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Há 14 anos à frente da Associação de Futebol de Viseu, avança agora para a vice-presidência da Federação de Andebol de Portugal, já a partir de 20 de abril. Recebeu o convite há muito tempo?
Não. Tivemos de andar de uma forma apressada. Nestas questões do desporto não se pode estar legalmente na Federação e numa Associação. Tive de renunciar ao cargo de presidente da Associação de Andebol de Viseu. Comuniquei à direção da Associação e preparámos o presente imediato e o futuro. Houve todo o cuidado de deixar as pessoas certas que me vinham acompanhando há uma série de anos, a continuar este projeto.
Que reação teve quando recebeu o convite: aceitar ou declinar? Porque há um passado na Associação, há amizades, ligações. Como é que fez a gestão?
É verdade que há uma envolvência no desporto em geral, há muitos, muitos anos. Fui praticante federado de futebol. Nunca fui grande praticante de futebol. De qualquer das formas há caminho percorrido. O desporto na paralisia cerebral, na Direção-Geral dos Desportos… Quando recebi o convite fiquei surpreendido. Não era um pensamento que tivesse. Até porque declinei o convite há 14 anos.
Porque é que na altura o declinou?
Achei que os projetos que estavam desenvolvidos na minha terra e na minha região ainda não estavam maduros e havia muito a fazer. Gosto de assumir os compromissos a que me proponho com as pessoas e com a Federação, clubes e sociedade em geral.
E agora sente que foram dados esses passos?
Sim, se assim não fosse, voltava a dizer não. E era importante eu fazer outras coisas que quero fazer e a vida não espera. Os anos vão passando. E, ou nós vamos fazendo as coisas em devido tempo, ou depois não as fazemos mais.
Com o passar dos anos foi ficando com essa perceção?
Tenho. Vamos deixando coisas muito importantes por fazer. Muitas vezes são as pessoas que lidam connosco no dia a dia e partilham a nossa vida, que vão sofrendo esse nosso atropelo para fazer bem aquilo a que nos propusemos. Aconselho os mais jovens a terem algum cuidado com isto. Às vezes a vida anda mais rápido do que nós pensamos.
Sobre esse fator tempo, arrepende-se de algo que tenha feito ou tudo o que deu ao desporto foi dádiva?
Nada. São compromissos, palavras. Na minha terra diz-se que vale mais do que uma escritura. Não me arrependo de ter feito nada do que fiz. Gostaria era de ter tido mais tempo para fazer outras coisas.
Costuma dizer que o andebol está na moda. Viseu também está tendo em conta a sua ida para a Federação?
Não foi fácil dizer sim. Gosto muito de ponderar as situações e de perceber o que sou capaz de fazer, as minhas capacidades e os meus limites.
Com quantas pessoas falou para decidir se avançava ou não?
Foi algo muito interno. Foi de um dia para o outro. Teve de ser. Não estou nada arrependido. Não posso fugir à questão de ser muito importante para mim, mas também o é para os clubes de Viseu, associativismo da região. Pesei essa importância generalizada.
Foi também em nome dos clubes que decidiu aceitar?
Foi. Foi em nome do andebol regional e distrital. Acho que uma Federação é algo diferente, muito diferente, de uma Associação.
O Andebol4all, que ajudou a fazer nascer, abriu as portas do andebol a um conjunto de pessoas: desde cidadãos em cadeiras de rodas até presos. Foi o projeto mais desafiante que abraçou a nível profissional até agora?
Fui um. Mais um projeto desafiante. E talvez este novo desafio também tenha a ver com esta minha inclinação para os desafios. Eu tinha 30 e poucos anos quando foi criado na delegação de Viseu da Paralisia Cerebral, hoje APCV, o desporto no núcleo para paralisia cerebral. O andebol4all foi outro. E a Associação foi também um desafio. Não me posso esquecer que tínhamos quatro clubes. Hoje são 15. Na última Assembleia-geral houve mais três clubes a pedirem para se filiar.
Quantos jogadores de andebol há no distrito?
Estão inscritos à volta de 1200. Hoje passamos – e bem – a mensagem da igualdade de género no desporto. Nós, na Associação de andebol de Viseu, temos quase tantas equipas femininas como masculinas. Sendo que, hoje, o máximo em termos de qualidade é a Academia feminina de Andebol de São Pedro do Sul, que está na Primeira divisão e nas competições europeias. Numa modalidade coletiva, ninguém pense que faz milagres antes de 20 anos.
Já se despediu da Associação?
A sede da Associação é da Federação de Andebol de Portugal. Quando estiver sentado a trabalhar para o andebol, estarei em Viseu. E mais, houve o cuidado e o compromisso, de continuar a trabalhar a passagem de forma calma e serena. E estar disponível [para a Associação]. Ninguém tem de decidir pela cabeça do outro e, por vezes, decidimos de forma diferente. O novo presidente [da Associação de Andebol de Viseu], o Henrique da Conceição, é uma pessoa do desporto há muitos mais anos do que eu. Foi a pessoa que esteve mais próxima [de mim] desde há muitos anos. É alguém de grande confiança e solidariedade. Eu disse aos clubes que tinha a obrigação de deixar os destinos da Associação entregues à presidência do Henrique da Conceição. Se daqui a um ano houver mais atletas, clubes, fico todo satisfeito. E estão criadas essas condições porque hoje no andebol pensa-se competitivo. Há alguns treinadores e dirigentes nesta região que pensam o desporto como poucos.
Faltam infraestruturas para a prática de andebol ou, para já, são suficientes?
Não estamos mal, se nos compararmos a outras regiões. Mas não podemos parar. Temos de continuar a pensar construir mais e melhor. Dar um toque de qualidade nas áreas da segurança, a acessibilidade… Não basta apenas cumprir o que está na legislação.
O que é que alterava?
Dou um exemplo. As portas dos balneários não têm de ter 80 cm como diz a legislação. No caso de uma pessoa com cadeira de rodas, uma pessoa tem de sair da cadeira de rodas que usa no dia a dia para a cadeira do jogo. A cadeira entra no balneário facilmente porque retiramos uma roda, mas com o atleta sentado, já não podemos tirar a roda… A área do duche, a sanita, o lavatório. Falamos de coisas práticas, que possam ser usadas por todos. Mas as infraestruturas hoje começam a faltar. Eu gosto de estar no desporto. Disse no outro dia a alguém que tenho uma catedral chamada desporto. Não olho só para o andebol. Nessa catedral tenho um altar chamado andebol e dentro desse altar, tenho um nicho, que é o andebol4all. Começo a ver cada vez mais crianças a praticar desporto. Não nos podemos esquecer que naquilo que se chama de interior – eu não gosto nada de o chamar assim – os jovens também gostam de atingir níveis elevados no desporto. Temos de lhes dar condições. Não somos menores por viver num local onde o granito abunda. Começam a faltar espaços de treino.
Repare que falamos de infraestruturas e a sua mente remete logo para a questão da acessibilidade. É um dossiê que marca a sua vida. O tema da deficiência foi sempre algo que o acompanhou?
Sim, principalmente desde que comecei a trabalhar na Associação de Paralisia Cerebral de Viseu. Foi fundamental para eu ter a visão de que todos somos pessoas e temos de ter oportunidades.
O andebol foi amor à primeira vista?
Eu pratiquei andebol não federado no Colégio Tomaz Ribeiro, em Tondela. Quando cumpri o serviço militar obrigatório também me inscrevi no andebol do RI14. O andebol tinha algo de que gostava: o contacto físico que tem de ser feito com respeito e educação. Respeitar adversários e colegas. Qualquer falta extra que levasse, prejudicava, em primeira instância, os meus colegas. O andebol é muito parecido com o râguebi, nesta filosofia. Há muita ética.
Falaremos na altura com o novo presidente da Associação de Andebol de Viseu, mas há um novo torneio de andebol a chegar…
Posso já adiantar a data: 16, 17 e 18 de agosto. Esse torneio, a 26ª edição, não começa agora a preparar-se. Se calhar começámos ainda estávamos dentro do 25º torneio. Já há nomes de equipas, alterações no troféu VIDA, de andebol em cadeira de rodas. Mas quem transmitirá isso será o presidente Henrique da Conceição.
É supersticioso? Pé direito quando chegar o dia de assumir a vice-presidência?
Sou, sim. Tenho algumas superstições. Mas não há primeiro dia. É uma continuidade. Acho que não há pé direito nem pé esquerdo. É tentar fazer o melhor e o mais para atingir o maior número de jovens a praticar andebol.