da política, da religião e, até, da língua e da literatura — vivia entrincheirada num bunker mental, convencida de que uma metáfora, uma cena de cama ou um poema sobre a guerra podiam desencadear o colapso da civilização portuguesa.
Usava um vocabulário peculiar (“amoral”, “anti-social”, “inconveniente”, “desrespeitoso”, “pernicioso”, “achincalhante”, “dissolvente”), passava um ror de horas a ler boa literatura (Aquilino, Pacheco, Brecht, Sena, Cardoso Pires, Fiama, Natália, …) e produzia crítica literária (má crítica literária, crítica policial disfarçada de crítica literária) que hoje se lê quase como um género involuntário: a vingança da literatura sobre a polícia.
Esta exposição, visitável até ao fim do mês, é um bom pretexto para uma visita a Mangualde, com passagem pelos pastéis de feijão do Patronato que, a bem da Nação, não foram, nem vão ser, apreendidos.
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Joaquim Alexandre Rodrigues
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Henrique Rodrigues Santiago
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Joaquim Alexandre Rodrigues
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Fernando Viana - Presidente do CNIACC