No coração verde do concelho de Viseu, Côta é uma aldeia onde…
Nasceu, em Cinfães, a Quinta da Maria, um projeto turístico com alma…
No coração do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, há…
É por terras de Espanha que Tiago Ferreira pedala por estes dias. O ciclista natural de Viseu percorre o Andalucía Bike Race. A prova de BTT é uma das mais categorizadas da União Ciclista Internacional (UCI) e junta mais de 600 ciclistas. “Nesta prova de seis dias corremos em duplas. Não é o que eu mais gosto porque não depende só de mim, mas também de um colega. Há muitos fatores. Não estamos só dependentes da forma, dos treinos, dos planos de alimentação. A própria modalidade tem fatores que nos deixam limitados”, explica o ciclista.
É entre os maiores que há já vários anos Tiago Ferreira está. E tudo começou em 2007. São já 17 anos a pedalar que já lhe valeram um título mundial e dois títulos europeus de BTT. Em 2013 arrancou as primeiras vitórias com a Volta à Catalunha e o Campeonato Nacional de Cross Country Marathon. Apesar de titulado nos palcos mais importantes do BTT, Tiago Ferreira confessa ao Jornal do Centro que não é esse o maior legado que quer deixar na modalidade. “As pessoas conhecem-me por ser campeão do mundo e da Europa. Mas acho que mais do que isso, reconhecem o que veem do dia a dia. A dedicação”, vinca.
O ciclista viseense assume que não se sente referência para quem entra agora na modalidade, mas tem uma certeza. “Vou ser muito sincero. Sentir, não me sinto. Mas sei que sou uma referência”, avança. Pelos títulos e pelos anos que já dedica ao ciclismo, Tiago Ferreira foi eleito um dos embaixadores para a cidade europeia do desporto. O estatuto é “vestido” por Viseu durante todo o ano de 2024. “É um orgulho tremendo ter sido escolhido”, revela. No ciclismo, Tiago Ferreira é acompanhado por Tiago Ladeira entre os rostos de divulgação de Viseu Cidade Europeia do Desporto.
Projeto lançado é a novidade mais recente
2024 foi ano de uma mudança de fundo na carreira do ciclista viseense. “Cheguei à conclusão de que talvez fosse a altura certa para arrancar com um projeto individual. As coisas desenrolaram-se nesse sentido e aproveitei a oportunidade”, afirma. Nasceu então a “Vouzela BH” TF Racing Team. “Trata-se de uma estrutura de BTT. Passei vários anos a correr numa equipa estrangeira. É um projeto de uma equipa de BTT. Estabeleço o meu calendário, as minhas corridas e tenho todas as condições para fazer o que fazia até agora”, sustenta. Nesta primeira fase, a equipa não está a formar ciclistas. Mas é algo que não está fora de órbita. “É algo que já se vem a falar e a pensar com as pessoas que estão comigo. Talvez num futuro próximo”, acrescenta.
Do legado desportivo consta o título de campeão do mundo em 2016 e vice-campeão do mundo em 2017 e 2020. É campeão da Europa em 2017 e 2019. Tem o recorde mundial de subida acumulada em 24 horas no ano de 2020. São os marcos que destaca.
Uma queda que quase deitou tudo a perder
Numa carreira pautada por vitórias, foi em 2015 que Tiago Ferreira viveu o momento mais delicado. “O episódio mais complicado que colocou alguma coisa em dúvida foi o campeonato da Europa em 2015. Tive uma queda em que fraturei a coluna. Vivi um tempo muito complicado. A lesão foi séria e obrigou a uma recuperação difícil. E nessa altura coloquei em dúvida se vale a pena arriscar neste desporto”, confessa. A queda foi de tal forma grave que Tiago Ferreira ficou inconsciente e só acordou no hospital.
“Principalmente depois dessa lesão, precisei do apoio da família. Fiquei totalmente dependente da minha namorada. Fiquei completamente parado numa cama, durante algum tempo até ser operado. E depois a recuperação também foi bastante complicada. Passei um período difícil em que não me conseguia mexer”, revela. Essa foi a lesão mais grave. “Tive outra em que fraturei a clavícula num campeonato do mundo da Austrália”, recorda o ciclista.
A gratidão pela família que tem e o amor ao filho de sete anos
Enquanto somava sucessos profissionais, Tiago Ferreira constituiu família e é hoje pai de um menino de 7 anos. “A minha motivação em relação ao meu filho é ele ver o exemplo diário do que é a disciplina da alimentação, do treino, acordar cedo. E quero sempre ter tempo para estar com ele, levá-lo às atividades. Para mim é muito mais importante ele perceber o meu papel de pai do que ter a noção do que já fiz ou já conquistei. É importante para mim que o meu filho entenda que tudo se conquista com esforço”, diz.
Mas, afinal, quem é a pessoa por detrás do atleta? Hoje com 35 anos, Tiago Ferreira assume que há valores dos quais não abdica nas relações pessoais ou profissionais. “Gosto de lealdade, sinceridade, trabalho e dedicação”, ilustra. “Para mim, as pessoas têm de ser sinceras e leais”, refere.
Assumindo ter a noção de que passa muitas horas fora de Portugal, na hora de falar sobre a família, Tiago Ferreira desfaz-se em elogios e, num tom de gratidão, afirma que é “muito bom ter esta família”. “Faz-me mesmo muito bem”, reconhece. “Passo muito tempo fora de Portugal em provas. Eu já conheci a minha namorada tendo esta profissão. Tento aproveitar ao máximo o tempo e cumprir com todas as minhas obrigações”, frisa. Por semana, o ciclista de Viseu refere treinar entre 18 e 30 horas por semana. A agenda tem que ser retocada. “Requer alguma organização, sim”, reconhece.
A infância feita de liberdade e de passeios de bicicleta com os amigos
Depois de investir várias horas por semana na modalidade para se apresentar na melhor forma nas provas, Tiago Ferreira diz ter a noção de que há questões que não se controlam e que podem ser decisivas para a vitória não aparecer. “Há situações de irritação”, confessa. “A minha postura em relação ao fracasso foi mudando. Houve alturas em que lidei melhor, outras menos bem. Tive momentos em que não soube lidar com isso. Já são muitos anos. Já passei por muitas coisas boas, outras menos boas. Felizmente hoje em dia já vejo as coisas sob outra perspetiva e consigo lidar melhor do que há um ou dois anos”, sublinha.
Nas memórias de infância guarda os passeios de bicicleta com os amigos. Mas a bola de futebol também fazia parte dos convívios. “Quando era mais jovem pratiquei atletismo, futebol e também ia andando de bicicleta com os meus amigos, sobretudo ao domingo. Ganhei gosto ao que bicicleta me dava. A liberdade, a adrenalina de conhecer coisas novas. Ganhar velocidade nos montes. Comecei a participar nos passeios que não eram provas federadas de BTT”, recorda.
Modalidade está em boas mãos, confia Tiago Ferreira
“Se me dissessem há dez anos que ia conquistar o que ganhei, não ia acreditar. Porque nada é adquirido. Há sempre que coisas que acontecem. Ainda para mais neste desporto. Estamos dependentes de mil e uma coisas. Não basta treinares, cumprires treino, alimentares-te. Há coisas que tu não controlas”, explica Tiago Ferreira.
Se no passado não conseguia antever o que estava para chegar, no presente continua a não perspetivar o futuro. “Atualmente penso muito no presente e pouco no futuro. O meu futuro é a prova que estou a fazer agora. Depois, descansar. No próximo fim de semana estarei a competir novamente. Prova a prova”, justifica o ciclista viseense.
Consciente de que as atenções mediáticas do ciclismo nunca serão idênticas às do futebol, Tiago Ferreira confessa que “é um não assunto”. “Continua a ser o que mais gera receita, mais entusiasmo. Por isso é normal investir-se mais no futebol. É o que é”, atira.
Sobre o ciclismo, Tiago Ferreira vê uma modalidade que “continua em crescimento”. “Há muitas pessoas a trabalhar nesse sentido. As associações, clubes e federações estão a trabalhar para atrair mais jovens e dar-lhes mais condições. Há que apoiar essas instituições para poderem fazer mais pela modalidade. É preciso, sobretudo, investimento e divulgação”, indica. Por agora, Tiago Ferreira continua a pedalar em Espanha num ano de 2024 que promete novas metas para atravessar.