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A prova rainha 2021/2022 da modalidade onde, rainhas, são as mulheres, teve início neste fim de semana, com os jogos da primeira eliminatória. Em Viseu, mora um clube que aposta, pela quarta época seguida, no futsal feminino e que, na temporada passada, foi campeão distrital. Pelo terceiro ano seguido, a equipa sénior de futsal feminino do Viseu 2001 entra em cena na primeira eliminatória da Taça de Portugal, competição em que o registo mais longínquo que teve foi em 2020/2021, quando alcançou a terceira ronda.
Na primeira eliminatória desta época, as beirãs encontraram as leirienses do Centro Cultural e Recreativo Dom Fuas, que jogam na primeira divisão da distrital de Leiria.
Nas bancadas praticamente despidas do Pavilhão Cidade de Viseu, onde ecoavam, maioritariamente, os sons vindos da quadra, assistia ao jogo Nilton Fontes, guarda redes atualmente ao serviço do ABC Nelas, mas que representou o Viseu 2001 durante 10 anos, entre 2010 e 2020. No intervalo de um jogo que veio ver, por força de ter assistido, cerca de uma hora antes, à partida da equipa sénior, frente ao Sporting, o jogador natural de São Tomé e Príncipe falou acerca do futsal feminino, que a seu ver ainda está mergulhado numa realidade muito amadora, que necessita de mais iniciativas que elevem os padrões competitivos: “O futsal feminino em Portugal podia estar mais evoluído, mas acho que ainda há muito amadorismo, tanto dos clubes, como das pessoas ligadas ao futsal masculino. Em Portugal, só Benfica, Sporting e talvez o Nun’Alvares apostam para um dia poderem chegar ao profissionalismo. Muitas raparigas até jogam na sua terra, mas depois quando saem para estudar, por exemplo, acabam por perder a ligação. Têm de continuar a haver iniciativas da própria federação”.
Sobre o futsal feminino do Viseu 2001, Nilton Fontes diz acreditar que um dia pode ser possível sonhar com a presença nas divisões profissionais, mas que o caminho será bastante longo e complicado: “Acredito que sim, porque o Viseu 2001 tem uma boa estrutura com capacidade para tal. Mas da forma como agora está delineado o campeonato feminino da primeira divisão, vai ser muito difícil para uma equipa que vem da distrital, mesmo até para ter uma base para chegar à segunda divisão. Mesmo no campeonato masculino as equipas da segunda divisão têm muitas dificuldades, são viagens muito longas”.
Após uma partida que as viseenses dominaram e controlaram desde o início, goleando o Dom Fuas por 6-0, o treinador Rogério Nunes, visivelmente satisfeito com a vitória na primeira eliminatória da Taça de Portugal, falou com o Jornal do Centro, ainda dentro da quadra onde decorreu o jogo. O técnico, que representa o Viseu 2001 pela terceira época seguida, abordou a importância da Taça de Portugal para uma equipa que joga nos campeonatos distritais: “O nosso objetivo na Taça de Portugal é tentar chegar o mais longe possível. Somos uma equipa da distrital, trabalhamos para dotar o coletivo de mais qualidade e capacidade, para tentar subir à segunda divisão nacional. A taça, para nós, simboliza aquilo que de bom existe no futsal feminino, porque as oportunidades que a federação nos dá para competirmos e sonharmos em chegar aos campeonatos nacionais não são fáceis. Há muitas desigualdades entre a subida aos nacionais masculinos e femininos, e a taça torna-se mais importante, pela oportunidade de jogarmos com equipas de outros distritos, que de outro modo não existiria. É muito bom esse convívio e tudo o que aprendemos destes jogos”.
Acerca da realidade atual do futsal feminino em Portugal, o treinador principal diz que vê com bons olhos a introdução de duas novas competições no panorama da modalidade: “O futsal feminino em Portugal está a passar por um momento bom, com muitas equipas. A criação da segunda divisão foi um bom passo dado pela federação, que permitiu dotar de mais competitividade os clubes, que não sentem tanta diferença quando chegam à primeira divisão. A criação do campeonato nacional feminino sub-19 também ajuda a esse processo de evolução. Mesmo num momento de desigualdade nos apoios que a federação dá ao futebol de 11 e ao futsal, é muito bom ver mais mulheres a competir, mais treinadores a treinar, e mais clubes a apostarem no futsal feminino”.
O futsal feminino em Viseu está, ainda, numa fase embrionária e ainda sem qualquer equipa nas divisões nacionais. Para Rogério Nunes, a justificação está no facto de ainda existirem muitas barreiras na subida a competições acima dos campeonatos distritais: “Se houverem oportunidades de mais equipas chegarem ao nacional, motiva quem trabalha no distrito. Falando no caso do distrito de Viseu, no ano passado fomos à Taça Nacional, depois de termos ganhado o distrital. Lá, defrontámos equipas de outras cidades, mas este ano voltamos a jogar no distrital. As equipas que estão abaixo fazem, muitas vezes, um trabalho estupendo por manter as atletas motivadas para competirem, ano após ano, no distrital, e não há maneira de permitir que equipas, de Viseu, por exemplo, consigam chegar ao nacional e evoluir no sentido competitivo. Se as equipas dos distritais continuarem a jogar nos mesmos, acabam por não conseguir crescer, abafadas pelas equipas fortes das divisões superiores”.
Vinda do balneário, após o final do encontro, encontrámos Nely Ferreira, jogadora viseense que veste a camisola laranja e azul pela quarta época seguida. Uma das mais experientes do plantel, com 26 anos, retratou-nos, um pouco, aquele que é o ambiente entre as jogadoras e delineou os objetivos da equipa: “É uma experiência muito boa poder ver estas caras mais novas, com 17, 18, 19 anos, que já vêm das juniores. Partilhar o balneário com elas é motivação, porque acabamos por nos sentir o modelo a seguir delas, é um orgulho enorme. Sentimos que a dificuldade em chegar à primeira e à segunda divisões já não é tão grande. A criação da segunda divisão feminina veio ajudar nesse processo, e creio que agora está mais ao nosso alcance. Se antes era um degrau muito grande, é agora um degrau mais pequeno, e vamos passo a passo. O foco é ganhar a distrital esta temporada, e lutar pela subida na Taça Nacional, para que no próximo ano possamos sonhar com a luta pela subida à primeira divisão”.
Tal como o treinador da equipa, Nely Ferreira também abordou a forma como tem evoluído o futsal feminino no Viseu 2001. A ala e pivot da equipa beirã admite que ainda há muito a fazer, e que a presença da equipa sénior masculina na primeira divisão serve como fator de incentivo para o resto das equipas do clube: “Infelizmente ainda estamos muito aquém do que é possível fazer no futsal feminino em Viseu. Ainda assim, se compararmos com a realidade de há seis ou sete anos atrás, estamos a evoluir, e prova disso é a criação da nossa equipa de juniores (sub-19), que vai competir no campeonato nacional, e que nos faz crescer na formação. Sobre as seniores, estamos a crescer e a dar visibilidade. Termos uma equipa masculina na primeira divisão também é importante, porque nos trás um exemplo a seguir, e quem sabe se daqui a dois ou três anos, não somos nós a estar também na primeira divisão”.
No final da noite, com o objetivo cumprido de passar à segunda eliminatória da Taça de Portugal, mantém-se a certeza de que o caminho ainda será longo para as atletas do Viseu 2001. No entanto, o esforço e a dedicação que têm colocado no seu desempenho faz prever que também muitos sucessos estarão por chegar ao futsal feminino do clube que leva “Viriato ao peito”.