Ricardo Ferreira

19 de 03 de 2022, 08:30

Diário

Em Inglaterra à procura de ser feliz

Jovem que cresceu em Viseu mudou-se por estar farta de ser explorada

Fotógrafo: DR

Está a fazer sete anos que Daniela Azzip deixou Portugal e rumou para o Reino Unido. Licenciada em Ciências do Desporto, estava a trabalhar num ginásio em Lisboa antes de emigrar.

“O motivo real pelo qual o fiz foi por estar descontente com as condições de trabalho no nosso país e querer algo mais para a minha vida (especialmente no início de carreira) do que ser explorada e contar dinheiro todos os meses para sobreviver”, explica.

Daniela é natural de Vila Franca de Xira, mas cresceu em Bodiosa, uma freguesia às portas de Viseu.

A jovem, de 28 anos, só conseguiu arranjar trabalho meio ano após a conclusão do curso. Conta que nos primeiros trabalhos que encontrou lhe ofereceram “condições que não deveriam ser humanamente permitidas”.

“Desde trabalhar gratuitamente durante meses para assegurar um contrato de trabalho, ser obrigada a adquirir equipamento que custava mais do que o meu próprio salário, não ter direito a férias ou subsídio de alimentação, ser obrigada a trabalhar horas e dias extras sem receber qualquer compensação por isso, ter a minha vida pessoal controlada, ser humilhada e rebaixada em frente a clientes, muitos deveres e poucos direitos”, diz.

Farta de ser explorada mudou-se para terras de sua majestade. Vive e trabalha em Londres, cidade onde se encontrava a sua melhor amiga.

“Eu também tinha alguma ideia de como o país funcionava em termos de trabalho, burocracia, custo de vida, etc, e também foi uma ajuda enorme ter alguém que conheço por perto numa fase tão assustadora”, refere.

Em Inglaterra Daniela divide o seu tempo entre duas áreas distintas, o fitness e o turismo.

O seu ganha-pão é a área do exercício físico, para a qual se licenciou. Tem um espaço próprio onde trabalha como treinadora pessoal.

Entretanto, iniciou-se numa nova aventura. Dois anos depois de chegar ao Reino Unido, arrancou com um projeto relacionado com o mundo das viagens, o “Daniela Azzip Trips”. Tem um blog, um canal de YouTube e uma conta de Instagram onde partilha lugares para viajar e o que fazer neles. Inglaterra está em destaque, mas não só.

A jovem emigrante está a fazer aquilo que gosta, mas quando aterrou em Londres começou por trabalhar numa pastelaria onde deitou “sangue, suor e lágrimas”. Trabalhou horas a fio, fez vários turnos, mas nunca desistiu. “Dei horas de sono e praticamente toda a energia que tinha para a companhia onde trabalhava”, revela.

Após concluir o curso de treinadora pessoal tudo mudou. Conseguiu trabalho em vários ginásios e agora trabalha por conta própria.

A mudança de país nunca é fácil para ninguém, defende Daniela, lembrando que “não é nada agradável” sair “da nossa zona de conforto e ir em busca do desconhecido”.

“Cresci em Bodiosa, onde costumava acordar com o som do galo ou dos pássaros a chilrear, e a ideia de me mudar para uma grande cidade como o Porto ou Lisboa, nunca foi muito apelativa – e agora aqui estou eu, numa das maiores cidades da Europa, cheia de pessoas a correr de um lado para o outro, barulhos de carro e sirenes constantemente, como se houvesse tanta mais gente à minha volta, e ainda assim eu me sentisse mais sozinha”, desabafa, acrescentando que felizmente teve a ajuda da sua amiga.

Daniela precisou de cerca de dois anos para começar a gostar de estar em Inglaterra e sentir que a sua ida para Londres “tinha sido a melhor escolha, mesmo depois do Brexit”.

Uma das vantagens de viver na capital do Reino Unido, salienta, é o facto de a cidade ser “composta por emigrantes”. Também por isso sempre se sentiu bem tratada, com dignidade e respeito.

“A maior parte das experiências que tive relativas a descriminação aconteceram em áreas mais remotas do país, onde as pessoas não estão tão habituadas a ver estrangeiros”, aponta.

Daniela recusa-se a comprar Portugal e Inglaterra. Considera que ambos os países têm aspectos positivos e outros negativos. No nosso país elogia a comida, o clima, as pessoas, a praia. Critica a burocracia, a legislação, as condições de trabalho e a valorização dos trabalhadores, onde, defende, “Portugal falha redondamente”.

“Para pessoas como eu, que lutam para ser recompensadas pelo trabalho que fazem, Portugal é um ótimo país para se passar uma reforma, não para investir a minha energia enquanto sou nova e ambiciosa numa empresa que nunca me levará a lado nenhum”, argumenta.

No Reino Unido considera que as coisas são diferentes. Tem a ideia que “as leis são feitas para facilitar a vida das pessoas”.

“Os feriados são colocados às sextas ou segundas para que as pessoas possam ter fins de semana prolongados e não corram o risco de perdê-los. O trabalho é pago à hora, então o trabalhador está mais disponível para trabalhar mais horas, uma vez que em troca, receberá mais”, frisa.

“Existem imensas outras vantagens comparado com Portugal como o facto de o serviço de saúde nacional cobrar tratamentos que não são essenciais, mas podem melhorar a qualidade de vida do cidadão. O Estado oferece incentivos e apoios para pessoas que estabelecem o seu próprio negócio”, adianta.

Daniela não esconde, todavia, que sente falta de “ver o sol praticamente todos os dias”, de ir à praia com calor. De comidas simples e dos seus sabores como uma simples sopa.

As saudades por mais que sejam muitas não a fazem querer voltar mais depressa ao nosso país, que visita pelo menos uma vez por ano.

“Quando penso que desde de que saí as coisas não melhoraram nem um pouco, fica difícil dizer que sim [vou regressar]. Ver os preços dos produtos no supermercado tão ou ainda mais caro do que aquilo que vejo aqui e pensar que o salário mínimo é praticamente metade do que recebemos no Reino Unido (e muitos portugueses não recebem mais do que isso) corta-me o coração”, afirma.

A ideia de voltar não é entusiasmante, mas lá confessa que gostava de regressar, “mas com projetos alternativos para que possa aproveitar o melhor que o nosso país tem para oferecer”.