No coração verde do concelho de Viseu, Côta é uma aldeia onde…
Nasceu, em Cinfães, a Quinta da Maria, um projeto turístico com alma…
No coração do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, há…
As filmagens do “ Amor impossível” estão a correr bem?
Muito bem. A simpatia e a forma acolhedora como fomos recebidos aqui em Viseu também ajuda. O facto de tudo ser próximo é bom. Em Lisboa sempre que nos deslocamos de um local para outro das filmagens perdemos muito tempo. É um filme feito com poucos meios, como tem acontecido nos últimos anos. Este é o quarto filme que faço com o Tino Navarro como produtor e o orçamento desde o primeiro para este terá diminuído em mais de metade. É uma situação que é ultrapassada com uma equipa de grandes profissionais e grandes atores. Para o público isso não interessa. Se decidimos filmar temos que lhe dar um produto de qualidade que justifique o bilhete que vai pagar. De qualquer modo, quando se filma há sempre alguma angustia porque por mais consciência que se tenha do que se está a fazer há sempre uma incerteza.
A rodagem está a decorrer dentro do que estava programado?
Para mim e para o produtor Tino Navarro o calendário definido é sagrado e é para se cumprir. Qualquer derrapagem nos prazos pode trazer custos irreparáveis e perturbar o plano de trabalho que é uma coisa decisiva num filme.
Agora que está a filmar, os cenários e os locais que escolheu estão a corresponder ao que imaginou?
A escolha dos atores e dos cenários é um processo complexo na cabeça do realizador. Quando escrevemos um argumento imaginamos um determinado rosto e um determinado “decor”. Depois temos que ir à procura de alguma coisa que corresponda ao imaginado e há sempre uma adaptação quando se tratam de cenários reais. Se for em estúdio será construído o que imaginámos. Os cenários aqui em Viseu foram escolhidos depois de cá termos andado bastante tempo. Num cenário real a instalação da equipa e movimentação dos atores tem que se limitar ao espaço que existe, mas isso é o jogo do cinema que me fascina. Gosto de ultrapassar dificuldades. Não gosto é de surpresas. Se tudo estiver bem planeado e previsto há mais espaço para a minha criatividade.
Agora que está no terreno e tendo em conta os cenários de exterior, Viseu tem mesmo o tal “decor” necessário para este filme?
A rodagem está a ser feita nos locais que eu escolhi e portanto estou confortável. Mas só quando se filma é que começamos a imaginar o resultado final. De um dia de filmagens aproveitamos dois a três minutos.
Para este filme a escolha dos cenários também teve que se ajustar ao apoio que entretanto surgiu da Câmara Municipal de Viseu …
A escolha foi feita depois de garantido o apoio da Câmara Municipal mas não houve qualquer constrangimento sobre a necessidade de filmar aqui ou ali. A Cava de Viriato é um dos símbolos da cidade mas não entra porque não é um filme de promoção turística. Nós podíamos apenas filmar os exteriores em Viseu e os interiores em Lisboa, como já fiz com outros filmes. A nossa permanência em Viseu dependia dos apoios conseguidos junto da Câmara e da Visabeira. Escolhemos os sítios que nos ajudam a marcar Viseu e que sobretudo realçar o contraste, que eu considero muito interessante, sem ser chocante, entre o Centro Histórico, com muita juventude e cheio de vida, e as zonas novas, com construções modernas, como o Instituto Politécnico ou o Palácio do Gelo . São quase duas cidades diferentes mas que se complementam e que são muito importantes para dois mundos que convivem no filme. Houve um entendimento perfeito entre nós e a Câmara. Perceberam as nossas necessidade e entenderam o que tinham a ganhar tendo aqui a rodagem de um filme que faz falar de Viseu e que se tiver sucesso acaba também por promover a imagem da cidade.
É um filme feito de dualidades?
É um filme onde convivem várias ideia e formas de viver o amor como paixão. É um convívio por vezes conflituoso outra vezes harmonioso. É a historia da relação muito intensa entre dois jovens que acaba de forma trágica e que tem reflexos na relação de um casal de agentes da Polícia Judiciária, um homem e uma mulher, que se percebe serem amantes. São duas histórias vividas em paralelo. Tudo o resto que se passa à volta da jovem protagonista são variações sobre o amor. A Cristina, é uma jovem muito atenta, está sempre a observar o que se passa à sua volta, com os casais que a rodeiam. Vai ter uma deceção grave porque o amor não é como ela sonhou. O centro da historia é o desejo que ela tem de viver grandes paixões, como Romeu e Julieta, mesmo que não existam os obstáculos da família que intensificarem essas mesmas paixões.
Como realizador interessa-lhe mais trabalhar o real ou a fixão?
Sempre gostei de contar histórias. No cinema o que me atrai é contar historias que são uma fixão de uma forma muito próxima da realidade. No romance o leitor tem que imaginar. No filme o espetador estar a ver e a viver a realidade que se está a passar no ecrã. Um bom filme é aquele em que o espetador embarca durante as sua projeção. Essa é a magia do cinema que mais nenhuma arte narrativa tem.
É um cineasta de autor?
Completamente. Uma das grande aberrações e coisas mais barbaras que a critica criou em Portugal e não só foi a ideia de que só é um bom filme o que não tem muito público porque se tiver muitos espetadores esta a ceder ao gosto desse mesmo público. Isto é o desmentir de toda a história do cinema de que há um cinema de autor e um cinema comercial. Ou seja, quem tem sucesso comercial deixa de ser autor. É uma barbaridade. Posso ser um péssimo autor mas sou um autor. Eu não faço um filme ou um plano que não seja de facto o que eu quero dizer.
Mas essa “classificação” não vem dos críticos do cinema …
A mim os críticos não me interessam nada. Têm o seu papel, eu próprio foi crítico durante vários anos, mas não me afetam rigorosamente nada. É raro encontrar uma crítica que me ensine, revele ou corrija qualquer coisa. Os meus filmes não tem mais um ou menos um espetador por causa da crítica. É zero, zero.
Mas reconhece importância à crítica ou não?
A crítica deve ajudar a encontrar os grandes filmes porque o público tem que fazer escolhas. Eu próprio tenho que ter referencias credíveis que me indiquem livros ou peças que é obrigatório ler ou ver. Não posso ler ou ver tudo. Infelizmente em Portugal e na Europa, ao contrário do que aconteceu no passado, não reconheço hoje nenhum crítico de cinema em que possa confiar totalmente. Sigo mais as indicações de alguns amigos ou pessoas que trabalham comigo.
É um crítico dos críticos…
Pode parecer arrogante, mas a maioria dos críticos não tem a noção do que está a ver.
Os críticos vão com as modas?
Deviam ser sujeitos a provas cegas, como nos vinhos. Deviam ver os filmes sem genérico. Ver cinema não é uma questão técnica mas não imaginamos um crítico de ópera que não saiba muito de música. Um crítico de cinema tem que saber o que é uma objetiva, um plano, etc, e ser honesto consigo mesmo. Porque há críticos que são capazes de se comoveram, emocionarem ou divertirem num filme e depois chegam a casa e há um filtro de preconceito que diz “isto é mau porque tem público”. Não percebo que se dê um prémio a um filme meu em que o argumento foi o melhor , os autores foram os melhores mas o realizador é muito mau. É extraordinário. Mas digo isto sem qualquer amargura ou rancor.
Mas a crítica boa ou má não o afeta?
Nada. Só me afeta porque há um gosto recorrente na crítica, a que sai nos jornais, que acabou por condicionar o próprio cinema português. Hoje há um gosto da crítica que passou para os júris dos concursos que definem os apoios ao filmes. A crítica não se limita portanto a intervir depois dos filmes feitos mas também condiciona os filmes que se fazem.
Também não tem poupado o sistema de apoios do Estado ao cinema português…
Se os mesmo critérios dos concursos do Estado para o cinema, se aplicassem por exemplo à música nunca teríamos discos do Jorge Palma, Sérgio Godinho ou Rui Veloso, porque têm público. O cinema é uma arte popular como a música é uma arte popular. É uma indústria do entretenimento. Esta ideia de que o cinema e as artes narrativas são para elites que o povo não percebe é uma coisa que me mete uma grande confusão. Se levarmos até às ultimas consequências o que está por detrás da ideia de que se o público gosta é mau, temos que por em causa a democracia e a escolha do povo. È um preconceito grave que está a passar uma mensagem de menoridade ao público. Sou contra o sistema dos júris e dos concurso para definirem quem apoiam. Nenhum escritor aceitaria que fosse o estado a dizer que este ano escreve o Lobo Antunes ou a Lídia Jorge.
Mas sem apoio do estado haveria menos cinema….
Eu sou a favor da intervenção do Estado porque o cinema é uma arte muito cara e nós não temos massa critica nem escala ou dimensão para pagar o cinema português. Toda a cadeia de valor que vive do cinema devia reinvestir uma percentagem em novos filmes. O produtor deve depois ir ao mercado procurar livremente o financiamento para o seu projeto. Não deve ser o Estado a decidir quem deve ou não ser financiado. Essa prática vem do tempo do Marcelo Caetano. Eu como realizador estou sujeito que cinco indivíduos, que ninguém sabe como são escolhidos, e que normalmente têm o gosto da crítica vigente, decidam se eu vou ou não filmar. Tenho pena que este regime me tenha impedido de fazer mais filmes . Eu quero ser julgado pelo público.
Mas vai continuar a fazer filmes…
Tenho pena de em 50 anos ter feito apenas 9 filmes e mais este que será o décimo. Enquanto me sentir bem fisicamente, porque este é um trabalho muito exigente, me sentir capaz e tenha histórias estimulantes para transmitir gostava de continuar a filmar e com outra regularidade, que felizmente tenho conseguido nos últimos anos.
Que novas ideias lhe vão na cabeça?
Tenho muitas ideias e há um projeto que terei muita pena se não o concretizar. Comprei os direitos do último filme que Rossellini não acabou, porque morreu a meio. É a história do jovem Marx e do encontro com Engels e o despertar da consciência política. É um filme muito caro porque é preciso haver produtores que andassem durante um ou dois anos pela França, Alemanha, Inglaterra a conseguir financiamento para fazer o filme. Gostava também de fazer um filme que conseguisse falar do que nós estivemos a passar em Portugal, na Europa e no mundo. Talvez seja uma ideia ambiciosa mas centrado em Portugal é possível fazer. Em tempos comecei a escrever um argumento chamado a Troika. No início seria um filme contado pelo diabo em voz off. É uma história de ganância e degradação dos valores morais e o dinheiro como única referência. São dois gémeos separados à nascença. Um torna-se um pequeno delinquente ou outro num banqueiro, grande delinquente. No meio uma mulher perversa que joga com as duas personalidades ….
Já temos uma nova história e um novo filme ….
Espero que sim … (sorrisos)