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Nasceu, em Cinfães, a Quinta da Maria, um projeto turístico com alma…
No coração do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, há…
Há momentos em que o Mundo parece uma casa onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém ouve. Há ruas cheias de gente zangada, jovens que olham para o futuro e só vêem uma renda impossível de pagar, uma casa que nunca será sua, um emprego que não paga o que a vida custa. A guerra voltou ao continente Europeu e o Médio Oriente arde sem tréguas. Entretanto, habituámo-nos a viver entre notícias que, há dez anos, nos teriam parecido inimagináveis.
Dá a sensação de que, depois da pandemia, algo ficou desafinado em nós. Fechámo-nos, desconfiámos uns dos outros e aprendemos a viver mais perto dos ecrãs do que das pessoas. Agora, a ansiedade que ficou cobra-se em forma de raiva. A extrema-direita cresce, alimentada pelo medo e embalada pelo exemplo de Trump. A extrema-esquerda endurece o tom e a certeza, como se a pureza das ideias valesse mais do que a sã convivência. Cada lado vê no outro o inimigo, e o meio-termo, onde se constrói quase tudo o que dura, é tratado como cobardia.
É aqui que me volta à memória o Cântico Negro, de José Régio. Em 1926, o poeta escreveu um grito de recusa. Recusa o caminho que todos lhe apontam, as vozes que o chamam para os atalhos da multidão, os braços que se estendem a oferecer abrigo em troca de obediência. Repete, quase como uma teimosia sagrada, que por aí não vai.
Hoje, esse poema sabe-nos a aviso. Todos os caminhos que nos oferecem têm a mesma promessa: o conforto de pertencer a um lado, de ter uma raiva partilhada, uma culpa para apontar. São tentadores porque a incerteza cansa, e é humano querer descansar dela.
Mas Régio ensina-nos outra coisa, que a liberdade começa quando se tem a coragem de pensar sozinho, de duvidar do slogan, mesmo quando ele vem do nosso lado.
Recusar a estrada fácil não é isolar-se, é recusar que nos poupem o trabalho de pensar. Talvez seja essa a nossa principal tarefa: voltar a ser capaz de discordar sem odiar, de procurar caminho sem exigir que o caminho já esteja traçado.
Não sei por onde vamos. Mas sei, como o poeta, que alguns caminhos não são para mim…
por
Miguel Brito, coordenador da Unidade de Endometriose do Hospital CUF Viseu
por
Leonel Ferreira