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A entrevista estava pensada há algum tempo e agora a agenda de Carlos Vaz Pinto permitiu que se concretizasse. À hora combinada, o treinador que tem viagem marcada para a Índia dentro de um mês, estava pronto para uma conversa sobre futebol. Entre passado, presente e futuro, tudo mereceu resposta. O técnico lamenta não ter tido uma melhor projeção enquanto treinador de futebol em Portugal, mas diz já ter aceitado essa realidade. Agora o foco está na Índia. O futuro, logo se vê.
É o segundo ano consecutivo no futebol indiano. Está a treinar o Sreenidhi FC. O futebol indiano surpreendeu-o?
Sim, foi uma agradável surpresa. Costumo fazer o trabalho de casa antes de aceitar os desafios, mas surpreendeu-me porque encontrei um futebol, que tendo muito para crescer, já tem um nível de organização interessante. O meu clube é um bebé, este foi apenas o segundo ano como equipa sénior, mas tem uma organização europeia, porque o diretor técnico é português.
Como é que é vivido o futebol na Índia? Há paralelismo com Portugal?
Não, de todo. O críquete ainda é o desporto rei. Acredito que nos próximos anos, o futebol se possa aproximar mas ainda de uma forma mais vincada. Em todo o caso, o futebol é vivido na Índia de forma diferente de estado para estado, de região para região. Há estados em que o futebol está muito desenvolvido e os adeptos enchem estádios e há outros em que os estádios estão praticamente vazios.
Que objetivo lhe pediram para alcançar na última época?
O que o presidente me disse na primeira conversa que tivemos foi que, a médio prazo, quer estar no topo do futebol indiano. Mas fez questão de me dizer e pela primeira vez um presidente me disse isto, “mister, você ganhe, mas não ganhe muito”. O que ele me quis dizer foi que há tempo, temos de consolidar a nossa posição no futebol indiano. Ele acabou por entusiasmar porque numa determinada altura da época, acabámos por estar na luta pelo título e fomos vice-campeões.
O que é que falhou?
Foram os resultados e sentimos que, como clube, ainda não temos a dimensão necessária para dar esse passo. Não temos adeptos, é um clube com uma massa adepta muito pequena e falta-nos peso nas estruturas que coordenam o futebol indiano. Em todo o caso, sabemos que temos de crescer e evoluir e o que temos de fazer para lá chegar. Mas estamos orgulhosos do que foi feito: no segundo ano da equipa sénior, ser vice-campeão foi, de facto, tremendo para um clube tão recente.
E numa segunda época no clube, qual é o foco?
É tentar continuar a melhorar o clube e desenvolver jogadores. A visão do presidente de querer o clube no top do futebol indiano, não passa só pelos resultados da equipa sénior. Passa também por desenvolver a academia. Há uma universidade, um colégio, uma academia de desporto. Queremos desenvolver os atletas e temos aproveitado os melhores jogadores dessa academia. Vamos por mais. Trabalhar para conseguirmos ser competitivos nos nossos resultados.
O Sreenidhi está em que escalão, numa equiparação com Portugal?
O futebol indiano tinha duas ligas fechadas. Não existiam divisões porque ninguém subia, nem descia. Na Índia há uma Superliga, os clubes pagam para poder participar nela e aí estão os clubes mais ricos e os desportivamente mais capazes. O nosso clube entrou na Liga da Federação, aquela que é reconhecida pela FIFA, e há clubes que não quiseram participar nessa Superliga e que se mantiveram na nossa liga. O que aconteceu foi que a FIFA, ao não reconhecer a Superliga, suspendeu todo o futebol indiano de competições internacionais, não só a seleção, mas também os clubes. O objetivo é que quem participe na Superliga lá esteja por mérito desportivo e é isso que vai acontecer. A partir de agora, a Superliga é a melhor, a nossa liga é a segunda do país. Os clubes só acederam a que o campeão da nossa liga suba à Superliga.
No meio de tantos treinos que tem de dar, há tempo para olhar para o futebol português?
Sim, claro que sim. Acompanho mais de perto a Primeira e a Segunda Liga, mas também um pouco da Liga 3. E as equipas da nossa região no Campeonato de Portugal e a nossa divisão distrital porque foi aqui que comecei. Tenho amigos nessas competições. E sigo a carreira do meu filho, que também joga na região.
Apesar da carreira internacional que está a construir, fica alguma mágoa por não treinar em Portugal, ou é uma opção já sua de não treinar por cá?
Fica a sensação de que poderia ter desenvolvido um pouco melhor a minha carreira em Portugal.
Mas ainda vai a tempo…
Óbvio que sim. Tenho 48 anos. Tenho a certificação enquanto treinador de futebol, tenho a minha formação em Educação Física. E joguei durante alguns anos. Sentia-me e sinto-me preparado para treinar em Portugal. Também o fiz. Estive nos juniores da Académica na Primeira Divisão, no Famalicão fui treinador dos sub-23 e coordenador. Mas agora acaba por ser opção [treinar no estrangeiro]. Em Portugal, são poucos os treinadores que têm oportunidade de ser profissionais. A Primeira Liga são 18 clubes, a Segunda, também.
Esse grupo privilegiado de treinadores, forma-se como? É uma questão de ‘vender’ melhor o trabalho?
A verdade é que sinto que aparece um ou outro treinador nas equipas profissionais, que, digamos, ainda não tinha dado provas do seu real valor. Não quero dizer com isto que não sejam competentes porque se alguém dá o passo de os contratar, acredito que o dê conscientemente. Mas, muitas das vezes, não é isso que ressalta. E eu estou dentro do processo e é essa a leitura que faço.
E ao ver esses casos, a sua reação mudou ao longo dos anos?
Sim, vamos amadurecendo e percebendo que são situações que acontecem com alguma regularidade. Tenho de aceitar que o processo de seleção de treinadores é feito um pouco assim. Estou bem comigo e é o mais importante. Sinto que tenho feito uma carreira muito interessante, com títulos no estrangeiro. Igualei um recorde daquele que é a referência maior dos treinadores portugueses, o José Mourinho. Tenho três finais de Taça em três países diferentes e em dois desses países apenas estive um ano. Orgulho-me disso e acabo por estar bem comigo e a não olhar para essas questões.
A questão da validação…
Sim, acaba já por não ser muito importante para mim. É óbvio que gostamos que o nosso trabalho seja reconhecido. Sinto que tem sido mais reconhecido no estrangeiro, mas não me causa qualquer tipo de transtorno.
Que imagem tem o futebol português além fronteiras?
Há duas referências maiores a quem não damos o devido valor quando estamos em Portugal. José Mourinho é a imagem daquilo que é o futebol português e foi ele quem nos abriu portas para treinar lá fora. E o Cristiano Ronaldo que é o expoente máximo do futebol português. Para além disso, a seleção tem sido a marca registada daquilo que é o futebol português. É pena que a Liga Portuguesa não seja transmitida no estrangeiro. Faz com que a nossa liga não seja conhecida, tal como os nossos jogadores. Creio que com a centralização dos direitos, possa valorizar mais.
E o futebol feminino?
Antes de mais estou extremamente orgulhoso do meu amigo Francisco Neto. Fico muito satisfeito com o reconhecimento do trabalho dele. A Federação Portuguesa de Futebol e a FIFA têm feito trabalho na valorização do futebol feminino. Creio que crescerá mais e que nos próximos tempos podemos ver estádios como vimos no Bessa.
A sua carreira teve paragens em Angola, Etiópia, Quénia. Que aprendizagens lhe trouxeram?
Todas as minhas experiências foram importantes para me adaptar a um novo contexto. Acho que esse é o grande mérito do treinador português, a forma como se adapta aos diferentes contextos. Obviamente que todas estas experiências profissionais me trouxeram lições de vida. Encontrei pessoas fantásticas em cada um desses países, que guardarei para o resto da vida e experiências enriquecedoras a nível cultural e religioso. Na Etiópia, são fundamentalmente ortodoxos, na Índia, hindus. Em todo o lado trabalhei com muçulmanos. Por exemplo, as questões da alimentação são vincadas na Índia. Quando estiver perto de me reformar, creio que posso escrever um livro sobre algumas dessas experiências?
Professa alguma fé?
Sou católico e assumo-o, mas tenho de respeitar. Até porque na Índia tenho católicos, muçulmanos, hindus… Todos eles com tradições e hábitos. Tenho de me adaptar e respeitá-los.
O futebol mundial tem agora as atenções agora na Arábia. É um fenómeno que vê com naturalidade?
É o lado financeiro do futebol a falar e todos os treinadores e jogadores olham para o futuro e querem precavê-lo o melhor possível. E se podem ter melhores condições financeiras no contrato, obviamente que vão à procura delas. O que acho é que deve estar a assustar mais os campeonatos europeus.
E as seleções nacionais europeias, também?
Se calhar, também. Embora a Liga Saudita com a qualidade dos treinadores e jogadores e pelo que vai ser feito nas academias, o contexto em que os jogadores portugueses vão estar nessa liga será competitivo e estimulante para quando vierem representar a seleção estejam no pleno das suas capacidades.
Sei que está motivado no futebol indiano, mas que projeto em Portugal o atrairia?
De há uns tempos a esta parte tenho mudado o meu pensamento. No mestrado, falámos daquilo que é o desenvolvimento de um plano de carreira. E eu, neste momento, já não acredito nisso. Como treinador, antes olhava para um clube na perspetiva de um projeto. Não é fácil encontrarmos hoje em dia isso no futebol. Se fosse para voltar, gostava de ter um contexto como o que tenho agora. Estou num clube em que o meu presidente delegou num diretor técnico a gestão do clube. Os dois, em comunhão de ideias, criámos a visão para o desenvolvimento do jogador e do clube.
E isso seria possível em Portugal?
Não me parece que a gestão através de uma SAD, por exemplo, isso seja possível. O que acho que um treinador que trabalha em Portugal tem de fazer é adaptar-se à visão da SAD, perceber qual a visão da SAD para a equipa. Adaptar-se. E ver se tem as características para desenvolver o que lhe é pedido.
Nunca como hoje o treinador tem de estar identificado com o projeto, é isso?
Sim, cada vez mais. Acho que é fundamental haver um alinhamento entre as ideias da SAD e o que o treinador quer para desenvolver essas ideias. Não vale a pena fazer esse casamento se o que a SAD quer não é aquilo em que o treinador acredita. Temos exemplos recentes que correram bem e outros que correram mal. E correm mal porque há ainda uma mentalidade no treinador português de que as coisas devem ser como ele quer. E hoje não é assim. O futebol mudou. O importante é que perceba que quando assina um contrato, se está a assinar um contrato com uma SAD que tem determinados objetivos e que há que estar alinhado com eles. Se não, não adianta.