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Santa Comba Dão: entre a memória e o futuro

22.10.26
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Portrait of a mature man with gray hair in a white button-down shirt, against a black background.

por
Leonel Ferreira

A anunciada abertura do Centro Interpretativo do Estado Novo, em Santa Comba Dão, marca uma nova etapa de um processo longo e controverso, que merece uma reflexão para além das circunstâncias da sua inauguração.

O projeto agora apresentado é diferente da intenção inicial de criar um museu associado à casa e à figura de António de Oliveira Salazar. Essa proposta encontrou a oposição persistente de antigos resistentes antifascistas, historiadores, democratas de diferentes sensibilidades e milhares de cidadãos, que recusaram a possibilidade de transformar a terra natal do ditador num lugar de exaltação da sua figura.

Foi uma resistência com expressão pública e parlamentar, decisiva para que o projeto original não avançasse nos moldes anunciados. As mudanças entretanto introduzidas não surgiram, portanto, de uma evolução natural ou desligada da intervenção de quem, durante anos, se bateu por uma abordagem histórica rigorosa e democrática.

O envolvimento da Associação Cultural Ephemera constitui uma alteração relevante. Pelo protocolo celebrado com a autarquia, a associação propõe uma orientação centrada na investigação histórica, na documentação e na compreensão do Estado Novo, com atenção à resistência à ditadura e afastando qualquer propósito de recuperação saudosista do antigo regime.

Contudo, é inegável que o Centro Interpretativo tem por base a «Escola Cantina Salazar» e que, na mesma rua, se encontra a casa do antigo ditador. Há ainda espólio exposto e textos da sua autoria ou de exaltação da sua figura. Acresce o perigo concreto de o atual contexto favorecer o branqueamento do papel de Salazar e do regime fascista.

Há outra dimensão que merece reflexão: a forma como o centro é apresentado enquanto oportunidade turística para Santa Comba Dão. Tanto o executivo municipal do PS como o atual, do PSD, têm sublinhado esse potencial, chegando a referir Salazar como uma «marca do concelho».

É compreensível que uma autarquia procure valorizar os recursos disponíveis e encontrar novas oportunidades de dinamização económica. Também não se questiona que a história possa despertar interesse e atrair visitantes. Importa, porém, distinguir entre dar a conhecer uma personalidade histórica e transformá-la num elemento de promoção de um território, sobretudo quando se trata do principal responsável e interveniente direto na criação de um regime que retirou liberdades, prendeu e assassinou pessoas, incluindo habitantes de Santa Comba Dão.

Santa Comba Dão tem muito mais para oferecer: património, aldeias, tradições, gastronomia e recursos naturais. Uma estratégia turística diversificada, que valorize esses recursos e a identidade das populações, poderá contribuir para afirmar o concelho sem fazer da figura do antigo ditador a sua principal referência.

Acresce que o turismo, sendo uma atividade com potencialidades, não resolve por si só os problemas estruturais do concelho. Entre 2011 e 2021, Santa Comba Dão perdeu quase mil habitantes. O envelhecimento, a saída dos jovens, a escassez de emprego com direitos e as necessidades de melhoria da habitação, do saneamento básico, das acessibilidades, dos transportes e dos serviços públicos exigem respostas duradouras. O desenvolvimento de um território mede-se, antes de mais, pelas condições de vida daqueles que nele residem.

Quanto ao Centro Interpretativo, conhecer e estudar o Estado Novo constitui uma tarefa importante. E esse conhecimento não pode desligar-se da natureza do regime, das suas consequências para o país e, sobretudo, para os portugueses que o viveram.

Falar dessa época é falar de censura, polícia política, prisões e tortura, perseguição aos opositores, pobreza e atraso social, guerra colonial e ausência de liberdades. É também recordar aqueles que resistiram ao fascismo e lutaram pela democracia, tantas vezes pagando com a prisão, o exílio ou a própria vida. A compreensão desse período exige que nenhuma destas dimensões seja secundarizada perante a biografia de quem exerceu o poder.

Mas a localização do centro, a sua história e a carga simbólica que inevitavelmente transporta recomendam uma atenção que não se esgota na inauguração. Não tanto pelo que hoje se anuncia, mas pelo que poderá vir a representar ao longo do tempo.

As instituições permanecem para além daqueles que, em cada momento, as dirigem. Mudam os responsáveis, os contextos e até as conceções sobre a forma de apresentar a história. Por isso, mesmo as melhores intenções do presente não dispensam a preocupação com a preservação, no futuro, dos princípios que agora são afirmados.

Não se trata de alimentar suspeitas sobre o projeto atual, nem de prolongar indefinidamente uma controvérsia. Trata-se de reconhecer que a memória histórica, sobretudo quando envolve um passado de repressão e ausência de liberdade, exige rigor, independência e responsabilidade permanentes.

Santa Comba Dão não tem de renegar a sua história, mas também não deve ficar prisioneira dela. Conhecer o passado é indispensável para compreender o presente, não para procurar nele referências que possam comprometer o futuro.

Será, por isso, importante que, em qualquer momento futuro, aquele espaço não possa dar lugar a manifestações de saudosismo ou a interpretações revisionistas que atenuem a natureza repressiva do fascismo e contribuam para a reabilitação da figura de Salazar.

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