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por
Alfredo Simões
im, o título deste texto é um roubo descarado da canção de Pedro Abrunhosa, mas não encontrei melhor maneira de expressar o que estaremos a sentir depois das tempestades e depressões que nos “visitaram” nas últimas semanas: algum desencanto, mas com vontade de prosseguirmos caminho.
Cada ano que passa, e de forma cadenciada ao longo do ano, afligimo-nos com os incêndios de verão, ficamos em pânico com o mau funcionamento das urgências hospitalares ao aproximar-se o inverno, logo depois a nossa preocupação vira-se para as tempestades e depressões, nos intervalos somos alertados para as crises num ou noutro setor da atividade económica ou, então, para benefício das TVs e dos “algoritmos macacos”, entretêm-nos com as grandes conquistas desportivas… Apesar desta cadência, desta regularidade de acontecimentos, continuamos a fazer figura de espantados quando nos defrontamos com uma qualquer Kristin, no inverno, ou com um incêndio de verão ou com o corrupio de ambulâncias à porta dos hospitais no outono-inverno. Até parece que fomos apanhados por algo completamente imprevisível ou completamente novo. Mentira, já fomos avisados disto tudo!
No final de cada um destes acontecimentos é certo e sabido que ouvimos dizer que se trata de uma “experiência que nos ensinou para o futuro”. Mentira outra vez! Ou, então, ainda não fomos capazes de chegar ao futuro…
Sem pretender desvalorizar tudo o que tem sido feito em termos de previsão de acontecimentos trágicos, de planeamento de ações de prevenção e de ataque aos efeitos dos fenómenos que descrevemos, não podemos deixar de refletir por que é que estamos a demorar tanto tempo a aprender. Pelos vistos, temos de continuar a insistir naquilo que deve ser a nossa primeira lição: “como planear e para quê?” A segunda deverá ser: “como organizar meios e recursos” – incluindo aqueles que são críticos e, por isso, não podem falhar mesmo (valha-nos o S. SIRESP!!!). A terceira: “como executar e como fiscalizar/acompanhar as obras ao longo do tempo para prevenir os efeitos daquilo que não está nas nossas mãos controlar; e, por último, a quarta lição há de ser: “como comunicar com as pessoas” – em vez de fazermos filmes e sms inúteis.
Já sabemos – há que tempo! – que no inverno estamos sujeitos a mais chuva, a mais vento, a mais neve e também sabemos que os fenómenos extremos são cada vez mais intensos. Nós e as autoridades sabemos também que há risco de cheias, com os terrenos fragilizados (seja pelas chuvas ou pelos incêndios e, particularmente pelos disparates no ordenamento do território) há risco de derrocadas; nos pontos mais altos, a neve e o gelo poderão ser visita não desejada, mas assídua, tal como os ventos mais fortes e, por isso, mais demolidores em particular se apanham pessoas e estruturas mais frágeis – tudo isto está reconhecido na Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas apresentada, há meses, pelo governo. E há anos, muitos anos, que sabemos o que é preciso fazer!
Mas, umas vezes fazemos o contrário do que devíamos e outras vezes, pura e simplesmente, nada fazemos, acomodamo-nos, deixamos andar na expetativa de que aquilo que de mau possa acontecer (como a Kristin) não aconteça. Dizia a minha mãe: “Fia-te na Virgem e não corras!” E isto terá sido o que aconteceu com a desabamento na A1, junto a Coimbra, provocado pelo excesso de confiança nos bons modos do rio Mondego e pela incúria do Estado que não fiscaliza quem é pago para fazer, não conserva o património de todos! Mas, na verdade, já há muitos anos que se sabe que o Mondego tem tão bons modos como qualquer linha de água quando encontra o seu leito assoreado, os terrenos impermeabilizados. Para limitar os danos causados pelos excessos destas massas de água ao longo dos seus percursos até ao mar foram sendo construídas barragens – certamente com impactos colaterais negativos que deverão ter sido previamente ponderados – que servem para “normalizar” os cursos de água (isto é, para evitarem que os efeitos mais nefastos das inundações ocorram) e aproveitar a massa de água para a produção de energia elétrica, irrigação dos campos, fornecimento de água às populações, criação de áreas de lazer, etc.
Há mais de 20 anos fiz parte de um grupo de trabalho multidisciplinar que avaliou e hierarquizou, em função de muitas variáveis, nomeadamente das valias económicas (em particular a produção de energia elétrica), do contributo para o desenvolvimento sócio económico dos municípios envolvidos, do papel de amortecimento de cheias, do apoio à reserva estratégica de água doce, do beneficio ao combate de fogos florestais, dos impactos ambientais de aproveitamentos hídricos de média e elevada dimensão que surgiram de um levantamento feito pela EDP na região Centro, até 1993. Eventualmente, tal estudo (designado por HIDROVALOR*) estará, nalguns dos seus aspetos, desatualizado à luz dos novos conhecimentos que existem bem como dos objetivos que temos para o nosso País. Na altura, Portugal tinha de dar resposta a uma orientação europeia no sentido de a União acelerar a introdução de fontes renováveis para a produção de energia elétrica e, por outro lado, a crescente entrada de fontes de energia intermitente (eólica, solar) necessitaria de ser complementada com formas de geração (como a hidroelétrica) que garantissem o abastecimento nas situações em que há um desajustamento entre a procura e a oferta de eletricidade. O recente “apagão” de abril do ano passado veio alertar-nos para um tipo de problemas que, afinal, não estará resolvido com as consequências sobejamente conhecidas.
Mas, para quê fazer um Plano Energético da Região Centro (PER-CENTRO) ou uma Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas se quem tem a responsabilidade e os meios para a aplicação – a Administração Central – esquece facilmente o que fica escrito e proposto ou, se não esquece, adia. Adia um ano, uma década, várias décadas … E todos os anos, quando se verificam os incêndios ou as tempestades, uns e outras com consequências graves para as pessoas, então assistimos ao repetido espetáculo nas TV com os dirigentes nos locais que foram palco das desgraças para as populações com ar compungido a lamentarem o sucedido e a mostrarem-se determinados a fazerem o que deveriam ter feito e a acenarem com dinheiro como se de uma bênção com flores ou alecrim e água benta se tratasse.
Uma das barragens identificadas, pelo menos desde o inicio da década de 90 do século passado, foi a barragem de Girabolhos. O Governo decidiu marcar para março o lançamento do concurso para a sua construção. Eu estou decidido a acreditar e a aceitar a sua construção malgrado os inconvenientes ambientais que possa ter.
Deve referir-se que o relatório da avaliação dos 14 empreendimentos já referidos mostra que este equipamento em Girabolhos, sobre o rio Mondego, apresentava resultados positivos, quase sempre entre os 5 melhores empreendimentos dos 14 em avaliação no que respeita a impactos energéticos, abastecimento de água, amortecimento de cheias (4º lugar entre os 14 empreendimentos e o 1º entre as 3 barragens avaliadas sobre o rio Mondego), apoio a combate a fogos florestais, reserva estratégica de água doce, impacto económico. Para além desta posição no que respeita a impactos positivos, a barragem de Girabolhos era a que evidenciava o 2º melhor resultado quanto a impactos ambientais que foram avaliados de acordo com 8 critérios: extensão inundada, impacto a jusante, % inundada e habitats e espécies afetadas – em áreas protegidas -, área florestal, galeria ripícola, peixes. Refira-se que, construído um índice global, a barragem de Girabolhos ocupou o 2º lugar entre os 14 empreendimentos para aproveitamento hidroelétrico.
Esta avaliação foi feita em 2002/2003, uma década depois do final do levantamento das barragens. De lá para cá alguma coisa mudou seja no contexto externo, seja nos territórios abrangidos por estes 14 potenciais empreendimentos. Vale a pena, porém, retomar um pouco da pequena história de um passado recente: em 2006 a barragem de Girabolhos era para construir (integrada num Programa Nacional de Barragens com Potencial Hidroelétrico), em 2016, foi abandonada a construção, em 2026 volta a estar na pole-position para ser construída, para ajudar no amortecimento das cheias a jusante, continuando a fazer parte da Estratégia “Água que Une”, de 2025, – para o abastecimento eficiente de água.
Para que queremos Programas, Planos, Estratégias se não os aproveitamos para orientarem a nossa ação, se os deixamos a “marinar”, se os substituímos na primeira oportunidade por decisões avulsas, provavelmente condicionadas por pressões de grupos com mais ou menos poder de influência?
Depois desta avaliação passaram-se mais de 20 anos, muitas cheias, vias e atividades económicas destruídas e pessoas empobrecidas – sim, porque uma catástrofe não atinge de igual forma a todos. Basta termos visto a TV para percebermos quem foi atingido com mais violência, quem perdeu os telhados e viu paredes das casas a ruírem, quem foram os deslocados. Não foram, com certeza, aqueles que têm mais influência.
A acreditar que “agora vai!”, que vamos fazer aquilo que não foi feito, então “Girabolhos” é um empreendimento bem-vindo (pelo menos era-o há 20 anos atrás), por causa das cheias, por induzir outros investimentos, por facilitar o combate aos incêndios, eventualmente por amenizar um pouco o clima local. Mas, será que esta massa de água, com 12 Km2, poderá vir a ter influência nas caraterísticas do vinho do Dão? Este empreendimento vai ter um papel importante para mitigar os efeitos das cheias no Mondego como se espera? Esta ponderação entre fatores positivos e negativos, para o nível local e para o nível regional, é importante que se faça e que resulte de uma comunicação séria entre Governo (na ausência de uma autoridade regional com poderes e com recursos) e as autarquias locais envolvidas (Gouveia – com 53% da área inundada, especialmente nas freguesias de Cativelos e Arcozelo –, Mangualde – 37%, principalmente Abrunhosa-a-Velha e Póvoa de Cervães -, Seia e Fornos de Algodres), incluindo as autarquias a jusante sujeitas às cheias – afinal, este é um assunto que respeita a toda a bacia hidrográfica. Desse diálogo, é importante que saiam as melhores soluções para a construção da barragem, especialmente para benefício a jusante – e bem! Mas também importa estabelecer um programa para o desenvolvimento deste pequeno território aproveitando o novo recurso criado com a albufeira que poderá reter até 245 hm3 de água. Este programa deve significar um conjunto integrado de intervenções de natureza múltipla que deverão ser feitas em benefício das populações locais envolvidas – não basta deixar ficar esse novo recurso, “fazer as malas e virar as costas”. Se isto acontecer, se não existirem a vontade e os meios para a elaboração e a execução de um plano de desenvolvimento das aldeias e municípios envolvidos, isto é, um plano de desenvolvimento integrado que implique a reparação direta de alguns prejuízos ou de equipamentos e vias submersas, mas também um conjunto de intervenções que melhorem a vida dos seus residentes, a barragem pode ser boa para o amortecimento das cheias, mas não trará qualquer vantagem a quem a acolhe e viu, provavelmente, os antigos caminhos cortados, afundadas pequenas infraestruturas de alguma agricultura ainda existente ou habitações, dificultadas as ligações às sedes de concelho e aos maiores centros urbanos regionais, etc. As populações e os seus dirigentes têm de estar atentos.
Vamos, pois, fazer aquilo que não foi feito – mas, bem feito!
Viseu, 18fev2026
Alfredo Simões
*HIDROVALOR – Avaliação dos Impactos Económicos, Sociais e Ambientais de Novos e Médios e Grandes Aproveitamentos Hídricos na Região Centro”, Coimbra, janeiro 2004. Coordenação do Prof A. Traça Almeida, Universidade de Coimbra.
Identificados 13 empreendimentos hidroelétricos de média e alta dimensão nas bacias dos rios Paiva(4), Côa(3), Vouga(3) e Mondego(3) que fizeram parte do Plano Energético Regional da Região Centro (PER-CENTRO) elaborado pela CCDRC aos quais foi acrescentado outro aproveitamento sobre o rio Ocreza.
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